Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

A nuance de Jerónimo

Os relatórios podem não ser dos Serviços Secretos, mas não se fariam sem os Serviços Secretos.

Jerónimo de Sousa, esta tarde, no Parlamento


P.S.: Mas registe-se, igualmente, a posição do PM: nenhum partido convocou, até hoje, o tema do Sistema de Informações, para um dos debates quinzenais. Foi o primeiro-ministro a fazê-lo: “acho que é elucidativo!” (Pedro Passos Coelho). Um ponto a favor de Passos Coelho (como, ontem, até Augusto Santos Silva reconhecia).

O 'progresso', a liberdade e dignidade humanas


Começo por fazer notar que a crença no futuro e a noção de que a Humanidade caminha para um mundo melhor exprimem uma das ideias típicas da civilização ocidental na época moderna. Não se pensava assim antes do tempo dos Descobrimentos, nem nos outros continentes. Simplificando muito, pode-se dizer que quando os europeus começaram a conhecer as outras civilizações e se deram conta da sua superioridade técnica no domínio militar, pensaram poder dominar todo o Universo, e caminhar assim para uma sociedade que abrangesse a Humanidade inteira (…) Teve quase sempre como pressuposto que o bem-estar seria para todos, e tomou como objectivos básicos, depois da Revolução Francesa, a conquista generalizada da liberdade individual e colectiva, a luta pela igualdade de todos os homens, a supressão das desigualdades e das injustiças. Ninguém, nem sequer os pensadores e políticos conservadores, se atreviam a pôr em causa o propósito de generalizar os benefícios da civilização ao conjunto da Humanidade. Se contestavam a democracia, era por pensarem que só uma elite podia conduzir o mundo a esse fim feliz; as massas seriam incapazes de o fazer. A descoberta das leis da evolução das espécies do reino animal e vegetal, interpretadas como um processo de aperfeiçoamento constante, vieram trazer a tais ideias um apoio científico. No fim do século XIX, seria absurdo não acreditar no progresso universal.

Mas esta visão da História era muito diferente da que predominava na Idade Média e nos países não europeus. No Ocidente medieval e nos outros continentes pensava-se que o mundo era regido por uma ordem natural imposta por Deus ou pela própria Natureza, com uma estrutura inalterável que era preciso respeitar. As perturbações que, de vez em quando, sobrevinham eram o resultado da infracção das leis do cosmos. O mundo era como uma espécie de máquina que o homem podia estragar, mas que acabava sempre por se reconstituir. Uma das mais importantes missões dos reis e dos chefes era assegurar a manutenção da ordem e da equidade. A «ordem» incluía a desigualdade entre os homens: uns mandavam, outros deviam obedecer; uns eram ricos, outros pobres; uns fortes, outros fracos. Competia aos primeiros assegurar a sobrevivência dos segundos e a estes resignarem-se com a sua sorte. As injustiças que não se pudessem reparar neste mundo seriam reparadas no outro: os bons teriam uma recompensa eterna e os maus um castigo perpétuo.

Havia no Ocidente cristão a ideia de que os homens seguiam colectivamente um caminho com princípio, meio e fim, desde a criação até ao fim dos tempos. Entre o ponto de partida e o de chegada, havia o pecado, que era, afinal, uma desordem provocada pela insubmissão do homem às prescrições ditadas por Deus no princípio do mundo. A vinda do Filho de Deus ao mundo dera a possibilidade de reparar o pecado, e Deus esperava que o mundo estivesse, por assim dizer, «maduro», para determinar o fim dos tempos, em que todas as ambiguidades e injustiças seriam reparadas pelo castigo definitivo dos maus e a recompensa eterna dos bons.

Estão a ver que a ideia de progresso predominantemente na época moderna parece derivar da concepção cristã da História como uma caminhada em direcção ao fim dos tempos, isto é, até alcançar a resolução de todas as contradições e injustiças. Ora aquilo que, no cristianismo, resultava da intervenção oculta de Deus, concebido como uma espécie de condutor do seu povo de homens justos, era, no mundo moderno, conseguido pelo próprio homem com a sua inteligência, a sua razão e o seu saber.

Fora da Europa cristã, não se acreditava numa intervenção tão próxima de Deus. Não havia ideias claras sobre o fim do mundo. O modelo de compreensão da História baseava-se na sucessão das estações do ano: depois do frio do Inverno, vinha a época temperada da Primavera; sucedia-se o calor do Verão; mais tarde voltava a temperatura média do Outono; por fim regressava-se ao Inverno e recomeçava o ciclo incessante das quatro estações do ano. Este ciclo trazia a morte, mas também a renovação periódica da natureza. A noite e o dia sucediam-se uma ao outro num ciclo mais curto, mas igualmente regular. O tempo humano era semelhante: havia períodos favoráveis e desfavoráveis, com menos regularidade do que as estações do ano, mas que também se sucediam uns aos outros: a prosperidade era efémera, mas a desgraça também não durava sempre (…)

O colapso da ideia de progresso universal e quase mecânico é, na minha opinião, um bem. Veio desfazer as ilusões criadas por uma esperança insensata. Imaginar que bastaria o esforço e o sacrifício de uma ou duas gerações para alcançar a harmonia e a justiça foi, na verdade, uma ilusão perniciosa. Teve o efeito perverso de sugerir que o sacrifício temporário garantiria um resultado definitivo e feliz. A crença no progresso constante foi um engano porque pressupõe a superação do tempo e a supressão da liberdade. Com efeito, o tempo traz consigo o envelhecimento e a morte. E a liberdade tem como contrapartida a possibilidade de escolher o bem, mas também a violência, a opressão e a crueldade. Ora o homem não pode viver sem tempo e sem liberdade. Tem de morrer para dar lugar a outros homens. Tem de conquistar a sua dignidade de forma livre e consciente. Estas imposições do próprio ser trazem as desigualdades e a morte. Daí a necessidade de reparar o mal que ambas implicam. Só se pode imaginar a vitória definitiva sobre os males fundamentais quando se esquece a própria condição humana.

Ibidem, 63-67.
 

'Melancolia', de Lars von Trier


Melancolia Poster

Não admira, por isso, que o pessimismo das previsões acerca do futuro global se torne cada vez mais negro. Inspirou, por exemplo, o recente filme de Lars Von Trier, Melancolia. Termina com uma cena patética: duas mulheres e uma criança sentados debaixo de uma árvore, à espera do choque de um planeta errante com a Terra, isto é, do fim do mundo. A criança está persuadida de que essa espécie de gaiola é, afinal, uma «gruta secreta» que os protege da catástrofe total. Mas os adultos sabem o que os espera. A conclusão é implacável: tudo o que constitui e se cultiva na vida humana – riqueza, valores, hábitos, boa educação, arte, ciência, conhecimento, saúde, enfim, os valores do quotidiano evocado em todo o filme – tudo se torna absurdo. Não se esqueça, porém, que as duas mulheres e a criança esperam o embate de mãos dadas, o que quer dizer que encontram ajuda na solidariedade. O perigo comum aproxima-os.

(…) Sem as realidades espirituais não há nenhuma hierarquia de valores a preservar. É deles que depende a solidariedade – aquela que faz os protagonistas da última sequência de Melancolia darem as mãos – e a responsabilidade, sem as quais nada há a fazer perante a catástrofe.

José Mattoso, Levantar o Céu. Os labirintos da Sabedoria, Temas e Debates, 2012, 10-11.

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Notícias do defeso

Jardim sai de Braga. Visto de fora, parece exagero de Salvador. Não seria o primeiro.Sérgio Conceição pode suceder ao técnico madeirense. Num misto de teoria da conspiração e ataque preventivo, Fernando Guerra escreve, hoje, n'ABola que Jardim não tinha categoria para treinar os bracarenses e que pode ter-se feito demitir, na entrevista a OJogo (em que terá ferido a susceptibilidade do Presidente do S.C. Braga), para ir para o Porto. O medo desta gente que Vítor Pereira saia do FCP é de rir (todos os dias ABola o coloca no Olympiakos, no que em Psicologia se chama 'acto falhado'). Entretanto, Scolari escolheu Hélder Conduto para revelar por que Baía não era convocado, em 2004, para a Selecção. Foi Pinto da Costa quem o sugeriu, afirma. Simultaneamente, porém, diz que nunca quis explicar a não convocação de Baía, pois seria comprar uma guerra com o mesmo Pinto da Costa. Ou seja, Pinto da Costa queria e não queria que Baía fosse convocado. Definitivamente, o princípio da não contradição não é leccionado nas aulas de Filosofia no Uzbequistão.

Gente que nunca vai à televisão

Vítor Aguiar e Silva, Maria Helena da Rocha Pereira, Hermínio Martins. Apenas três nomes que nunca aparecem nas tv's saturadas, repetitivas e banais. Um espaço mediático que não contempla três das maiores vozes portuguesas não contribui para o exercício crítico da cidadania, nem mostra capacidade de hierarquizar o essencial, de uma editoria de qualidade.

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Pensar depressa e devagar (IV)

O apelo do paternalismo liberalizante foi reconhecido em muitos países, incluindo o Reino Unido e a Coreia do Sul, e por políticos de muitas bancadas, incluindo os conservadores britânicos e o Governo democrata do Presidente Obama. De facto, o Governo britânico criou uma nova pequena unidade cuja missão é aplicar os princípios da ciência comportamental para ajudar o Governo a concretizar melhor os seus objetivos. O nome oficial deste grupo é Behavioural InsightTeam, mas é conhecido tanto fora como dentro do Governo como a Nudge Unit. Thaler é conselheiro desta equipa.
Na sequência de ter escrito Nudge, Sunstein foi convidado pelo Presidente Obama para administrador do Gabinete de Informação e Questões de Regulamentação, um cargo que lhe deu oportunidades consideráveis de encorajar a aplicação das lições da psicologia e da economia comportamental nos departamentos governamentais. A missão está descrita no Relatório do Gabinete de Gestão e Orçamento, de 2010. Os leitores deste livro apreciarão a lógica subjacente às recomendações específicas, incluindo o encorajamento de «divulgações claras, simples, relevantes e significativas». Reconhecerão também princípios básicos como «a apresentação é muito importante; se, por exemplo, um resultado potencial for apresentado como uma perda, poderá ter maior impacto do que se for apresentado como um ganho».
O exemplo da regulamentação quanto à exibição de dísticos relativos ao consumo de combustível foi mencionado anteriormente. Aplicações adicionais que foram postas em prática incluem inscrição automática em seguros de saúde, uma nova versão das orientações dietéticas, que substitui a incompreensível Pirâmide dos Alimentos pela poderosa imagem de um prato de comida cheio de uma dieta equilibrada, e uma regra formulada pelo Ministério da Agricultura, que permite a inclusão de mensagens como «90% livre de gordura» na etiqueta dos produtos de carne, desde que seja também exibida a mensagem «10% (545) de gordura», «sequencialmente, em letras da mesma cor, tamanho e tipo e com a mesma cor de fundo do anúncio da ausência de gordura». Os Humanos, ao contrário dos Econs, precisam de ajuda para tomar boas decisões e há modos informados e não intrusivos de fornecer essa ajuda.
 
DOIS SISTEMAS
Este livro descreveu o funcionamento da mente como uma interação difícil entre duas personagens fictícias: o automático Sistema 1 e o esforçado Sistema 2. Estão agora bastante familiarizados com as personalidades dos dois sistemas e capazes de antecipar a forma como poderão reagir a diferentes situações. E claro que se recordam também que os dois sistemas não existem realmente no cérebro, ou em qualquer outra parte. «O Sistema 1 faz X» é uma forma de dizer «X ocorre automaticamente». E «o Sistema 2 é mobilizado para fazer é como dizer de forma abreviada «aumenta a comoção, as pupilas dilatam, a atenção é concentrada e a atividade Y é realizada». Espero que achem a linguagem dos sistemas tão facilitadora como eu e que tenham adquirido um sentido intuitivo de como funcionam, sem ficarem confundidos com a questão de saber se existem. Tendo feito este necessário aviso, continuarei a usar essa linguagem até ao fim.
O atento Sistema 2 é quem nós pensamos que somos. O Sistema 2 articula os juízos e faz as escolhas, mas, muitas vezes, adota ou racionaliza ideias e sensações que foram geradas pelo Sistema 1. Poderão não saber que estão otimistas acerca de um projeto porque algo acerca da sua responsável vos recorda a vossa querida irmã, ou que não gostam de uma pessoa que se parece vagamente com o vosso dentista. Se vos pedirem uma explicação, porém, procurarão na vossa memória razões apresentáveis e com certeza que descobrirão algumas. Além disso, irão acreditar na história que inventaram. Mas o Sistema 2 não é apenas um tradutor do Sistema 1; evita também que muitos pensamentos disparatados e impulsos inapropriados se expressem abertamente. O investimento da atenção melhora o desempenho em inúmeras atividades - pensem no risco de conduzir num espaço estreito com a vossa mente (546) à deriva - e é essencial para algumas tarefas, incluindo a comparação, a escolha e o raciocínio ordenado. Contudo, o Sistema 2 não é um paradigma de racionalidade. As suas capacidades são limitadas, bem como o conhecimento a que tem acesso. Nem sempre pensamos bem quando raciocinamos e nem sempre os erros são devidos a intuições intrusivas e incorretas. Frequentemente, cometemos erros porque nós (o nosso Sistema 2) não sabemos fazer melhor.
Passei mais tempo a descrever o Sistema 1 e dediquei muitas páginas a erros do juízo intuitivo e da escolha intuitiva, que lhes atribuo. No entanto, o número relativo de páginas é um fraco indicador do equilíbrio entre as maravilhas e as falhas do pensamento intuitivo. O Sistema 1 está de facto na origem de muito daquilo que fazemos erradamente, mas é também a origem da maioria daquilo que fazemos bem - que é a maior parte daquilo que fazemos. Os nossos pensamentos e ações são rotineiramente guiados pelo Sistema 1 e são em geral adequados. Uma das maravilhas é o rico e detalhado modelo do nosso mundo que é conservado na memória associativa: distingue os acontecimentos surpreendentes dos normais numa fração de segundo, gera de imediato uma ideia daquilo que era esperado em vez da surpresa e procura automaticamente uma interpretação causal para as surpresas e os acontecimentos à medida que estes ocorrem.
A memória conserva também o vasto repertório de capacidades que adquirimos numa vida inteira de prática, o qual produz automaticamente soluções adequadas para desafios que vão surgindo, desde contornar uma grande pedra no caminho até evitar a incipiente reclamação de um cliente. A aquisição de capacidades exige um ambiente regular, uma oportunidade adequada para praticar e uma rápida e inequívoca retroação acerca da correção dos pensamentos e das ações. Quando estas condições estão preenchidas, a capacidade acaba por se desenvolver e os juízos e as escolhas intuitivas que depressa vêm à mente serão, na sua maioria, exatas. Tudo isto é trabalho do Sistema 1,0 que significa que ocorre automática e rapidamente. Um indicador do desempenho proficiente é a capacidade de lidar com vastas quantidades de informação de forma veloz e eficiente.
Quando se encontra um desafio para o qual está disponível uma resposta proficiente, essa resposta é evocada. O que acontece na ausência (547) dessa capacidade? Por vezes, como no problema 17 x 24 = ?, que exige uma resposta específica, é logo evidente que deverá ser chamado o Sistema 2. Mas é raro o Sistema 1 ficar mudo. O Sistema 1 não é constrangido pelos limites da capacidade e é profícuo nos seus cálculos. Quando está empenhado em encontrar uma resposta para uma pergunta, gera ao mesmo tempo as respostas a questões relacionadas e poderá substituir a resposta exigida por outra que com maior facilidade surja no espírito. Nesta conceção das heurísticas, a resposta heurística não é necessariamente mais simples ou mais frugal do que a pergunta original - é apenas mais acessível, calculada com maior rapidez e facilidade. As respostas heurísticas não são aleatórias e estão, muitas vezes, aproximadamente corretas. E, por vezes, estão bastante erradas.

Ibidem

Domingo, 27 de Maio de 2012

Da sociedade do trabalho à sociedade do precariado e a legitimidade do capitalismo

La consecuencia no deseada de la utopía neoliberal es una brasilización de Occidente: son notables las similitudes entre cómo se está conformando el trabajo remunerado en el llamado Primer Mundo y cómo es el del Tercer Mundo. La temporalidad y la fragilidad laborales, la discontinuidad y la informalidad están alcanzando a sociedades occidentales hasta ahora baluartes del pleno empleo y el Estado del bienestar. Así las cosas, en el núcleo duro de Occidente la estructura social está empezando a asemejarse a esa especie de colcha de retales que define la estructura del sur, de modo que el trabajo y la existencia de la gente se caracteriza ahora por la diversidad y la inseguridad.
En un país semiindustrializado como Brasil, los que dependen del salario de un trabajo a tiempo completo solo representan a una pequeña parte de la población activa; la mayoría se gana la vida en condiciones más precarias. Son viajantes de comercio, vendedores o artesanos al por menor, ofrecen toda clase de servicios personales o basculan entre diversos tipos de actividades, empleos o cursos de formación. Con la aparición de nuevas realidades en las llamadas economías altamente desarrolladas, la “multiactividad” nómada —hasta ahora casi exclusiva del mercado laboral femenino occidental— deja de ser una reliquia premoderna para convertirse rápidamente en una variante más del entorno laboral de las sociedades del trabajo, en las que están desapareciendo los puestos interesantes, muy cualificados, bien remunerados y a tiempo completo.
Quizá en este sentido las tendencias de Alemania, a pesar del éxito que se atribuye a su modelo, representen las de otras sociedades occidentales. Por una parte, Alemania disfruta de las mejores condiciones comerciales que ha tenido en muchos años. La principal economía europea es modélica por su forma de contener una crisis: tasas de interés bajas, flujo de capital entrante, aumento sostenido de la demanda mundial de sus productos, etc. Así, el desempleo en Alemania ha caído un 2,9%, y solo alcanza al 6,9% de la población activa.
Alemania es modélica por su forma de contener la crisis, pero el empleo precario crece demasiado
Por otra parte, se ha registrado un excesivo incremento del empleo precario. En la década de 1960 solo el 10% de los trabajadores pertenecía a ese grupo; en la de 1980 la cifra ya se situaba en un cuarto, y ahora es de alrededor de un tercio del total. Si los cambios continúan a este ritmo —y hay muchas razones para pensar que será así— en otros diez años solo la mitad de los trabajadores tendrá empleos a tiempo completo de larga duración, mientras que los de la otra mitad serán, por así decirlo, trabajos a la brasileña.
Bajo la superficie de la milagrosa maquinaria alemana se oculta esta expansión de la economía política de la inseguridad, enmarcando una nueva lucha por el poder entre actores políticos ligados a un territorio (Gobiernos, Parlamentos, sindicatos) y actores económicos sin ataduras territoriales (capitales, finanzas, flujos comerciales) que pugnan por un nuevo diferencial de poder. Así se tiene la fundada impresión de que los Estados solo pueden elegir entre dos opciones: o bien pagar, con un elevado desempleo, niveles de pobreza que no hacen más que incrementarse constantemente; o aceptar una pobreza espectacular (la de los “pobres con trabajo”), a cambio de un poco menos de desempleo.
El “trabajo para toda la vida” ha desaparecido. En consecuencia, el aumento del paro ya no puede explicarse aludiendo a crisis económicas cíclicas; se debe, más bien, a: 1) los éxitos del capitalismo tecnológicamente avanzado; y 2), la exportación de empleos hacia países de renta baja. El antiguo arsenal de políticas económicas no puede ofrecer resultados y, de una u otra manera, sobre todos los empleos remunerados pesa la amenaza de la sustitución.
De este modo, la política económica de la inseguridad está ante un efecto dominó. Factores que en los buenos tiempos solían complementarse y reforzarse mutuamente —el pleno empleo, las pensiones garantizadas, los elevados ingresos fiscales, la libertad para decidir políticas públicas— ahora se enfrentan a una serie de peligros en cadena. El empleo remunerado se está tornando precario; los cimientos del Estado de bienestar se derrumban; las historias vitales corrientes se desmenuzan; la pobreza de los ancianos es algo programado de antemano; y, con las arcas vacías, las autoridades locales no pueden asumir la demanda creciente de protección social.
La “flexibilidad del mercado laboral” es la nueva letanía política, que pone en guardia a las estrategias defensivas clásicas. Por doquier se pide más “flexibilidad” o, dicho de otro modo, que los empresarios puedan despedir más fácilmente a sus trabajadores. Flexibilidad también significa que el Estado y la economía trasladan los riesgos al individuo. Ahora los trabajos que se ofrecen son de corta duración y fácilmente anulables (es decir, “renovables”). Por último, flexibilidad también significa: “Anímate, tus capacidades y conocimientos están obsoletos y nadie puede decirte lo que tienes que aprender para que te necesiten en el futuro”. La posición un tanto contradictoria en la que se sitúan los Estados cuando insisten al mismo tiempo en la competitividad económica nacional y la globalización neoliberal (es decir, en el nacionalismo y la internacionalización) ha defraudado políticamente a quienes reivindicaban el derecho individual de los ciudadanos a la estabilidad laboral y a unos servicios sociales dignos.

Parte de la clase media ha sido devorada por la crisis del euro. Vamos hacia una inseguridad endémica
De todo ello resulta que cuanto más se desregulan y flexibilizan las relaciones laborales, con más rapidez pasamos de una sociedad del trabajo a otra de riesgos incalculables, tanto desde el punto de vista de las vidas de los individuos como del Estado y la política. En cualquier caso, una tendencia de futuro está clara: la mayoría de la gente, incluso de los estratos medios, aparentemente prósperos, verá que sus medios de vida y entorno existencial quedarán marcados por una inseguridad endémica. Parte de las clases medias han sido devoradas por la crisis del euro y cada vez hay más individuos que se ven obligados a actuar como "Yo y asociados" en el mercado de trabajo.
Mientras el capitalismo global disuelve en los países occidentales los valores esenciales de la sociedad del trabajo, se rompe un vínculo histórico entre capitalismo, Estado de bienestar y democracia. No nos equivoquemos: un capitalismo que no busque más que el beneficio, sin consideración alguna hacia los trabajadores, el Estado de bienestar y la democracia, es un capitalismo que renuncia a su propia legitimidad. La utopía neoliberal es una especie de analfabetismo democrático, porque el mercado no es su única justificación: por lo menos en el contexto europeo, es un sistema económico que solo resulta viable en su interacción con la seguridad, los derechos sociales, la libertad política y la democracia. Apostarlo todo al libre mercado es destruir, junto con la democracia, todo el comportamiento económico. Las turbulencias desatadas por la crisis del euro y las fricciones financieras mundiales solo son un anticipo de lo que nos espera: el adversario más poderoso del capitalismo es precisamente un capitalismo que solo busque la rentabilidad.
Lo que priva de su legitimidad al capitalismo tecnológicamente avanzado no es que derribe barreras nacionales y produzca cada vez más con menos mano de obra, sino que bloquee las iniciativas políticas conducentes a la conclusión de un pacto para la formación de un nuevo modelo social europeo. Cualquiera que hoy en día piense en el desempleo no debería quedarse atrapado en viejas querellas como las relativas al "mercado laboral secundario" o "los gastos salariales decrecientes". Lo que parece un derrumbe debe convertirse más bien en un periodo fundacional de nuevas ideas y modelos, en una época que abra las puertas al Estado transnacional, al impuesto europeo a las transacciones financieras y a la "utopía realista" de una Europa Social para los Trabajadores.

Ulrich Beck, ElPais, 27/05/12