segunda-feira, 24 de julho de 2017

Não há deuses


Retomo o ponto, depois de tudo e mais alguma coisa - e ainda da notícia que se segue do Expresso deste fim de semana. Talvez tenhamos sido educados, e eduquemos, para o perfeccionismo - académico ou moral. Talvez falte completar com o ensino da aceitação da debilidade, da fragilidade, da ferida própria. Se só não alcançamos o 20 porque não queremos (não nos esforçamos o suficiente), se tudo se encontra na minha disponibilidade, se sou, enfim, omnipotente, que espaço para acolher o que me falta (mas falta?) para me completar? Só há espaço para a graça se houver reconhecimento de indigência. Não se trata de poesia: experimente-se sair do Secundário com uma média muito elevada, todos os elogios dos professores, famílias e próximos, e aterre-se na primeira negativa, no primeiro 10 ou 11 na faculdade. Somos, então, os piores do mundo. Que nada. Mas sem pedagogia prévia, há muito (s) quem (que) fique (ficam) fora de rede. Há um livrinho de Paolo Scquizzato, já aqui falei, na coleção "Grão de Mostarda", nas Paulinas, chamado "O elogio da imperfeição". Um aparente paradoxo, em forma de título, que é uma preciosidade espiritual (para quem educa, estou em crer). Ou como Howard Gardner não se engana, na nona inteligência (múltipla), a existencial, pouco presente na escola: o (estritamente) espiritual como podendo, neste contexto, ajudar a ler a vida (e o mundo). 

Com direito a chamada de capa: "Melhor turma do país aflita com chumbos"

E, no interior do jornal, uma página inteira com a seguinte reportagem na Faculdade:

"Melhores alunos sentem dificuldades no 2º ano de Medicina

Em duas cadeiras do 2º ano da Faculdade de Medicina do Porto chumbaram 50% dos alunos

Há dois anos foram notícia por terem entrado no Ensino Superior com as classificações mais altas do paísO aluno mais ‘fraco’ entre os 245 caloiros da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) ingressou com 18,67 valores de média. Este ano, a notícia é outra. Muitos acabaram por ser surpreendidos com as primeiras negativas do percurso escolar e com notas a que não estavam habituadosEm várias cadeiras, a média ficou nos 10 valores ou menos. A Morfofisiologia Integrativa e a Morfofisiologia dos Sistemas Respiratório e Urinário vários exames foram corridos a 6, 7 e 8 valoresE nestas duas unidades curriculares (são seis disciplinas ao todo no 2º semestre), as taxas de não conclusão foram de 53% e 48%, respetivamente. Nos dois anos letivos anteriores tinham ficado em torno dos 20% ou menos.
Os alunos falam numa época de exames “dantesca” e “infernal” e garantem que há colegas que se “foram abaixo”. A direcção da FMUP promete analisar o que se passou. “Estes alunos continuam a ser muito bons. Têm um espírito ganhador e queremos que continuem assim. Mas não conseguem lidar com a frustração e o insucesso. Eles têm que perceber que o mundo não vai acabar porque reprovam a uma cadeira”, aponta a diretora da FMUP, Maria Amélia Ferreira (…)
“A época de exames foi dantesca. Cada nota que recebia perdia mais um bocado de vontade de estudar. O grau de exigência em várias provas era desproporcionado e o âmbito das questões distinto do que ensinaram nas aulas”, relata um aluno. (…)
Foi terrível. Estudava de manhã, à tarde, à noite até a cabeça não aguentar mais”. E a verdade é que não aguentou. “Quando já tinha metade dos exames feitos, o meu cérebro começou a ir abaixo. Era uma fadiga imensa. Tentava estudar mas só queria dormir. Expliquei aos meus pais o que se passava e compreenderam”, conta outra aluna com várias cadeiras para trás. (…)
Estes problemas estão a provocar a exaustão física (há alunos a dormir três horas por dia na época de exames), intelectual (por estudarem mais de 100 horas por semana) e emocional (pela injustiça que sentem por não obterem os resultados equivalentes ao esforço)”. Vários jovens contam que há quem recorra ao consumo excessivo de cafés, ‘red bulls’, cigarros e até anfetaminas como forma de aumentar o rendimento. (…)
Pedro Teixeira, vice-reitor da Universidade do Porto, reforça a ideia. “É preciso abandonar a cultura do exame final” (…) “Num mundo mais exigente e complexo, o trabalho e a avaliação têm de ser contínuos e o pensamento crítico promovido. Os professores precisam de tempo para investigar e os alunos para ter outras experiências fora da faculdade”.

Isabel LeiriaChumbos e notas baixas atingem a melhor turma de 2015Expresso, 2334, 22/07/2017, p.22

Historiografia portuguesa


Acho que, no panorama geral, o que está a fraquejar algo [na historiografia portuguesa] é a História moderna, porque a contemporânea tem larga expressão, se bem que eu não sei se se está a fazer a melhor historiografia. Sinto que estamos a correr um risco, neste momento, que é incorrer numa narratividade. Uma história narrativa pode ser feita, mas é difícil fazê-la bem, sem estarmos a fazer meras descrições, sem grande interpretação e sem grande conteúdo reflexivo. Mas vejo com alguma preocupação a parte moderna, a parte, até, da nossa expansão...

Maria Helena da Cruz Coelho, primeira mulher a ensinar História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, primeira mulher a ascender à posição de Professora Catedrática, no Departamento de História, em entrevista a Pedro Olavo SimõesHistória - JN, nº8, Junho 2017, p.62

Universia (II)


Depois, há ainda um terceiro ponto: devem construir hoje os seus curricula não como eu o fiz e como se fazia, muito monolíticos, mas diversificados. Se existe uma licenciatura, se existe um mestrado e se existe um doutoramento, se fosse hoje, eu faria em diferentes àreas, por muito que elas pudessem ser convergentes. E fiz assim no meu percurso. A certa altura, abri-me a criar outros cursos: além do simples mestrado em História e História da Idade Média, passámos a ter, também, Política Cultural Autárquica. Dei a minha colaboração no mestrado de alimentação e ainda comecei a dar no doutoramento. E, de base, eu própria tinha tirado outro curso, o de bibliotecários e arquivistas. E também tinha feito as cadeiras da educação. Portanto, não afunilar os curricula, mas alargá-los com diversas ferramentas. Depois dessa formação é que será tempo de ver para que tendência irão pender

Maria Helena da Cruz Coelho, sobre conselhos a dar a quem se predisponha, hoje, a trabalhar em História, em entrevista a Pedro Olavo SimõesHistória - JN, nº8, Junho 2017, p.79 

Universia


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E não me demiti, quando o mundo era menos rápido do que hoje, de ir ao cinema, de ler livros, de ouvir música...O mundo, hoje, não nos deixa tempo como deixava. No primeiro ano, quando vim para a Universidade, perdi a bolsa, porque vim de Aveiro, cheguei aqui e queria fazer um curso de dança (de dança não de dançar, mas de saber), queria fazer um curso de cinema para saber como é que se filmava, queria ir ao cinema e discutir os filmes, queria fazer um curso de Doutrina Social da Igreja...e fiz tudo. É evidente que no meio disto tudo, tive média de 13,3 em vez de 13,5. Simplesmente, a Fundação Gulbenkian era de uma imparcialidade como não há nos nossos dias. Compreendia perfeitamente que uma transição poderia fazer com que uma pessoa não atingisse o mesmo valor, renovava a bolsa e só a retirava se, no ano seguinte, não se recuperasse a média.

Maria Helena da Cruz Coelho, primeira mulher a ensinar História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, primeira mulher a ascender à posição de Professora Catedrática, no Departamento de História, em entrevista a Pedro Olavo SimõesHistória - JN, nº8, Junho 2017, p.79

Ainda a "lenda negra"


Quando me vêm com as trevas, eu coloco sempre três luzinhas e, depois, as pessoas ficam um bocadinho caladas. Digo: foi nas trevas que nasceram os Estudos Gerais, seja isso o que for; foi nas trevas que nasceram as Cortes, com todas as suas mudanças, seja isso o que lá foi, essa assembleia onde estão os diversos representantes; e foi nas trevas que nasceram os municípios, o poder local, seja isso lá o que quiserem que seja. Portanto, são três negrões, que, pelos vistos, estão aí, em pleno século XXI.

Maria Helena da Cruz Coelho, sobre o entendimento da Idade Média como "idade das trevas, ainda presente no séc.XXI, em entrevista a Pedro Olavo Simões, História - JN, nº8, Junho 2017, p.71

domingo, 23 de julho de 2017

Sonhos de mobilidade social (e ética do trabalho)



Uma canção de Dwight Yoakam.

Ao terceiro concerto da temporada



Melancolia, minimalismo, música. Sem arrebatamentos, sem embriaguez de emoções, sem explosões de adrenalina. Ouçam-me, parece dizer, ao longo de todo o concerto. Como se cuidasse de uma preciosidade, como se não concedesse espaço a mais do que degustar cada canção até ao fim, sem nunca alterar o tom, numa voz clara e límpida. Intimista, mais do que para o ar livre, de crianças e bebés, ou de quem pede, cá atrás, "canta mais alto!", prossegue em canções que não se estendem. Quem quer, sente-se na relva e aprecie. Neste caso, se não há um público caloroso, também não é o êxtase que se pede. Um escultura que faz desaparecer todo o excesso. Um travo, um aroma - e "só". Luísa Sobral passou esta noite pelo Auditório Exterior do Teatro de Vila Real.