domingo, 23 de setembro de 2018

Futuro para a imprensa (?)


"Já fui mais pessimista do que sou hoje", disse Manuel Carvalho, diretor do Público, acerca do futuro dos jornais, na noite da passada sexta-feira, pelo 20º aniversário do Notícias de Vila Real, no auditório do Hotel Miracorgo, na capital transmontana. Se é certo que o jornal propriedade da Sonae chegou a vender 80 mil exemplares, e agora, em banca, vende 16/17 mil jornais (mais as assinaturas online, na casa das 12/13 mil); se é verdade que, com excepção dos projectos associados ao Correio da Manhã, tudo o resto - suponho que com, pelo menos, a excepção do Expresso - dá prejuízo (económico-financeiro), no que a jornais portugueses diz respeito (colocando a Sonae cerca de 2 milhões ano, no Público, num grupo que, em bons anos, dá 800 milhões de euros de lucro; Manuel Carvalho mostrou-se pouco inclinado a que sigam verbas do Orçamento de Estado para financiar jornais por uma questão de independência desses projectos jornalísticos e jornalistas; financiamento público de que deu nota de existir em França); se na última década (e meia) desapareceram dos escaparates jornais como O Primeiro de Janeiro, Comércio do Porto ou Diário Económico (e, com excepção dos Domingos no que respeita à edição em papel, o Diário de Notícias), a que se juntaram centenas de títulos locais, em uma tendência verificada por todo o mundo, por outro lado, nunca tanta gente leu o Público (são milhões mensalmente os que acedem às suas páginas online) e a experiência comparada permitirá acalentar esperança, em especial os milhões doados por leitores do The Guardian a este jornal por o julgarem indispensável às suas vidas individuais e colectivas (no ano passado, o jornal beneficiou de mais de 7 milhões de euros por esta via), ou o incremento de assinaturas do The New York Times (que, de resto, foi muito acelerado pela eleição de Trump, e por todo o processo que esteve na origem dessa escolha, com toda a problemática de manipulação das redes sociais, com criação de notícias falsas massivamente espalhadas). Actualmente, The New York Times tem mais de 3 milhões de assinantes na edição electrónica. Estes cidadãos que contribuem para os respectivos jornais de referência - aqui mencionados - entenderam como vital à democracia, que querem manter de boa saúde, com devido escrutínio governativo, a existência de uma imprensa tão livre, independente e de qualidade quanto possível.
Também no Público se assistiu, pois, ao incremento de assinaturas, nos tempos mais recentes, sendo que, conjuntamente com o projecto online Observador, a sua existência (actual), contudo, está vinculada ao referido mecenato (filantropia) empresarial. Que, em todo o caso, não é demasiado presente na vida pública nacional.
Convidado para falar sobre a importância da imprensa local/regional para o desenvolvimento local, Manuel Carvalho, natural de Alijó, antigo aluno do ensino Secundário em Vila Real e ex-professor do primeiro ciclo do ensino básico, recordou a Lei de proximidade que, goste-se ou não, se observa e baliza o interesse das populações pelas notícias: "o que se passa na minha rua é sempre muito mais importante do que aquilo que está a ocorrer a milhares de quilómetros". Neste contexto, a imprensa local/regional pode contribuir/contribui para a coesão social, na media em que coloca a mesma comunidade face aos mesmos factos, o mesmo tipo de relatos, de sentimentos, capaz, potencialmente, de gerar, desta sorte, o fortalecimento do reconhecimento, auto-estima, resiliência da mesma (população/comunidade).

Na noite em que Ricardo Magalhães (vice da CCRN) e Fontaínhas Fernandes (Reitor da UTAD) fizeram parte do painel de convidados e realizaram pequenos apontamentos acerca do tema - a hipótese de uma maior integração/interação/sinergia entre o Notícias de Vila Real e a Universidadefm, ou mesmo uma futura televisão local/regional a partir dos recursos existentes na UTAD foi equacionada -, Luís Mendonça (diretor da UFM e recém-director do Notícias de Vila Real) aludiu ainda à falta de cumprimento com as rádios do interior da publicidade institucional, prevista na lei, por parte do Governo. 

[Marcaram presença neste encontro cerca de quatro dezenas de cidadãos vilarealenses, sendo identificado apenas um sub30...sublinhado simbólico de fim de noite, com o fundador e diretor do periódico durante este período de 20 anos, Caseiro Marques, a apelar a novas assinaturas, a recordar a edição de livros que ajudaram a completar as receitas, e o apoio de mecenas individuais e colaboradores que gratuitamente contribuíram para as duas décadas de vida que o jornal leva]

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Continuar a pensar Fátima


Resultado de imagem para Fátima e a cultura portuguesa+Miguel Real

Continuar a pensar Fátima

1.Se a desatenção, no nosso país, fora do mundo religioso, a um fenómeno tão marcante do século XX português como o das "Aparições de Fátima" foi sendo arguido, pelos seus estudiosos, como inaceitável - precisamente dada a sua relevância social e política - e crivada de preconceito (acriticamente mantido), um conjunto de obras, nos tempos mais recentes, de autores de diferentes àreas do conhecimento, longe do religioso, pode vir a constituir-se como momento de viragem susceptível de impugnar aquela críticaFátima e a Cultura Portuguesa (D.Quixote, 2018), de Miguel Real, adiciona um contributo e posicionamento crítico, vindo de um professor de Filosofia, investigador e prolixo autor no âmbito dos estudos sobre a cultura portuguesa, escritor, romancista, ensaísta, crítico literário.

2.Há um ponto, para mim central e decisivo, de entre os diferentes fios deste novelo a que o autor se dedica (essa aparente dispersão torna-se característica, se tomarmos, por exemplo, por comparação Nova Teoria do Mal), que queria destacar, nesta abordagem. Compulsando os mais recentes escritos acerca da temática de Fátima; procedendo, pois, a esse estado da arte, Miguel Real toma por conclusão um dado que é determinante para o modo como cada um se posiciona, depois, relativamente a esta questão: os pastorinhos, as crianças que relataram a experiência superabundante que viveram não mentiram, não inventaram acerca desse relâmpago que estremeceu as suas vidas (e que mexeu com muitas mais).

3.Importa, neste contexto, situar, com maior precisão, o tópico vindo de mencionar: o facto de as crianças não mentirem, não terem inventado uma experiência - na conclusão de Miguel Real - significando, é certo, o descartar de teorias de conspiração e de mãos negras na origem de um fenómeno que viria a adquirir contornos e dimensões de inusitado alcance, não significa, outrossim, que as concretas descrições/imagens e narrativas acerca de específicos conteúdos dessa experiência passem sem um escrutínio vigoroso, uma crítica acérrima. Os testemunhos primeiros, a que alguns convencionaram chamar Fátima I passam no crivo do ensaísta (que os entende espontâneos, genuínos), o mesmo não podendo referir-se dos acrescentos e formulações de Fátima II (mais construídos, ideológicos; no que, aliás, quem conhece alguma literatura sobre o tema, sabe, pois, ser formulação que está longe de ser original).

4.Como diria Jean-Luc Marion, é preciso pensar o impensável (o insusceptível de ser pensado, o que está para além/excede o pensamento) e, em assim sendo, intraduzível (e inacessível) a(s) concreta(s) experiência(s) de LúciaJacinta e Francisco, ela(s) remete(m) Miguel Real para pensar, com Rudolf Otto, o sentimento, aparentemente universal pelo que se depreende das palavras escritas pelo crítico (em realidade, um sentimento como uma emoção natural, presente já no Australopitecus, correspondente a uma “disposição fisiologicamente inata de resposta a estímulos extraordinários”, p.42), de uma Presença, na pessoa, ao mesmo tempo assombrosa e aterradora, mysterium fascinans et tremendum, inexplicável por conceitos, palavras, impossível de conformar pela gramática: "logo, não existe teoria (racional) da Presença que não seja a de evidenciar, de enfatizar, a sua natureza de suspeição que aponta para a existência de uma realidade soberanamente diferente (...) A Presença é irredutível a uma abstracção (...) ausente de analiticidade (...) Existe apenas um sentido para a Presença - a suspeição de que ela é sinal de uma realidade diferente, deixando-nos espantados e aterrorizados (o numinoso) (...) Uma realidade que surpreende, espanta, pasma e assombra, que atrai mas se receia pela estranheza própria e pela diferença" (p.52). Para Miguel Real, agnóstico, esta Presença não se identifica com Deus (que o autor grafa sempre, ao longo do livro, com minúscula); ela é "uma emoção natural, histórica e individualmente anterior à cultura", da qual nascerá a fé. Esta, por sua vez, terá concretizações históricas e sociológicas nas religiões que irão, ainda, racionalizar a Presença, ou o numinoso. A interpretação de Fátima dá-se à luz do desencadear especialmente marcante de uma Presença superabundante, tematizada à luz de uma tradição católica.

5.Os termos com que Miguel Real recusa a invenção da(s) experiência(s) de Lúcia, Jacinta e Francisco são enfáticos, e reiterados ao longo de todo o livro: "Lúcia, Jacinta e Francisco, crianças de 10, 9 e 7 anos, foram objecto de uma colossal e desmedida experiência psíquica, que as forçou, contra tudo e contra todos, a afirmar as Aparições como uma revelação do sagrado - a Senhora que vinha do céu. Note-se que os três pastorinhos tinham contra si, de um modo activo, ameaçador e insinuante, a mãe e as irmãs de Lúcia, o pároco de Aljustrel, Manuel Marques Ferreira, as mulheres da aldeia e o administrador republicano do concelho. Destaque-se, portanto, a pressão psicológica e social feita sobre as crianças, isto é, tinham contra si a totalidade institucional da sociedade: a Família, a Comunidade, a Igreja e o Estado. E não existe nos inquéritos de 1917 e nas primeiras notícias dos jornais a mais pequena hesitação dos pastorinhos sobre a realidade das Aparições
Assim, afasta-se totalmente deste pequeno ensaio que as Aparições tenham sido uma mera fabricação de sacerdotes de Ourém ou uma maquinação da diocese de Lisboa contra a República, ainda que, do ponto de vista histórico, Fátima constitua a grande seta da Igreja (...) ao coração da República [p.10] (...) Faltam-nos palavras para descrever aquela experiência no interior do cérebro e da consciência dos três pastorinhos e não duvidamos de que a tiveram de um modo gigantesco, tão forte e sólida foi que Lúcia, com 10 anos, analfabeta, rural (o que de rural possuem os códigos comunitários impositivos de consentimento, aceitação e obediência a hierarquias sociais verticais), ousou enfrentar de um modo decidido a família e os políticos republicanos do concelho, superando mesmo as falsas ameaças de que as três crianças seriam «fritas» em azeite, bem como a ameaça, insinuada pelo pároco de Aljustrel, de que, por mentirem, iriam para o inferno (supremo castigo para a sua consciência infantil). Mais do que coragem física ou ousadia psíquica, tratou-se de uma verdadeira transgressão cultural, uma violação de todas as regras, que só a demência social ou a loucura paulistana e franciscana podem justificar. Com efeito, os três pastorinhos, sobretudo Lúcia, exigiram de si uma indómita defesa da verdade, ou do que tinham experimentado como «verdade», tão «verdadeira» que Jacinto e Francisco não só não recusaram como desejaram um doloroso martírio, semelhante ao dos primeiros catecúmenos cristãos. Basta esta atitude para serem levados a sério, para nos indiciar que não se tratou de uma veleidade, foi um acto que pôs em risco o que de mais valioso possuíam - a sua alma [pp.13-14] (...) A Igreja não criou Fátima [p.21] (...) Fátima não se constituiu como o fruto da imaginação dos três pastorinhos. Nela residiu (...) uma experiência misteriosa do sagrado (...) A vivência do sagrado consiste na experiência de uma Presença transcendente às categorias históricas da humanidade" [p.64].

6.Se, em um primeiro instante, poderíamos dizer que estas reflexões, vindas de citar, corroboram muito do que foi sendo alegado numa parte significativa do mundo católico, porventura reforçando-o, dada a vara de medir do professor de Filosofia não partir, não se inscrever em tal tradição - Miguel Real é muito crítico do catolicismo, em vários momentos do ensaio; por todos, leia-se o ponto 5.14, da pág.148 e perceba-se o grau de distanciamento -, o que na verdade o autor opera é um deslocamento da necessidade da conclusão de veraciade e verosimilhança da experiência dos pastorinhos conduzir, impreterivelmente, ao manto interpretativo com que foi recoberto. Dito de outro modo, para Miguel Real a verdade da experiência dos pastorinhos - que a análise da documentação e literatura acerca de Fátima torna procedente - não implica que se aceitem os termos (católicos) mais habituais de apropriação da mesma
O autor considera que do ponto de vista da racionalidade de tipo científico as explicações de Fina d'Armada e Joaquim Fernandes para o sucedido em Fátima - a saber, a análise fenomenológica das circunstâncias naturais de fenómenos surgidos com as Aparições e a comparação com idênticas manifestações aquando do aparecimento de OVNI, reforça a conclusão de ter sido uma entidade extraterrestre a manifestar-se em Fátima; naquela localidade não ter havido uma «alucinação colectiva», quando «o Sol bailou», porque o que nesta hipótese explicativa ocorreu foi a existência de um «disco numinoso» que se destacou -  seriam as mais consolidadas...com apenas o senão de ter que se crer na existência de extra-terrestres ("paradoxalmente, um leitor que se presuma neutro e atendendo à ambiguidade constitutiva do tema, não pode deixar de constatar ser esta a tese até hoje mais fortemente solidificada em termos de explicações o mais rigorosas possíveis, segundo o paradigma científico, mantendo, no entanto, a vazia indeterminação de raíz, isto é, é preciso crer que existem extraterrestres", p.30).

7.Se a verdade das experiências avassaladoras por que passaram Lúcia, Francisco e Jacinta não implica, necessariamente, a aceitação de uma apropriação crente católica das mesmas, em realidade, também não as exclui. No interior de uma cultura fortemente marcada pelo positivismo, e não raro por uma oposição - e uma fácil aceitação de uma distinção - entre fé e razão, não curando, porventura, de indagar suficientemente do que falamos quando falamos de "razão"(ou de várias razões, racionalidades, entre as quais uma «razão crente»), parece realmente necessário enfatizar este ponto: é Miguel Real que sublinha que a exegese católica de um D.Carlos Azevedo, ou do Pe.Anselmo Borges, na medida em que falam de "visões" (que se dão no interior dos pastorinhos; como e, sobretudo, porquê, o que as origina, qual a realidade última destas, qual o significado derradeiro da Presença, é algo que fica eternamente em dúvida, como já se disse, para o céptico e agnóstico) e recusam um "paradigma realista" do concreto e real "aparecimento da Senhora" sobre uma carrasqueira, representa uma "visão racional, espiritual mas explicativa das Visões de Fátima" (p.23). Conquanto se possa questionar aqui a adversativa - "mas explicativa", acoplada a "visão racional e espiritual", na medida em que, precisamente, o racional e o espiritual não recusam, nem prescindem de razões - fica claro como, perante um fenómeno como o de Fátima, crer nele, segundo uma lente católica - uma dada/determinada exegese católica, se se preferir - nada tem de irracional (o leitor, intelectualmente honesto, lendo, se se quiser, exclusivamente, as declarações iniciais/primeiras de Lúcia sobre os acontecimentos, ficando-se pelos documentos da chamada Fátima I, e confrontado com "a tese até hoje mais fortemente solidificada (...) [no âmbito] do paradigma científico", e contrastando com a mais actualizada exegese católica sobre o fenómeno para qual se inclinará, na verdade? Qual lhe parecerá mais razoável?).

8.Igualmente razoável me parece, e até mesmo sem surpresa, o entendimento do autor quanto aos melhores livros acerca de Fátima ("de acordo com o novo paradigma"): Fátima. Lugar Sagrado Global (2017), de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis - "uma referência que marcará doravante todas as investigações sobre Fátima" (pp.35-36) - e Fátima. Das visões dos Pastorinhos à Visão Cristã (2017), do bispo Carlos Moreira de Azevedo - "que propõe, sensata e racionalmente, a substituição do termo «Aparições» por «visões»" (p.36).
No interior da mundividência cristã católica, em Portugal, Miguel Real opõe, pois, uma visão que considera crédula, com "aceitação acrítica das Aparições" cujo "expoente máximo" seria um autor como João César das Neves a uma outra, mais sofisticada, racional e razoável na qual pontificaria D.Carlos Azevedo. Entende, mesmo, que a interpretação a que se alçou o Bispo (que trabalha no Pontifício Conselho da Cultura) se tornou um acquis incontornável e definitivo. E, de passagem, acredita que a "mudança de paradigma" se deu por 2007, a quando da publicação da Enciclopédia de Fátima, coordenada por Carlos Moreira Azevedo. Em realidade, como o próprio D.Carlos explica em Fátima. Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã decisivo, para esta viragem, foi o Comentário do então Cardeal Joseph Ratzinger, no ano 2000, ao chamado «terceiro segredo», no que ficou como uma peça antológica inultrapassada acerca do fenómeno de Fátima. Embora já o título da obra de Miguel Real, Fátima e a Cultura Portuguesa, nos situe no âmbito nacional  de contextualização (e, percebe-se lendo o livro, autoria/ensaística/crítica) acerca de Fátima, em realidade Ratzinger, e este seu Comentário, são, ainda isso considerado, os grandes ausentes do livro (porque não é possível perceber a «mudança de paradigma» sem aquele "Comentário" do Cardeal; e porque a mesma referência a um imaginário que precisaria de ser criticado, interpretado, escrutinado estava já aí presente – quando Miguel Real escreve que “a vivência cultural e religiosa destas foi determinante para a materialização das imagens das Aparições, como se torna explícito, por exemplo, pelo conteúdo das imagens que compõem a visão do Inferno” quase parece citar, ipsis verbis, Ratzinger; não há, porque não foi esse o caminho seguido, muito legitimamente, pelo autor do livro publicado pela D.Quixote um aprofundamento teológico católico do fenómeno e de seus representantes internacionais mais relevantes, em especial Edouard Dhanis, citado por Ratzinger).
Se, para Miguel Real, João César das Neves representa uma ala ultrapassada no entendimento de Fátima, o mesmo se diga, dada a recusa da existência de uma criação, efabulação, construção de Fátima, postulado formalizado pelo ensaísta desde as primeiras páginas deste seu novo livro, dos textos corrosivos mancomunados com as mais variadas teorias da conspiração - por exemplo, "a Senhora" seria uma esposa de um graduado do exército que se teria colocado em cima da carrasqueira e assustado as crianças - cujo autor aqui referido é o pe. Mário de Oliveira

9.Um outro elemento bastante interessante exposto, na obra em apreço, de Miguel Real, é a indicação da República como causa eficiente, mas não necessária de Fátima. A Presença superabundante seria, como já vimos, a causa de Fátima; sendo certo, porém, que, para Miguel Real, não se percebe o fenómeno com as tonalidades, a amplitude e difusão que teve se a República não tivesse existido - com as características de que se revestido, maxime, a ruptura com 700 anos de tradição católica em Portugal concretizada emblematicamente na abolição da Faculdade de Teologia de Coimbra, mas ainda na proibição das vestes talares dos sacerdotes em locais públicos, a proibição de manifestação pública de ritos religiosos, extinção de colégios de Jesuítas e outras Ordens, nacionalização dos registos de nascimento, casamento e óbito dos cidadãos, nacionalização de propriedades da Igreja, extinção de Ordens e Congregações religiosas...Ou seja, na opinião, sem a possibilidade do contrafactual, do autor, sem a República com a sua bravata anti-religiosa, sem uma Igreja fortemente acossada e arremetida contra as cordas, a «visão privada» dos Pastorinhos teria uma difusão bem mais escassa. Acontecer-lhe-ia, afirma Miguel Real, o que sucedeu a várias outras situações/ “visões” (que considera) similares. A Igreja não inventou, criou, construiu Fátima - para arremeter contra a República que contra esta tinha investido. Mas perante a «visão» dos Pastorinhos foi capaz de reerguer os alicerces, de convocar o povo católico –que, por sua vez, viu no fenómeno a confirmação de um sentido (existencial, histórico) em que se ambientara/situara (e que a nova ordem, tanto de ordem filosófica quanto política, pretendia (ex)purgar). 
Ainda que lateralmente, diga-se, o que daqui decorre, também, é o inverso das teorizações que divisaram, face a várias outras «visões» que não merecer(ia)m especial crédito ou visibilidade, não uma confirmação de que o mesmo se aplicaria a Fátima (como os que negaram a autenticidade das experiências de Fátima pretenderiam), mas o eventual reconhecimento (potencial) de que em outras ocasiões a experiência forte do inefável se deu (não atendendo o autor de Fátima e a Cultura Portuguesa a singularidades desta «visão» que a diferenciariam de outras - se se excluir a necessidade de reacção, mais forte, ao momento histórico; sendo as práticas republicanas já aludidas e, muito concretamente, o ano de 1917, e a participação portuguesa na I Guerra Mundial, especialmente propícios a uma apropriação do fenómeno como aquela que veio dar-se, segundo a interpretação do professor de Filosofia). Os pastorinhos inseriam-se nessa linhagem de 700 anos de tradição católica – “cruzamento entre a tradição católica mariana com a tradição mítica portuguesa” (p.55) - e as suas «visões» não podem separar-se dessa história, desse ambiente, dessa mundividência – a dimensão histórico-social, comunitária, das «visões». Em todo o caso, não apenas vemos tematizada a Presença como o «locus» suscitador da experiência dos Pastorinhos, como, ademais, é nela, nessa emoção, que Miguel Real observa já a raíz da própria religião (numa interessante recusa de a perspectivar pela lente de um constructo sociológico, à la Durkheim, ou a resposta do utilitarismo, o mesmo é dizer, para Miguel Real a religião tem origem na Presença, ou na suspeição da Presença, e não na religião já constituída, culturalmente reproduzida pelas instituições sociais, integrante da educação das novas gerações; a coesão social é propiciada pela suspeita da existência da Presença, por aquela emoção, e não pela organização religiosa institucionalizada e seus canais de propaganda - vide p.43 in fine e p.44; com o mesmo raciocínio se poderia, aliás, negar a origem da fé, e das religiões, no medo, ou resposta, da/à morte, resposta, a partir de Feuerbach, tantas vezes replicada).

10.Miguel Real vê na Fátima extraordinariamente emotiva (da procissão das velas), da pompa e grandiloquência arquitectónica, na liturgia envolvente todo um momento barroco, o único que, depois de Auschwitz, tornaria audível o silêncio de Deus (só pelo barroco seria possível religar, de novo, ao nível das “massas”, depois de Auschwitz).
Em A estranha morte da Europa, Douglas Murray escrevia que, após Darwin e os resultados da exegese bíblica, apenas em comunidades (evangélicas) ignorantes ressoava o fervor de outrora; na Europa católica, a fé, onde ainda permanecia, seria frágil. E, no entanto, bem aqui se poderia aplicar o refrão paulino – “quando eu sou fraco, então é que sou forte” – porque, para dar dois exemplos que se me afiguram importantes, se da evidência do Génesis como poema – a salvo da transliteração em ciência -, ou de um apurado e renovado registo acerca das experiências pós-pascais (das quais seria apenas seguro não duvidar de que aqueles que as experienciaram – cujo modo se deixa em aberto - nelas creram e viveram de tal modo que por elas deram, literalmente, a vida e nós, os que nela cremos, seríamos pois os que acreditamos no seu testemunho) resulta a necessidade da superação, em diversos casos, do literalismo e da visão mais infantil, bem como de dar o passo abissal – a aposta, a fé que tem razões, mas que é esse salto final sem as seguranças que, em realidade, a dispensariam – essa vivência, consciente, da fragilidade – e como, em vários momentos do pensamento de Miguel Real como o que assinalava a superação do esquema objectivo vs subjectivo na tematização da Presença me recordei, além de Marion, de Tomás Halík, exige uma força (profundidade) maior do que as respostas pronto-a-vestir reclamavam.
Habitar essa fragilidade, em templos onde o despojamento, o escultórico, o ir até ao mais fundo e íntimo, deixando os constructos que inflacionavam desnecessariamente (a recusa retórica), tem-se afigurado, como as novas Igrejas de Braga assinalam, repito, um caminho de resposta à altura dos tempos (sem prejuízo de no espanto que o barroco pode provocar haver um «excesso» que corresponde a uma demanda não negligenciável).

Para lá da contextualização histórica (social-política, de ideias), o livro detém-se, pormenorizadamente, nas várias corrente filosóficas e seus autores que concretizaram, a partir do séc.XVIII, diferentes concepções acerca de Deus, da ligação pátria ao providencialismo, ao messianismo, ao Transcendente, ao mítico (de que Fátima, como maioritariamente entendida, seria o apogeu, de uma genealogia que principiaria no milagre de Ourique, e continuaria, em diferentes formulações, com D.Sebastião, o Bandarra, Pe.António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Natália Correia, Paulo Borges, ou, até, no séc.XXI, com Pedro Martins).                         

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Links


*Algoritmos e ética, do Prof.Arlindo Oliveira





*Baixas "fraudulentas"? A primeira notícia conveniente tinha por título: “Mais de metade das baixas na Educação foram fraudulentas”. Teve origem em dados divulgados pela Comissão Europeia, relativos a cerca de 3000 doentes, que juntas médicas mandaram regressar ao trabalho. Fraudulentas? Se uma junta delibera em desacordo com o médico que segue o doente, trata-se de uma fraude? Saberão os autores da notícia que a maioria dos médicos que integram as juntas são tarefeiros, cuja contratação arbitrária pela Segurança Social deixa legítimas reservas sobre o seu grau de autonomia? Que se guiam por tabelas de duração média das doenças? Tendo as depressões o peso que têm na classe docente, poderá uma pronúncia de escassos minutos derrogar o parecer de um psiquiatra, fundamentado em horas de consultas, ao longo de meses? À memória veio-me o caso escabroso do funcionamento de uma junta, que testemunhei, onde o mais inocente do processo foi o relatório final ser assinado por alguém que nem sequer esteve presente naquele acto médico. À memória vieram-me mais casos. De Manuela Estanqueiro, doente de leucemia, em estado terminal, mandada regressar às aulas na EB 2/3 de Cacia, por uma junta médica. Morreu um mês depois, em sofrimento atroz, para não ser despedida por faltas injustificadas. De Artur Dias, professor na Escola Secundária Alberto Sampaio, de Braga, vítima de um cancro na garganta, que uma junta médica mandou regressar às aulas, apesar de não ter laringe. Morreu três meses depois. De Manuela Jácome, professora de Faro, doente oncológica que, apesar de não ter um quarto do estômago, vesícula, baço, duodeno e parte do intestino, foi considerada, por uma junta médica, apta para dar aulas. (do Prof. Santana Castilho, hoje no Público)

*Salários de professores:  Por fim, a terceira notícia conveniente foi o dilúvio de mentiras que a divulgação do relatório Education at a Glance proporcionou. Dólares, euros e paridades de poder de compra foram alegremente misturados, atirados ao ar e caíram onde calhou, para serem traduzidos em letras de imprensa e sons de rádio e televisão. Por negligência ou pura malícia, mas sem que uma só voz soprasse dos lados do Ministério da Educação para repor a verdade e defender os professores, miseravelmente enxovalhados. O relatório coloca os salários dos professores portugueses no topo da carreira acima da média da OCDE. Mas os números apresentados são muito superiores aos reais e não têm em conta os anos em que as carreiras estiveram congeladas. Situação que determina que não há no activo um só professor no último escalão, o 10º. E quanto teria de vencimento líquido esse hipotético professor (não casado, sem dependentes), depois de um mínimo de 36 anos de serviço? Uns milionários 1989,70 euros. O relatório situa um professor com 15 anos de carreira no 4º escalão. Mas porque durante 9 anos, 4 meses e 2 dias as carreiras estiveram congeladas, ele está, de facto, no 1º escalão, com o invejável salário líquido de 1130,37 euros. Durante os tempos negros da austeridade, relatórios deste tipo lograram pôr escravos pobres, modernos, contra pobres escravos, antigos. António Costa disse-nos que a austeridade acabou. Mas os relatórios e os seus efeitos continuam. (Santana Castilho, Público)

*Sobre a pedofiliaComo penso que sobre qualquer matéria, tanto quanto possível, se deve procurar chegar o mais próximo possível da verdade das coisas, mesmo quando possam estar mais afastadas de concepções dominantes, ou que tenhamos sobre as mesmas matérias, aqui fica o texto, de há 3 dias, no Público, acerca da pedofilia e do que se está a fazer na Alemanha, a propósito de uma conferência organizada pela Faculdade de Medicina do Porto: https://www.publico.pt/2018/09/15/sociedade/noticia/como-evitar-que-um-pedofilo-se-transforme-num-abusador-1844107

O texto diz coisas que me parecem importantes (em havendo consenso científico) sobre este âmbito: 

a) a OMS considera a pedofilia uma doença;
b) "a pedofilia não é uma escolha, é um destino";
c) a pedofilia não tem cura;
d) a pedofilia não conduz, necessariamente, a abusos sexuais;
e) o sujeito com essa orientação sexual não está (pré)"determinado" a abusar sexualmente de crianças;
f) assim sendo, havendo esse abuso há culpa, porque houve liberdade;
g) não sendo a doença curável, é possível prevenir, tomar medicação, ter terapia para evitar a consumação da filia em abuso sexual;
h) há 1% da população com semelhante orientação

Ir à bola com eles


1. Interessantes as histórias para contar dos jogadores perdidos, a caminharem para o ocaso de uma carreira, que deixam os grandes clubes, em que brilharam, e caminham agora, em menor velocidade, num bólide menos potente. E, de repente, mais velhos, regressam, afinal, ainda mais frescos e com qualidades insuspeitas à F1 do futebol mundial. James Milner parecia arrastar-se no City, seguiu para o modesto Villa, e ainda ontem foi um autêntico turbo no jogo grande da jornada inaugural da Champions, em Anfield Road; 2.O Liverpool-City, de ontem, demonstrou, por certo, para muitos, as virtudes de uma NBA no futebol: se na primeira jornada de uma Champions é possível tanta emoção, qualidade, intensidade, isso provaria que em se defrontando, entre si, apenas super-equipas seria possível ver grandes jogos, e só grandes jogos, desde Setembro. Neste sentido, foi uma má propaganda para o equilíbrio do futebol europeu (poderia dizer-se, com alguma ironia); 3.Desde há pouco mais de um ano, o Liverpool aparece um tanto mais calculista, menos exposto, menos franco no jogo, mais pragmático. Veja-se o caso do Tottenham-Liverpool do último fim de semana: em circunstâncias normais, seria um dos jogos do ano, duas equipas de peito feito, vorazes na vertigem ofensiva. O que se assistiu foi a um conjunto de amarras tácticas - mas que bem recuou Firmino, a jogar como não lhe tinha visto até hoje, como 9,5; a aposta na dimensão estratégica é tal que Klopp, mesmo com Firmino nesse apogeu, relegou-o para o banco com o PSG, colocando Sturridge como avançado-centro (e este marcou), um jogo que não parecia muito da Premier, sem demasiada beleza. Mas, para muitos, o Liverpool saiu de Wembley como mais candidato ao título, como nunca desde 90. Ou desde Brendan Rodgers, pelo menos; 4.Por falar em Tottenham, um seu jogador que começou a época em grande estilo, o brasileiro Lucas Moura, veio dar publicamente o seu apoio a Jair Bolsonaro. Já esta semana, o mesmo ocorreu com o jogador do Palmeiras, Filipe Melo. Os jogadores de futebol estão assim muito mais evoluídos, face há uns anos, quando eram tidos por pouco mais do que analfabetos, como dizeis? A resposta cínica é que o eleitor-tipo de Bolsonaro é um indivíduo com o ensino médio e superior - o que, como se constata uma vez mais, não garante coisa nenhuma; 5. Phillipe Coutinho está cada vez melhor e mais confiante em Camp Nou. As tabelinhas surgem, a ousadia da jogada chega, a inibição e o medo de falhar desaparecem. O medo cénico, que também parecia ter tomado conta de Dembelé, desde a supertaça de Agosto, anda esconjurado. De tal como que, meio a sério, meio a brincar, a imprensa espanhola já diz que o elo mais fraco da frente, nesta altura, é Luís Suarez; 6. Ainda assim, sempre que vejo jogar o Barcelona de Valverde fico a pensar que lhe falta mais tensão, mais intensidade, mais agressividade. Para consumo interno tem dado, quando apertar na Champions, ou há crescimento face ao que tem sido a média dos jogos deste ano e pouco, ou volta a claudicar. Mesmo com um homem que passa a bola e marca livres como os anjos; 7.Há sensações de deja-vu que sabem bem: o Bilbau-Madrid, do último Sábado, o melhor jogo deste início de época (descontado o espectacular Chelsea-Arsenal), devolveu-me aos inícios de 90, quando descobri, na TVE, a Liga espanhola, nos fins de tarde de Sábado, e nela se via um jogo nobre, no qual a disputa tinha entrega, paixão, intensidade e a grande possibilidade dos grandes caírem (o que por cá era uma quase impossibilidade, acrescida se entravam na frente do marcador, o que em Espanha não era factor impeditivo de perda). Características estas, entretanto, que mesmo em Espanha a desigualdade extrema, que replicava a sociedade e a economia, tinham levado. Que grande jogo no novo San Mamés!; 8. Perante a dita desigualdade, os adeptos dos clubes pequenos, apenas duas vezes ao ano podem assistir a desafios com os grandes craques, quando recebem Madrid e Barcelona (dirão que sempre assim foi, respondo que era mais mitigado quando o Valência podia ter o melhor Aimar, ou Ortega, ou Claudio Lopez, ou Mendieta, ou o Depor mantinha Bebeto, depois Rivaldo, e o Atlético jogava com Futre, Pantic e outros e não havia nos clubes uma seleção do resto do mundo). O que querem fazer aos adeptos do Girona é retirar-lhes metade do prazer futebolístico anual - levando o Girona-Barcelona para os EUA, para dar mais dinheiro. 9.O treinador do Madrid protesta com razão: enquanto, o Madrid vai jogar em casa do Girona, num relvado que não terá as mesmas dimensões do Bernabéu e do Camp Nou, e com público hostil, o seu principal rival jogará em campo neutro e com os fãs dos States. Desvirtua a competição, despreza os adeptos, desrespeita o jogo. 10. O diretor executivo da Bundesliga veio afirmar, face a este precedente, que jamais isso ocorreria no campeonato alemão; 11. Luís Freitas Lobo escreveu, em OJogo, no passado Domingo, que João Alves e António Oliveira foram "os melhores nº10 que vi jogar em toda a minha vida". 12. Oliveira, ao seu estilo, disse numa entrevista dada esta semana, que ajoelhou, celebremente, na Luz, na sequência de um derrube, na área de penalti, de Preud'home a Zahovic, a pedir que o "fanático dos popós"(poupo, naturalmente, o original) que apitava esse encontro não mais dirigisse o clube por si liderado  tecnicamente. Mais: 21 anos depois desse jogo, afirmou que, então, o FCP foi "prejudicado deliberadamente, dolosamente" (apesar da vitória, nessa partida, dos dragões, por 2-1). Oliveira, como os portistas em geral, tiveram, a propósito, um duplo azar: Lucílio Baptista não só, depois desse jogo, voltou a arbitrar uma enormidade de jogos dos azuis-e-brancos (com a mesma competência com que o fez nessa noite), como ainda se encontra no actual Conselho de Arbitragem. Como eles dizia, "os últimos 30 anos do futebol português..."; 13. Nem a arbitragem do jogo frente ao Chaves foi nenhuma catástrofe, nem o FCP empatou por causa disso. Sérgio Conceição devia guardar a indignação para quando se justifica, porque protestar sem razão banaliza, perde eficácia, e, sobretudo, tende a igualizar o que é escandaloso, e o que não é nada disso. O que é um feito, isso sim, é fazer um ponto numa Champions, quando se joga sistematicamente com 10 jogadores (Maxi, na melhor das hipóteses, é menos um; na pior, é sempre mais um mas do adversário) e se diz que Herrera é um bom jogador. Gritar contra a arbitragem quando a equipa nunca acompanha com futebol vai equivaler, e não será preciso esperar muito, a tentar travar o vento com as mãos.

Quem é o eleitor-tipo de Jair Bolsonaro?



2.As duas mais recentes sondagens para as Presidenciais do Brasil confirmam todas as tendências que vinham já dos estudos de opinião conhecidos na semana passada, esclarecendo a grande questão desta campanha: iriam os eleitores de Lula, destacadíssimo nas sondagens, seguir o seu endosso para o número dois da lista, Fernando Haddad? A resposta, em boa media, é sim; pelo menos, houve a suficiente transferência de intenções de votos de Lula para Haddad de modo a este ser já o virtual opositor de Jair Bolsonaro na segunda volta. 
Ciro Gomes consegue segurar o eleitorado que conquistou meritoriamente, mas não consegue subir desde há uma semana (e nos últimos dias, acabou por mostrar uma face que não se vira no resto da campanha, quando empurrou um jornalista, e o insultou, quando recebeu uma pergunta provocatória), Alckmin vai sair da campanha sem nela nunca ter entrado, Marina Silva perde votos a cada dia que passa. 
Para a segunda volta, as incógnitas - que parecem desfeitas face ao primeiro turno, mas que, de qualquer forma, numas eleições com mil e uma peripécias e reviravoltas não pode garantir-se como definitivamente encerradas - mantém-se nas sondagens, quer pelo empate técnico entre os candidatos Haddad e Bolsonaro, quer porque a taxa de rejeição deste último é apenas ligeiramente mais elevada do que a do candidato do PT, quer, ainda, porque Bolsonaro vai recuperando entre o eleitorado feminino.