quinta-feira, 24 de maio de 2018

Eduardo Lourenço numa zona sideral


Compreendo a opção estética de pretender colocar Eduardo Lourenço num mundo outro, o da abstracção que o ensaísta dizia ser o seu (Annie como sua ligação ao real), o mundo sideral a partir do qual esperava escapar à morte como o próprio dizia, também, no filme-documentário. Todavia, a concretização dessa opção, permeada, ainda, pelo labirinto (fantasmagórico) que pretendia ser o do livro homónimo, com imensos efeitos especiais e uma sonoridade que deixava muito pouco espaço ao efectivo peso/valor da palavra, uma sonoridade perturbadora mesmo, afigurou-se-me pouco conseguido. O híbrido entre o real/imaginário, juntando algumas figuras gradas da nossa cultura (lusófona), permitiu uma homenagem ao aniversariante (Eduardo Lourenço fez 95 anos). Mas se o documentário pretendia, para lá disso, repensar alguns dos traumas nacionais ("se não fizéssemos a opção europeia, depois do fim do Império, hoje seríamos uma colónia das ex-colónias"), revisitando a obra do pensador ("e se estivéssemos sozinhos no Universo? Toda a história do Ocidente foi a refutação dessa ideia"), o exercício não foi brilhante. Melhor fora, neste caso, um estrito documentário, uma entrevista extensa, uma abordagem crítica a partir de diferentes ciências sociais e estudiosos da obra (e do país para a qual remete). "O labirinto da saudade" (pelo menos na versão para tv, que a RTP1 passou na noite de ontem), de Miguel Gonçalves Mendes, ficou aquém das expectativas que trazia com ele.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Copenhaga

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Entre os países da UE, a Dinamarca é aquele que possui o maior número de benefícios (sociais) não contributivos [benefícios para os quais as pessoas não descontaram/contribuíram]. Um apoio da assistência social pode chegar facilmente aos 1500 euros por mês (p.115). Todavia, e ainda assim, naquele país o Estado Social não só foi já mais generoso, como, sobretudo, foi mais consensual e não colocado em causa e criticado, mesmo pelos sectores que tradicionalmente mais o defenderam como os partidos sociais-democratas. "Se o Estado Social foi durante anos um tema progressista, hoje é defendido como causa antimigratória, conservadora, de recusa da integração. O mesmo acontece noutros países nórdicos, com partidos de extrema-direita nos governos da Noruega e da Finlândia" (p.115). 
Hoje em dia, sustenta Bernardo Pires de Lima, não pode, contudo, falar-se, já, de um modelo nórdico, precisamente, em virtude das diferentes atitudes tomadas, em cada um destes países, face à imigração; não pode, pois, falar-se num modelo regional ("quem olha para a Escandinávia como um bloco uno e indivisível, não está atento aos sinais dos tempos", pp.117-118). Enquanto que a Suécia optou, pelo menos durante muitos dos últimos anos, por uma posição de maior abertura, acolhimento e hospitalidade, a Dinamarca comportou-se de um modo muito mais restritivo, acusando os vizinhos de ingenuidade e de, pela sua postura acrítica face a um consenso pró-imigração, ter estado na origem da subida ao primeiro posto nas sondagens do partido de extrema-direita ("o Governo dinamarquês adoptou a abordagem contrária à concessão de asilo político. Em Setembro, colocou anúncios em quatro jornais libaneses, alertando os possíveis imigrantes para as dificuldades que enfrentariam se decidirem mudar-se para a Dinamarca. Numa primeira fase, ofereceu-se a contragosto para receber mil refugiados localizados noutros países europeus, mas rapidamente mudou de ideias. A Suécia, pelo contrário, abriu os braços. Este ano, cerca de 150 mil sírios, afegãos e gente de outras nacionalidades procuraram ali asilo, tendo a maioria entrado pela Dinamarca. Proporcionalmente, receberam mais do que a Alemanha. Tudo mudou em Novembro de 2015, quando o governo social-democrata de Stefan Lofven se curvou perante a pressão dos números. A partir de Abril de 2016, a maioria dos refugiados passou a usufruir apenas de protecção temporária, tendo perdido o direito de trazer familiares para a Suécia. Para um país que faz da moral e da consciência pilares da sua acção externa, isto representou uma grande inversão identitária", p.117).
Em realidade, sem embargo, os estudos mostram, consistente e sistematicamente, que os imigrantes são contribuintes líquidos dos países de acolhimento; isto é, entre o que beneficiam dos Estados (sociais) dos países que os acolhem e aquilo que contribuem para estes é maior a soma de contribuição que fornecem do que despesa que dão (mesmo neste mais estrito olhar utilitário e despersonalizado): "Só que, tal como no Reino Unido, os dados mostram que os imigrantes foram contribuintes líquidos na Dinamarca, ajudando a financiar o Estado Social de que acabam por beneficiar. Os resultados fazem-nos repensar o tal nexo de causalidade entre a livre-circulação e os abusos sobre o orçamento das políticas sociais, sugerindo que o bem-estar social é muito menos vulnerável ao impacto da livre-circulação do que o discurso político actual vai fazendo acreditar" (p.116). 
De resto, Bernardo Pires de Lima retrata o modelo económico baseado na flexissegurança - flexibilidade laboral, facilidade de despedimentos, modelo liberal por um lado e rede de protecção dos rendimentos por outro; "aquele" emprego em concreto não é protegido com cláusulas que impeçam ou dificultem, de algum modo, o despedimento, mas a pessoa nunca fica sem rendimentos, aliás generosos, enquanto se reintegra no mercado de trabalho, sendo pago para readquirir, ou enquanto adquire novos conhecimentos/competências/formação profissional - presente também na Dinamarca. O Governo dinamarquês quer aumentar em 20 por cento o orçamento da Defesa nos próximos 5 anos, fazendo face ao aumento da actividade militar russa na Europa Central e de Leste. Arquitectura arrojada, amplos espaços verdes, bicicletas retro, água como parte da identidade, país mais feliz do mundo em sucessivas estatísticas, a Dinamarca, com grande homogeneidade cultural apesar das vagas migratórias, viu abrirem-se feridas e mudanças de identidade até nos partidos, com as polémicas em torno do Estado Social, imigração, refugiados.

terça-feira, 22 de maio de 2018

La Valletta

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Com cerca de 430 mil habitantes, Malta é o mais pequeno país da UE. É, igualmente, o mais católico dos países da União Europeia, aquele em que a Igreja tem uma maior influência. Data de 2011, apenas, a Lei do Divórcio, em Malta - que, juntamente, com as Filipinas eram, nessa data, os únicos países que não detinham uma lei dessa índole. Neste país, há pouca pobreza. O Times of Malta é o maior jornal do país. Os principais partidos políticos, o Bloco Nacionalista e o Bloco Socialista detém canais de televisão, jornais, rádios. Tudo é muito politizado, em Malta; de tal maneira que, em 2015, com um Referendo sobre a caça, muitas pessoas deixaram de falar entre si. O PIB cresce a um ritmo de 6%, em 2017. A admiração por Putin é crescente, na sociedade maltesa. Os principais problemas do país parecem prender-se com a exposição à banca italiana e aqueles que advêm do Brexit. O actual PM, social-democrata, tem 39 anos; havia sido já ministro com 21 anos. Com uma doação ao Governo, no valor de 30 mil euros, ou com a compra de um imóvel no valor de 270 mil euros consegue-se, de imediato, um passaporte europeu. A imigração tem centralidade na agenda política local. Mas é a corrupção, a interferência do poder político no poder judicial, o impacto de Malta nos Panama Papers. Uma bomba, de resto, matou uma jornalista, Daphne Caruana Galizia, que investigava os meandros dos Panama Papers, com o Parlamento Europeu a abrir investigação ao bárbaro crime - no seu blogue, a jornalista implicava membros do Governo e a própria mulher do PM, Joseph Muscat, em esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito - e a dar o nome de Daphne à sua sala de imprensa.

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.59-65]

Amesterdão

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Em Amesterdão, há pessoas de 178 nacionalidades diferentes. Mais do que em Nova Iorque. Nas últimas legislativas, na Holanda, votaram 82% dos eleitores - uma participação muito assinalável em tempos, nalguns lugares, de grande absentismo. Na capital da Holanda, venceram Os Verdes, com um projecto de abertura e tolerância, o partido preferido das classes mais educadas. Mesmo no todo nacional, e sem prejuízo do tempo que demorou a formar-se o (novo) Executivo, 70% dos mandatos foram conquistados por formações partidárias que tinham programas e posicionamentos contrários à xenofobia ou o racismo, não cavalgando a onda anti-refugiados e/ou anti-imigração. Isto, apesar da Holanda ser um país que fez da questão da identidade um elemento chave da agenda pública desde há vários anos ("Ou seja, a centralidade da identidade no debate político ocidental não está reduzida nem sequer enclausurada numa só categoria cultural que parece fazer do homem branco e supostamente puro a essência da salvação humana ocidental e, em particular, europeia", p.77). Não foi a economia a liderar os debates - até porque na altura das eleições o PIB crescia 2,1% e o desemprego era baixo (5,5%). Há 14 partidos com assento no Parlamento, e, provavelmente, este leque muito alargado de formações partidárias contribuiu para a ida às urnas de tanta gente. "Com um quarto do território e 60 por cento da população a viverem abaixo do nível da água, a Holanda soube fazer desse cerco líquido um desígnio interno de unidade, desafiando-a a preservar uma estratégia de engenho comercial que transformou em grande potência um país 12 vezes menor do que Espanha, aportando da Costa Leste dos EUA às Caraíbas e ao Brasil, passando pela Costa Dourada do Gana à África do Sul, do Japão à Indonésia e aos estreitos estratégicos do Índico, nas imediações do Sri Lanka. É impressionante como um país tão pequeno, e enclausurado entre os colossos alemão e britânico, conseguiu tanto e ir tão longe. De certa forma, é um traço parecido com o português, ainda que tenha enraizado de forma  completamente diferente uma cultura política e social liberal que ainda hoje o caracteriza (...) O que mais admiro na Holanda é o facto de apresentar as mais baixas taxas de horas de trabalho no Ocidente e ser, ao mesmo tempo, o sexto país mais rico do mundo; consegue ser o segundo maior exportador agrícola universal, tem o maior porto da Europa (Roterdão), o seu povo vive em duas rodas como um prolongamento do corpo (...) E como é imprescindível o lazer para nos desbloquear da teia de bugigangas, futilidades e angústias que diariamente nos consomem"(pp.74-76).

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018]

Erasmus (portugueses)



Retirado da revista do Expresso, deste fim de semana. Em 1987, foram 25 os estudantes portugueses que fizeram Erasmus. Actualmente, em média, por ano, são cerca de 7000.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Para uma outra cultura - uma entrevista rara




VS: Primeiro, há uma decadência da influência dos intelectuais na Europa. É fácil perceber que, hoje, um cozinheiro é mais importante do que um poeta ou um filósofo. Só isso já é absolutamente incrível. Lembro-me do Sartre ter visitado Coimbra, no pós-25 de Abril, e de como aquilo foi um acontecimento que nos deixou electrizados. Hoje, se o Sartre viesse cá (alguém dessa craveira), não tinha qualquer impacto. E é por aí que se explica a crise da intelectualidade. (…) Há aquele grupo de economistas de Chicago, que simplificaram estas coisas e introduziram uma dimensão a que podíamos chamar de biopolítica… Deixamos de ser um sujeito histórico, um sujeito trágico, para passarmos a ser indivíduos. Há um efeito de naturalização da vida. Se um indivíduo é mais forte, mais rápido, safa-se; se é mais fraco, e não consegue criar o seu próprio meio de sustento - se não é adepto do tal empreendedorismo -, está feito.  (…) A tagarelice, a naturalização do discurso e a naturalização da vida. No fundo, estão a dizer-nos qualquer coisa como: somos natureza, não somos cultura. Portanto, nós dois somos dois indivíduos numa selva e temos de nos safar. (…)
Note-se que uma das primeiras coisas que as políticas neo-liberais fizeram foi destruir a contratação colectiva. Porque isso tem também um valor simbólico. Deixa de haver contratos colectivos, só há contratos individuais: é cada um por si. (…) Todos os dias passo pelas bancas dos jornais e é impressionante ver o que tomou conta das capas das revistas. Quando foi o dia das eleições na Catalunha, a revista “Sábado” tinha na capa: “O que pensam e sentem os animais?” Veja como isto se encadeia: Esta biopolítica leva a uma naturalização seja do discurso, seja da vida em geral, e leva a uma animalização do humano e a uma humanização do animal. Passa a ter direitos e não sei quê. Portanto, se o cão é molestado há uma petição… (…) É que uma coisa é ética animal, que não é uma matéria recente… Vem do século XVII e XVIII. Mas hoje, já não é tanto a questão da razão, nem da linguagem, ou daquilo que nos diferencia, e passa a ser aquilo que nos une. E isso o que é? O sofrimento. Quer dizer: os animais também sofrem. Muitas vezes até sofrem mais do que nós. E pegam nisto, em que têm até um certo fundamento histórico-filosófico, e acabam por rebaixar o humano, e naturalizá-lo. (…) Se passar na Rua Garrett e perguntar aos rapazes que estão ali a pedir moedas… Já o fiz. Uma vez a um que estava perto da Bertrand: “Epá, diga-me lá: porque é que tem aqui três cães?” E ele - que era húngaro - disse-me: “Se não tiver cães não me dão esmola.” É interessante, não é? Portanto, a quem damos a moeda é ao cão. Não damos a moeda ao sem-abrigo, ao mendigo, etc.

I: Parece-lhe que o que o neo-liberalismo conseguiu criar foi um racismo contra os desfavorecidos? Contra o pobre? Se os Nazis conseguiram fazer a excepção do judeu, que não era bem humano, mas sub-humano, hoje essa mesma condição parece estar a abrir-se para o pobre. Fala-se cada vez menos dessa condição que afecta cada vez mais pessoas. E o pobre, que já vive no gueto, surge tantas vezes como um falhado, alguém que não conseguiu provar o seu valor social. Ou porque é preguiçoso, ou porque não tem ambição… Está cheio de uma série de vícios, de culpa, e isto quando tudo nos mostra que ser pobre é muito mais difícil, obriga uma pessoa a ser muito mais engenhosa do que quem acede, de nascença, ao privilégio. Todos os estudos nos mostram que a mobilidade social é cada vez mais um mito das sociedades ocidentais, e que hoje é dificílimo superar uma situação de pobreza extrema.
Essa é a grande vitória deste (não sei se lhe pode chamar neoliberalismo… mas) capitalismo feroz. Esse racismo dos pobres é um dos grandes trunfos destas políticas. E o criarem a aceitação quase pacífica de que a desigualdade e a pobreza são naturais. Voltamos à Natureza. “Tu és pobre, mas isso não resulta de haver uma acumulação estratosférica de riqueza em meia dúzia de gajos. Não. Tu és pobre porque não és capaz, porque não és competente, porque não és rápido, porque és preguiçoso…” Esta naturalização parece-me um condicionamento mental extraordinário e muito bem urdido. (…)
Hoje, encontro pessoas que me dizem que ganham 800 euros e ainda acrescentam: “Nem ganho mal.” Quer dizer: “Tenho trabalho; ao menos trabalho.” E, portanto, esta aceitação e naturalização da desigualdade faz parte de um modelo mental de que o Barthes fala em “O Prazer do Texto”… E um dos seus sintomas é a tal tagarelice. Hoje, quando ligamos a televisão (e eu já não consigo ligar…), aparecem aqueles tudólogos.  (…) De resto, é o que a televisão faz. Vemos um bombardeamento na Síria, os destroços, as mães em lágrimas, depois vemos o golo do pontapé de bicicleta do Ronaldo, a seguir já vem não sei o quê… O cãozinho alvejado em Castelo Branco. E tudo isto passa na mesma unidimensionalidade. (…)
Esta tecno-sociabilidade está, muito rapidamente (em cerca de 20 anos), a produzir alterações drásticas. Seja a nível da sexualidade, seja da própria identidade, e ao nível do fetichismo visual, também daquilo que o Mario Perniola, recentemente falecido, chamava o sex appeal do inorgânico… É como se passássemos desse conceito tão importante que é a intimidade para um novo conceito que é o da extimidade. (…) Não é que não haja segredos, acho que as pessoas ainda os têm, há até mais segredos, mas não os contamos é aos nossos amigos. E voltando à pergunta inicial, parece-me que esta destruição dos laços sociais levou a um empobrecimento do pensamento, do pensamento complexo, daquele que não fica pela superfície dos fenómenos. Há dias ofereci o livro do Kraus [“Aforismos”] a uma pessoa que me disse: “Isto é difícil. Temos de voltar atrás, voltar a ler…” E isto acontece porque a malta está já adaptada a imediatez da frase límpida que funciona no Twitter, as notícias ao minuto… (…) As pessoas rejeitam um filme dizendo que é muito longo. Duas horas já é muito para se estar concentrado numa coisa só. Hoje o “Andrey Rubliov” do Tarkovski seria insuportável para a larga maioria deste público que se está a criar. A malta não aguenta porque já está habituada às séries. Não quero com isto ter um discurso profundamente conservador, do estilo: “No tempo da grande arte…”. Porque há coisas fascinantes que se estão a fazer hoje. Aquilo de que estou a falar é de um processo sistemático de alienação que está em curso.

I:Em linha com a crítica de Karl Kraus aos jornais, hoje na televisão as vítimas parecem ser desapossadas, nem lhes sendo dado eco do seu drama, com os seus casos a servirem de mero ornamento para umas ficções globais, uma confusa narrativa que depois dilui tudo e perde toda a perspectiva sobre a realidade.
Pois. É um drama muito abstracto. Prefere-se a abstracção porque, na verdade, ninguém - seja nos meios jornalísticos, seja nos meios políticos - está interessado naquela gente. São pobres. O que é que nos interessam os pobres? Os pobres são os desgraçados que não conseguiram sair de Vouzela. Que não se tornaram empreendedores, e que não acabaram a dirigir o Lloyd’s Bank.
Há uma discussão em curso sobre se foram as doenças que mudaram ou se foi a psicanálise que mudou. Mas, não entrando nisso, o que havia era o seguinte: os problemas num consultório de psicanálise eram problemas de natureza mais inconsciente, mais relacionados com a autognose, portanto, de imaginário. Hoje, o que temos são problemas muito reais. É como se a realidade entrasse pelo consultório dentro. E é evidente que, se um paciente fica desempregado, não há interpretação que resista. Isso leva a que hoje as narrativas sejam pobres.  Narrativas hiper-realistas - o desemprego, por exemplo -, ou narrativas que se ligam a um síndroma de ansiedade generalizado, com pânico ou sem pânico. Hoje, aparece muito o pânico, mas este é precisamente aquilo que não é mentalizável. De repente, o corpo parece que começa a falir, num estado de choque. Depois temos estes problemas todos da hiper-insónia… Também há um adoecimento físico muito grande. Ao mesmo tempo que se impõe uma grande ideologia da saúde, nunca como agora se vê tantos cancros em pessoas tão novas. Tenho vários pacientes que se debatem com doenças oncológicas ou enfartes ainda muito jovens. São sinais de que estamos numa sociedade altamente neurótica, stressante, onde não há direito ao ócio.  (…)
Se não está a trabalhar, você já sente culpa. Eu não trabalho de manhã, porque preciso de ler. Se trabalhasse de manhã estava analfabeto. Chegava a casa à noite, e o quê? Via o telejornal? Deitava-me? Depois as pessoas têm um tempo muito rotinizado. Ainda há dias foi o Natal, já veio o Carnaval, a Páscoa já foi, já estamos outra vez nas férias de Agosto…(…)
Chegados a este momento, em que há este fetichismo da imagem, uma instagramação da vida… Às vezes vou almoçar e fico espantado com a quantidade de pessoas a fotografarem a comida. Hoje, estava um casal a almoçar que passou cerca de hora e meia ali, os dois agarrados ao telemóvel. Isto depois tem repercussões, como é evidente, também ao nível de uma psico-sexualidade. Freud aprofundou essa noção lembrando que a sexualidade não é uma coisa natural. Há um lado psíquico, e demonstrou que a sexualidade humana é bi-fásica. Hoje tendemos para uma naturalização da sexualidade, que se tornou uma espécie de aeróbica. O lado físico sobrepõe-se. Estou no Tinder, procuro alguém disponível num raio de não sei quantos quilómetros, e vamos a isso. Isto, evidentemente, leva ao afrouxar do lado pulsional da sexualidade. Neste quadro não é o desejo que prevalece mas o instinto, ou seja, voltamos à natureza.

Que papel tem a ideologia nisto?
O capitalismo conseguiu esta coisa magnífica: que a mercantilização chegasse ao amor. Tenho uma aplicação que me diz que a três quilómetros há um homem ou uma mulher afim de ter relações sexuais comigo. Isto não é uma psico-sexualidade, porque isso implicaria desejo, uma construção… Agora, as pessoas chegam lá e até mudam de ideias: “Não, não gosto. Não me apetece. Afinal, a tipa é mais gorda do que eu esperava, tem óculos. Não quero.” É como se você chegasse a uma loja e se pusesse a escalpelizar o produto em busca de defeitos. Há, portanto, um capitalismo triunfante que vive de duas coisas: da mercantilização de tudo e da catástrofe. (…) Nos últimos dois anos já passei por três bancos. Era do Banif, fui para o Santander, deste para o Popular… e depois voltei para o Santander. Já não é como aquele título de livro, “Tudo o que é Sólido se Dissolve no Ar” [obra mais conhecida de Marshall Berman], o que há é uma precarização de tudo, e para a qual o ser humano, em termos psicológicos, não está preparado. (…) Para o nosso próprio projecto de identidade contamos com uma expectativa de continuidade e esperança, ou ilusão. Quando perdemos a ilusão adoecemos. A doença mental é a perda da ilusão. Donald Winnicott estudou a fundo esta questão: ilusão, perda da ilusão, re-ilusão… Se lhe dizem que para o ano tudo só vai piorar, você não está preparado para isso. E esta precariedade vai até à reputação. Hoje, posso ser um tipo famoso, mas se um dia vou à televisão e toco no joelho de uma senhora, dando origem a um mal-entendido qualquer, fico sujeito ao rolo compressor deste fascismo moral, que manda a minha reputação por água abaixo. E um processo destes é quase incontestável, porque estamos num tempo de pensamento quase único.  (…) Acho graça aos poucos críticos literários que ainda saem da linha porque imediatamente parecem seres de outro planeta. Esta uberização da crítica, com as estrelinhas, sempre as mesmas editoras, e um tipo de sanitização em que se tenta prevenir a todo o custo qualquer polémica. Não há réplica, nem tréplica… Porra, pá! Mas como assim? Isto agora vai ser tudo com paninhos quentes? Há quem não se dê conta de que isto já nem faz parte da história cultural do Ocidente. O que é que seria da Literatura se este fosse o modelo há séculos. (…) Começa a instalar-se um pensamento único, uma mesmidade… Editam-se muitos mais livros, mas que livros é que vendem? São sempre os mesmos e porquê? Porque a censura é brutal. Os meus [da editora VS] livros não vão estar na Bertrand.  (…)
I: E Itália ainda tem uma elite cultural.
Sim, tem. Como França. A Minuit era a editora francesa mais rentável em relação ao número de funcionários. Tinha uns oito. E editou coisas do arco da velha. A Actes Sud prossegue, a Fata Morgana continua a editar. E isto porque há ali malta que lê. A Gallimard continua autónoma, e em França também ocorreu o fenómeno da concentração editorial. Mas, assim mesmo, a Gallimard continua a ser uma força no terreno da edição como não há paralelo em Portugal. E porquê? Porque há ali civilização. Civilização no sentido alemão: kultur.  (…)
I:Há uma certa volúpia num livro com esta dimensão e peso [“Aforismos”, de Karl Kraus]…
Sim, porque há um cuidado material na escolha da cartolina e do papel. Se vir os alemães, eles são poupados a fazer livros. Os livros da Sudkamp, a edição alemã… não a imitei, mas foi daí que tirei o modelo. Só não consegui que ela dobrasse sem partir. Com a edição alemã, faço do livro um rolo, e o livro volta a si e não parte. É um livro pequeno, não sei se o tenho aqui… E pequeno porque é para a malta andar com eles no bolso. Nós aqui fazemos uns tijolos que são impossíveis de ler. (…)Você vai à La Hune, a livraria em Paris, ou à Feltrinelli, em Roma, e o que lá está não é o que está ali, na Bertrand. Os livros têm outra forma, são pequenos. Os livros da Einaudi são pequenos, as colecções alemãs são todas de livros pequenos, portáteis. Exemplo disso foi a edição do D. Quixote em português. Fizeram-se duas edições, e as traduções até são boas… (…)Fiz mil exemplares do Dagerman e 500 do Kraus.
Vítor Santos, em entrevista a Diogo Vaz Pinto, I, O racismo contra os pobres é um dos trunfos do actual regime, 21-05-2018, pp.32-37.

Na íntegra:

domingo, 20 de maio de 2018

Uma dobra do tempo e a Literatura


Mesmo que não seja um desígnio explícito, é para isso que a literatura serve; é uma espécie de testemunho subversivo, alucinado, que não tem só como objectivo não deixar esquecer o passado mas avisar que há leis intemporais que comandam a História e os sucessos dos homens. Neste romance fala-se muito da Ilíada, um livro precisamente sobre isso: diz-nos que a violência será eterna e é perigosa, destrói os homens. (...) Esse medo [do fim do mundo] é um tema que atravessa a nossa literatura. Não só herdámos isso do mundo bíblico, como é mesmo algo inerente à Humanidade: pensar que além de um fim dos homens, haverá um fim da Terra...Hoje estamos numa dobra do tempo, percebe-se perfeitamente. E, por isso, acho que imensos escritores escrevem sobre isso, quase todos. Seja pela denúncia dos abusos sobre a Terra, os abusos da política. Até a melancolia que atravessa a literatura em relação ao amor...(...) A literatura serve para isso, para nos avisarmos uns aos outros. Não de forma sádica, mas embalados pela beleza das palavras. Um livro bom nunca pode ser só sobre o mal, é sempre também sobre a beleza, e é essa parte que é sempre redentora na literatura. Pode-se escrever sobre o fim do mundo, mas há sempre uma janela que é redentora, que é a da beleza. (...) Sim, se eu somar todos os meus livros, acho que eles também são isso, esse aviso sobre um fim do mundo que pode acontecer e nós queremos adiar indefinidamente. (...)
Um leitor demora uns 20 anos a fazer. É um trabalho duro mas seguro. (...) Acho que há uma futebolização da cultura. Em todos os domínios...(...) Figuras de proa como George Steiner ou Alberto Manguel têm dito que a literatura não nos faz, necessariamente, melhores pessoas. Concordo...Mas faz de nós pessoas mais ricas, mais amplas. E que tem poder, um poder lento e invisível...Há dias, voltei a um livro de meados do século XIX, A Dama das Camélias [de Alexandre Dumas filho] e pus-me a pensar se ele melhorou a Humanidade...Concluí que sim, melhorou, de facto! Na altura, diriam: mas como é que falar duma prostituta de classe alta pode melhorar alguma coisa? Eu acho que melhorou, denunciou um cinismo, desmantelaram-se processos...A literatura tem redenção dentro, promete uma redenção. (...) Antigamente, ia encontrar-me com os meus amigos e oferecia os meus livros. Hoje, raramente ofereço os meus livros...Tenho a sensação de que as pessoas lamentam ter mais um livro em casa, de que não têm tempo para ele. Hoje não há tempo para os longos segmentos...E eu acho que eles são indispensáveis porque alimentam aquela parte da nossa vida onde se criam os valores, onde se tem disponibilidade para a reflexão. Quando formos autómatos que reagem só a curtos segmentos, penso que a Humanidade será pior. (...) É muito importante que as pessoas que gostam de livros e o digam umas às outras...Quem percebe o que é a literatura, e como ela é indispensável tem o dever de espalhar a boa nova, a boa notícia, e dizer "olha, encontrei um livro que vale a pena". E vou encontrando muitas pessoas que o fazem. (...) Os melhores [autores, jovens] (...) são aqueles que seguem uma tradição da literatura portuguesa que é ser uma literatura que tem um cerimonial, que não tem pressa, tem algo de barroco e de repetição. Uma literatura com um formato litúrgico e que tem algo de religioso no processo, na construção.

Lídia Jorge, entrevistada por Pedro Dias de Almeida, Só a literatura nos pode salvar?, Visão nº1315, de 17-05 a 23-05-2018, pp.82-87.