sábado, 27 de maio de 2017

Sistemas eleitorais


Existem duas grandes famílias de sistemas eleitorais: os sistemas maioritários, os primeiros a existir; e os sistemas proporcionais, que surgiram posteriormente. Enquanto os sistemas maioritários são normalmente melhores para se escolherem governantes e piores para se seleccionarem representantes, o inverso também é válido para os sistemas proporcionais: bons para se escolherem deputados e representantes, mas maus para se designarem governantes. Enquanto os sistemas maioritários privilegiam a governabilidade, os proporcionais preferem a representatividade e a legitimidade. Se o sistema proporcional é porventura mais justo, o sistema maioritário é mais eficaz. 
A adopção de um ou outro, destes dois sistemas, varia de país para país, não apenas em função das finalidades pretendidas, mas também em função da dimensão territorial e geográfica e em função da extensão populacional. Grandes e extensos países, com vastas populações, com ingentes tarefas de governação centralizada, acolhem normalmente sistemas maioritários que lhe proporcionem situações de governo maioritário e estável, e permitam garantir a estabilidade da governação. Pelo contrário, países pequenos, de reduzida população, e ainda por cima muita dividida étnica, linguística e religiosamente, tendem a optar pelo sistema de representação proporcional. Não é por acaso que a Bélgica é a pátria da proporcionalidade.

Manuel Braga da Cruz, O sistema político português, FFMS, 2017, pp.18-19

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os jovens e a política


Num estudo encomendado pelo Presidente da República Cavaco Silva sobre a participação política e cívica dos jovens, o número de jovens portugueses que considerava que a democracia funcionava bem desceu, de 2007 para 2015, de cerca de 33% para 17,3%. O número de jovens que participavam em partidos desceu, nesses mesmos anos, de 13,6% para 3,7%, e os que participavam em sindicatos decresceu de 12,1% para 3,6%. A participação em associações diminuiu igualmente de 19,8% para 6%. (...) Desde 1974, o país já conheceu 27 governos e 16 Primeiros-Ministros, com uma média de duração de menos de 2 anos por governo (...) Das 12 legislaturas até hoje existentes, só 5 se completaram. 

Manuel Braga da Cruz, O sistema político português, FFMS, 2017, pp.14-15.

Na "carne do mundo"


Na noite de terça-feira, em Braga, uma reputada teóloga contemporânea, Maria Clara Bingemer, falou da experiência de Deus no mundo de hoje. Eis alguns apontamentos dos incisos que nos deixou:

Se, vista de longe, a teologia da libertação (que emerge da vontade latino-americana de não ser uma teologia-reflexo [da teologia europeia], mas uma teologia-fonte) surge (a seguir ao Concílio Vaticano II, a partir da Conferência de Medellín) como um monolito, observada à luz dos ensinamentos de Maria Clara Bingemer - na noite de terça-feira, em Braga -, ela reveste-se, em realidade, de quatro correntes: a) uma, mais afinada com as categorias marxistas; b) outra, que recorre a elas mas não se afina com aqueles princípios; c) uma terceira, que se afirma a partir da cultura (a “teologia do povo”) que hoje estará em grande evidência, com o Papa Francisco (a “teologia da Argentina”); d) finalmente, uma teologia mais hierárquica, “própria” dos Bispos.

Uma das crises que hoje vivemos é uma crise ética. Fala-se, constantemente, de ética, mas não daquela que acompanha a humanidade desde a Antiguidade (que propõe um sistema de valores, que configura a vida, etc.). Nas épocas pré-modernas, a moral era teológica (ou seja, a moral era Deus), sendo a fé atribuidora da virtude. O homem estava ao serviço de Deus e não da humanidade – que ficava em um segundo plano. Com a modernidade, assiste-se a uma desvinculação da moral da religião. O indivíduo passou a ser soberano e o direito e não o dever passou a posição preponderante. Moral moderna realça a autonomia individual, e entende o dever para consigo mesmo (auto-aperfeiçoamento). O trabalho, por exemplo, deixa de ser visto como uma obrigação a exercer face a uma sociedade, mas um modo de autorrealização, de enriquecer, de fazer uma carreira interessante. Não existe uma mística do trabalho que enobreça e implique transformar o mundo.

A segunda crise é cultural. Uma crise de incerteza, insegurança. Insegurança a propósito de uma posição sólida na sociedade, ou, então, de uma identidade clara. Vivemos num tempo que já não tem mais certezas ou verdades absolutas. Um tempo em que nada é categoricamente afirmado e em que, por vezes, temos a noção de viver sob um chão movediço. Uma enorme pluralidade e diversidade ladeiam-nos (com a queda das grandes narrativas, da utopia), com uma fraca institucionalização das diferenças. Fugacidade. Maleabilidade. Tudo é passageiro (nunca apegados a nenhuma vinculação para que possamos imediatamente abandonar qualquer ligação que tenhamos estabelecido).

A terceira crise é religiosa. A pós-modernidade, é certo, tem, ainda, uma sede do espiritual. Recuperou o Absoluto que os “mestres da suspeita” (Freud, Marx, Nietzsche) haviam colocado em causa, na modernidade. Mas esse Absoluto que foi resgatado não tem rosto, não tem contorno, nem a espessura da instituição. E, muitas vezes, até sem as características do Deus pessoal que o cristianismo sempre apresentou. O ser humano “está nesse estado de questão”. As pessoas não estão sem fé, nem deixam de procurar. Nos censos de 2010, no Brasil, aumentam aqueles que se dizem “sem religião”, mas isso não significa que deixem de prosseguir aquela busca (mas ligando deus a “uma força”, “uma energia”, um “fluído”; não uma pessoa). Charles Taylor (na sua obra monumental “Era secular”) criou a categoria dos “buscadores” (não por acaso). Cada vez mais, estes parecem prosperar. Assim, neste panorama, Deus parece ser um conceito basilar (numa época em que a religião sofre reconfigurações). Ele continua a dar sentido à vida e a colocar em crise todos os demais “sentidos”. Deus atrai, intriga e instiga. Mas será que Ele é hoje sentido, pelos nossos contemporâneos (em particular, as gerações mais jovens) como uma necessidade, sem a qual não podem viver? Como o ar que se respira, ou a água que se bebe? Ou Deus é, antes, hoje por hoje, percebido/experimentado como gratuidade, como estando (para os seus buscadores) na ordem do desejo (e não tanto na ordem da necessidade)? Será que, hoje, esse mistério de Deus não mobiliza mais como desejo (do que a vontade), e não se revela do reverso da história, a partir do lugar da insignificância e da vulnerabilidade (e não da razão e do conceito)?

Karl Rahner, jesuíta, o grande teólogo do Vaticano II, cujo pensamento revolucionou a teologia no século XX e que continua uma referência quando se pretende discutir teologia em profundidade, pode/deve ser um dos nossos mestres no tatear por este tempo. “O Homem, quer o afirme expressamente, ou não o afirme, quer reprima esta verdade ou a deixe aflorar à superfície, acha-se sempre exposto, em sua existência espiritual, a um mistério santo que constitui o fundamento da sua existência. Este mistério é o mais primitivo, o mais evidente mas, por isso, também o mais oculto e ignorado, um mistério que fala enquanto guarda silêncio, que está aí enquanto que ausente nos reduz às nossas próprias fronteiras. E tudo isso porquê? Como horizonte inexprimível e inexpressado, abrange e sustenta sem cessar o pequeno círculo da nossa existência quotidiana, cognitiva e ativa, o conhecimento da realidade e o ato da liberdade, nós o chamamos Deus”, afirma o teólogo alemão. Uma síntese enxuta e excelente – diz Bingemer. 

Dizer as coisas antigas de uma maneira nova. A partir da experiência concreta das pessoas. A teologia de Rahner não era sempre, ou necessariamente por causa de (por Deus ser tão bondoso, a vida ser tão bela), mas apesar de (de Deus fazer silêncio, de experienciarmos também a negatividade). Deus, mistério inabarcável, mas que deixa encontrar-Se no coração da realidade, na carne do mundo. “O mistério eterno me envolve e penetra. O mistério infinito que é completamente diferente dos resquícios juntados do que por enquanto ainda não se sabe, ainda não se experimentou. O mistério que em sua infinita densidade está no mais exterior e no mais íntimo das mil realidades fragmentadas que chamamos de mundo de mundo da nossa experiência. Esse mistério está aí, manifesta-se ao silenciar, deixa serenamente falar aqueles que dizem que falar Dele só produz palavrório sem sentido. No momento em que não se ama, em atitude de adoração, esse mistério que tudo envolve silenciosamente, Ele torna-Se um escândalo”. Rahner (que morreu em 1984) dirá que no dia em que Deus deixar de existir como palavra nos dicionários e nas bibliotecas, não era Deus que tinha deixado de Existir: era o Homem que teria deixado de ser humano.

Um outro teólogo a ter em conta, este, agora, mexicano, jovem é Carlos Mendonza Alvarez, dominicano. Doutorado em Paris e Friburgo. Procura pensar Deus a partir dos escombros da situação fragmentária pós-moderna. Segundo o autor, atualmente dá-se o colapso de imagens e seguranças (no que ao religioso diz respeito). Mas persiste, em todo o caso, a deidade: o fundo sem fundo de todo o real. O ser superabundante da sabedoria divina que mantém todo o real com o seu sopro vital. Estamos perante um Deus abscôndito que deve ser procurado no reverso da história, isto é, nas vítimas. Deus é inefável porque as narrativas e discursos anteriores já não podem dar conta da sua presença. Há que buscar novas palavras no submundo dos pobres, das vítimas que perdoam e resgatam os seus verdugos e permitem uma esperança discreta para a criação e a história. Derrubaram-se muitos ídolos como a evidência científica, o mercado, a religião e há um colapso do sagrado violento. Há agora a oportunidade de compreender Paulo ao falar do “Deus desconhecido” e conhecê-lo a partir da cruz. Para isso, o teólogo tem que estar ancorado no clamor do inocente. Do lado das vítimas. Para falar de Deus como amor assimétrico, não recíproco, de dolorosa gratuitidade. Só assim se recupera um discurso kenótico (de esvaziamento). “Recuperando a harmonia da razão com os seus limites próprios, e a fé como conhecimento silencioso do real, sem competir pela predominância de uma sobre a outra é possível que sociedades secularizadas e laicas deem espaço a expressões espirituais não tão religiosas mas que humanizem as pessoas e respeitem o cosmos. Na América Latina, isso significa dialogar com as outras sabedorias e tradições. Na Europa e na América implica dialogar com a secularidade e o laicismo. Trata-se de um cenário plural, onde adquire importância renovada as sabedorias dos povos originários, mas também as novas identidades que vão conquistando o seu lugar no espaço público”.


Paulo VI escrevera na Evangelii Nuntiandi que a sociedade de hoje escuta mais as testemunhas do que os mestres. E se houve os mestres é porque são testemunhas. São elas que têm maior conhecimento de Deus na sua densidade. Elas estão dilaceradas, entre o seu ideal que quer testemunhar e o indivíduo que ela sabe que (que) ela é (miserável, pequeno, limitado). Dilacerada entre o mundo de que dá testemunho e o mundo que não quer saber dessa realidade testemunhada. O homem exaltado, glorioso, da modernidade, no entanto, foi esmagado pelas ideologias totalitárias [do séc.XX: nazismo, comunismo e seus subprodutos]. O homem surgiu humilhado daqui, aparentemente sem confiança (em si), submetido à globalização, ao mercado, ao prazer. Entre o ser humano exaltado, glorificado, e o humilhado, a testemunha é um humano fragilizado, vulnerável. Alguém que desistiu, lucidamente, dos sonhos de omnipotência, mas não abdicou de sua capacidade de iniciativa. E a originalidade, e o valor inestimável da testemunha, para os seus contemporâneos e a história da humanidade é o conteúdo da sua narrativa coincidir com a sua pessoa. Por isso, a testemunha é sempre incómoda e embaraçosa. Ela traz consigo algo excessivo, o fundamento da condição humana como tal, denunciando tudo o que visa diminui-la/apoucá-la. Teologicamente, a testemunha é alguém que experimentou o Absoluto. E fez dessa experiência o princípio norteador da sua vida. A sua narrativa enxerta-se na volatilidade, na efemeridade do mundo. Fazendo da verdade a sua biografia e ousando expor-se à tentativa de uma nova lógica e de uma nova linguagem. Portador de uma verdade que não pode reduzir-se a uma opinião. Os místicos serão essas testemunhas. Mística e ética têm uma aliança íntima (para dizer Deus). Se a mística é o encontro profundo, comunhão com o Divino, então Este não se encontra fora das coisas deste mundo. Pois Ele deixa-se encontrar em todas as coisas. Então todo o agir humano está consagrado. O místico é apaixonado por Deus mas quer participar em todas as experiências do humano. Os teólogos percebem que não há falar sobre Deus, hoje, que não seja precedido pela compaixão, pelo sofrimento pela vulnerabilidade (das “vítimas do progresso”). Uma fé que justifica a injustiça e o sofrimento do mundo e não protesta contra eles é desumana. Maria Clara Bingemer deu o exemplo de Etty Hillesum como uma mística por excelência. 

domingo, 21 de maio de 2017

O início do Mundial sub20


Não deixa saudades o primeiro jogo da seleção nacional, no mundial de sub20, em futebol, disputado na Coreia do Sul (8 horas a mais do que em Portugal). A jogar frente à Zâmbia, campeã africana,  em toda a primeira parte raras foram as oportunidades de golo criadas, processos lentos e pouco dinâmicos, nenhuma exibição individual para entrar numa galeria da memória, por banda dos portugueses. Alguns apontamentos de um pé esquerdo com potencialidades, de Xadas (Braga), médio ofensivo, foram uma pequena excepção. Mas muito longe de deslumbrar, e sem aparecer nos segundos 45 minutos. No global, pouca intensidade e escassíssima criatividade. Muita posse de bola, mas sem progressão, nem mudanças de ritmo. Estéril. A Zâmbia, que tem um jogador que em Portugal alinha no Esmoriz, espreitou um ou outro ataque, mas, na realidade nunca se atreveu ofensivamente, parecendo apostar, sobretudo, no empate. No segundo tempo, entrada forte da Zâmbia, culmina com golo. Portugal, que tinha um jogo pouco ligado, finalmente é agressivo e cria algumas situações para finalizar (embora não tantas como o relato e comentários da RTP suporia). Nas duas primeiras substituições, certamente controvertidas e a suscitar debates e reparos nos próximos dias no mundo futebolístico nacional, realizadas já após o golo, Peixe não alarga a frente de ataque (com mais jogadores para essas posições). Uma equipa de tracção atrás, com dois médios muito juntos em zonas recuadas, desequilibra-se depois, também, em termos ofensivos, com a mudança operada nesse mesmo meio campo. Já em tempo de compensação, Portugal reduz, mas não volta a aproximar-se da área adversária no tempo que resta (3 minutos). Os dois laterais da equipa (Ribeiro e Dalot) entre o positivo do encontro. Jogo muito bem arbitrado por um trio mexicano, num início de tarde asiático com muito pouco público nas bancadas, uma relva que me pareceu pouco molhada (e a não potenciar um jogo mais veloz), uma bola com certos efeitos especiais (das mais enganadoras com que lidou até à data, segundo o técnico português), e uma equipa de futebol que remeteu para o Mundial de Seniores de 2002, jogado por aquelas paragens.
De entre as surpresas da 1ª jornada do mundial de sub20, o Venezuela- 2 - 0 Alemanha constituirá o maior destaque, com o desafio de maior cartaz a redundar numa vitória por 3-0 da Inglaterra face à Argentina. Um torneio onde marca presença o Vietname.

O futuro do trabalho (discutido em Mateus)


Ontem, o Francisco, nos seus 13 anos hiper-responsáveis, dizia-me que uma licenciada em arqueologia tinha garantido, há dias, à mãe que esse era curso que não tinha saída e estava condenado ao fracasso. Logo ele, um dos últimos resistentes entre os melhores alunos, pensando seguir Humanidades, em vista a essa formação (arqueológica). Dentro de dois anos, está convencido neste instante, seguirá, afinal tecnologias. Na tarde deste Sábado, em Mateus, na última sessão do micro-ciclo dedicado às utopias, desta feita sobre O futuro do trabalho, Pedro Santa Clara Gomes deu nota de um estudo de dois Professores de Oxford sobre profissões em vias de extinção. Com 99% de probabilidades, o desaparecimento dos vendedores de seguros, seguidos, com 98% de hipóteses de darem o último apito, os árbitros de desportos e 97% os caixas de supermercados. Inversamente, no fundo da tabela, com quase 100% de possibilidades estatísticas de sobrevivência, os arqueólogos (0,7% de probabilidades de se extinguirem, de acordo com o estudo citado). Há sempre mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa filosofia - e, pior, a doxa - pensa. Num outro reputado trabalho, porém, realizado em 2004, mencionado por este Professor e Economista, garantia-se que, se havia tarefa insubstituível, era a de conduzir camiões. Pois bem, sabemos, pela Google e pela Tesla - com novidades da Bosch (Braga) para breve - que nada mais falso. E 2004 foi ontem (à partida, aproximações bem menos susceptíveis de engano face às horas de trabalho previstas, por Keynes, em meados de 30, do séc.XX, para esta altura...que andariam pelas 15 horas de trabalho por semana). Quer isto dizer que mudanças ocorrerão que não tínhamos previsto e projectos que alvitramos que não se realizarão; empregos inesperados surgirão (desenhadores de mundo virtuais?). Pedro Santa Clara Gomes leu e citou Yuval Noah Harari, pelo que se mostrou otimista quanto à situação do mundo: nunca estivemos tão bem, considerou. E, sem citar aquele autor, prosseguiu, em realidade, com ele, e um texto por ele assinado, recentemente, no The Guardian, onde prognosticou um refúgio, para os deserdados e desocupados das mutações tecnológicas, em vidas cada vez mais virtualizadas (ou, no seu ateísmo, a continuação dessa virtualidade dado regras como "não comer porco" serem tributárias de jogos imaginários, por códigos não electrónicos). Tomar drogas, viver ligados a máquinas, jogar jogos todos os dias? Assim o futuro? 
O trabalho, seja como for, e como apontado por uma das intervenientes na plateia, pode deixar de ter a centralidade que hoje adquire na existência. Pode ter importância, mas em uma dimensão um tanto mais secundarizada. Hoje por hoje, e ao almoço, em tendo que nos apresentar, (ainda) tendemos a explicar-nos principiando pela atividade (profissional) que realizamos. Quando (e se, como não raros estudos têm sublinhado) a massa de desempregados (estruturais) for enorme (em virtude da automação), então essa centralidade desaparecerá. Uma socióloga francesa escreveu, recentemente, um ensaio (publicado na Gulbenkian) no qual defende que o trabalho não é uma realidade antropológica e que o homem primitivo, bem como as classes mais abastadas, em séculos pretéritos não trabalharam e, mais importante, não se incomodaram (ou suicidaram) com isso. Teresa Albuquerque, de modo espirituoso, observou que hoje o que dá status, ao contrário das classes ociosas do século XVIII que reivindicavam o seu tempo livre, é não ter tempo. Isso hoje é que é socialmente bem visto. 
Entre aqueles que, numa tarde muito agradável seguiram as conferências-debate, em Mateus, esteve José Gil que perguntou por uma tecnologia que influencie a política (uma tecnologia que diga a melhor forma de governar, p.ex.; algo que mataria a democracia, como notou Álvaro Vasconcelos, sentado a seu lado).

(cont.)

sábado, 20 de maio de 2017

Miguel Araújo - 1987 (com Catarina Salinas)



Depois de Carlos Tê ter imortalizado "Jardel sobre os centrais", a vez de Miguel Araújo dar corpo ao ano vintage de 1987, com o "passe [golo, na realidade] de Juary" e o "calcanhar" de Rabat Madjer. Logo à noite, vou ouvi-lo ao Teatro de Vila Real, descobrindo o novo álbum Giesta. O compositor-cantor propõe, nas canções, o "concreto-universal", a partir da sua realidade infante ou adolescente - ou, da sua memória, que não é bem a mesma coisa, mas muito mais interessante -, ele que é um moço de 34 anos e que recorda os Guns, Nirvana, McCartney, Pearl Jam, Rui Veloso, Caetano Veloso, entre muitos outros. Bem o compreendo: a malta da minha geração entrava no ciclo, como então se dizia, carregado a t-shirts negras, estampadas com esses mesmos Guns, Nirvana, mais tarde Metallica

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fé cristã


O papel da mediação cultural e antropológica, que compete à Teologia, implica ultrapassar uma visão milagreira e interventiva do agir de Deus, baseada numa interpretação fundamentalista dos textos bíblicos e das experiências místicas. O modo de interpretar os fenómenos místicos não pode ir contra os conhecimentos científicos e deve atender à sensibilidade cultural contemporânea. A presença espiritual de Maria, participante da humanidade glorificada de Jesus, não reduz Maria a uma personagem do passado. Não pode significar, contudo, o regresso a uma visão mariana de privilégios e excepções que a fazem assemelhar a uma figura mitológica e cair no risco de deusa-mãe de outras religiões e culturas. As visões têm sentido à luz de Maria «assunta aos céus, que reflecte a glória do Ressuscitado. Por isso pode trazer esperança àqueles que querem ultrapassar as estreitas paredes do mundo e sair da tristeza e da angústia» [Bueno de la Fuente]. A presença espiritual de Maria, que os pastorinhos vestem e põem a falar português, tem o seu valor à luz da manifestação de Cristo Ressuscitado. As visões são olhares humanos, a partir do olhar de Deus sobre a nossa realidade, para provocar e mover a Humanidade a corresponder ao maior bem, criador de esperança no futuro.

Carlos A. Moreira Azevedo, Fátima. Das visões dos pastorinhos à visão cristã, Esfera dos Livros, Lisboa, 2017, pp.74-75

P.S.: Carlos Moreira Azevedo é Bispo-Delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano