sábado, 5 de outubro de 2019

A debilitação do conhecimento e da vontade (política) na era da incerteza


A incerteza, quase gritante, que rege o nosso tempo, e se coloca ao nosso futuro, faz com que, não apenas o nosso conhecimento - naufragando num oceano de dados, informação, ruído contínuos e incessantes -, mas também a nossa vontade fiquem debilitados, entorpecidos e, mesmo, se demitam. Sob duas formas políticas se dá essa demissão da vontade (política), regista Innerarity: a da (ideia de) adaptação ao que quer que seja que aí está/esteja (a adaptação como primado da direita) ou a contestação ou renúncia a tudo que se nos apresenta (a oposição como mandamento da esquerda). O exemplo dado pelo filósofo político é o da globalização: a perspectiva, de um lado, de que há que nos adaptarmos a como a globalização se dá, hoje por hoje; o posicionamento, por outro, de recusa de qualquer tipo de globalização (antes, mesmo, de verificar que oportunidades/vantagens dela podem advir e de como a conformar no melhor sentido).
Há, neste momento histórico em que nos encontramos, outras consequências advindas da perplexidade para com o mundo em que vivemos: emoções confusas, sentimentos que vogam sem uma âncora institucional segura, ausência, para muitos, de um marco que fosse hoje indisputável (quando é tão indispensável), alguém em quem confiar, uma bússola de orientação.
Em diferentes páginas de Política para perplexos, identifico uma comunhão de diagnóstico, por parte de Daniel Innerarity com Gilles Lipovetsky, a este respeito. Ou seja, se como o filósofo francês tem dito (recorde-se, por exemplo, esta entrevista), a uma fase histórica, em que o predomínio das instituições, das comunidades, tornava claro o sentido, o significado, o rumo, o caminho que a pessoa devia seguir, contudo coartando-lhe a liberdade, a absolutização do indivíduo, a sua "saída" de comunidades e instituições, colocou-o entregue a si mesmo, sem qualquer mapa, gerando níveis inéditos de stress e uma sociedade medicada a propósito e em sobredoses, já o filósofo basco assinala: "podemos também constatar que os nossos sentimentos vogam sem qualquer âncora institucional, dando lugar a sociedades exasperadas, ansiosas e irascíveis. Quando tudo se torna imprevisível, instável e suspeito surge a nostalgia das paixões tranquilas e levanta-se com especial inquietação o problema de saber em quem confiar, como recuperar alguma referência que nos permita orientar os nossos conhecimentos e emoções (...) que algumas certezas nos abandonaram é algo que podemos comprovar comparando as nossas previsões com aquilo que realmente aconteceu: ou se considerarmos a segurança de que gozaram muitas gerações e civilizações menos informadas do que a nossa, com uma tradição mais rígida que compensava a escassez da liberdade com uma orientação esmagadora. Quando alguém está bem equipado em matéria de certezas corre o risco de acabar no fanatismo; o risco maior de quem está perplexo é adaptar-se ao politicamente correcto e pouco mais"(pp.16 e 21).

A era da incerteza


Se eu tivesse de sintetizar o carácter do mundo em que vivemos diria que estamos numa época de incertezaOs seres humanos de sociedades anteriores à nossa viveram com um futuro talvez mais sombriomas a estabilidade das suas condições de vida - por muito negativas que fossem - permitia-lhes pensar que o porvir não ia trazer-lhes demasiadas surpresasPodiam ter fome e sofrer a opressão, mas não estavam perplexosA perplexidade é uma situação própria de sociedades em que o horizonte do possível se abriu tanto que os nossos cálculos acerca do futuro são especialmente incertos.

Daniel InnerarityPolítica para perplexos, Porto Editora, 2019, p.13. 

Innerarity


Verdadeiro case study para Daniel Innerarity é o chamado «processo catalão», que aliás foi convidado a intermediar por Madrid e Barcelona. A divulgação pública prematura do seu nome por uma das partes fez abortar a mediação e o filósofo basco voltou para Heidelberg convicto de que nem toda a gente quer uma solução que possa contentar ambas as partes. 

Carlos Magno, Prefácio pouco perplexo, para Política para perplexos, Porto Editora, 2019, p.10. 

Ironias ideológicas


1.Diz Paul Mason (em entrevista ao Ípsilon, Público, 27-09-2019): se são políticos muito à direita, como Trump ou Bolsonaro, que mais têm usado e popularizado as fake news, foi uma certa esquerda pós-moderna que, procurando impugnar a possibilidade de (acedermos à) verdade e adoptou o relativismo como credo, ironia da história, abriu um caminho que acaba por desaguar na pós-verdade, nas narrativas (que cada um escolhe, ou a que cada um adere), no menosprezo dos factos.

2.Escreve Daniel Innerarity (em Política para perplexos, Porto Editora, 2019): se, tradicionalmente, a realidade era de direita, ficando a esquerda acantonada à utopia, à imaginação e criatividade, os tempos agora são bem diversos. Justamente, os factos, a realidade, para políticos de direita como Trump ou Bolsonaro, pouco ou nada conta, irrompendo antes a narrativa como, de longe, o mais importante (e factor de atractividade). Hoje em dia, aliás, conquanto não se veja concorrentes desta via de uma direita extrema manipular os factos com tanta frequência/eficácia, sentencia de modo corrosivo o filósofo político, parece que "os reaccionários são proprietários da criatividade". 

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O NASCIMENTO DA LIBERDADE E DA AUTONOMIA


A autodenominação comum das sociedades tribais para o seu próprio povo era, regra geral, «pessoa», pelo qual se torna claro que os outros não são propriamente pessoas; pelo menos, não em pleno sentido. No mundo grego de Ulisses, o historiador Moses Finley não verifica «nenhuma consciência social, nenhum traço de mandamento divino, nenhum sentimento de responsabilidade para com alguém além da própria família, nenhum sentido de dever para com nada além da própria valentia e ambição pela vitória e o poder». Aqui não existe nenhuma igualdade para todos, muito menos paz ou até tolerância. (...)
Contudo, de repente algo escandaloso aconteceu. Cerca de 1300 anos antes de Cristo, certas pessoas e certos povos começaram, primeiramente de uma forma incerta e dúbia, mas depois de forma mais clara, a acreditar num único Deus que tinha criado o mundo, todos os povos e todos os homens. Isto foi revolucionário! Os deuses tribais eram responsáveis somente pela própria tribo e, não raras vezes, esses deuses lutavam ferozmente nas lutas sangrentas dos seus povos contra, nas suas perspectivas, os fracos deuses tribais de outros povos. E de repente havia um Deus para todos! Começou no Egipto sob o faraó Amenófis IV. (...)
De repente tinha-se de acreditar neste Deus com o coração e com o entendimento, ou não; devia-se prontamente obedecê-lo, ou não; e isto era algo interior, com a alma, ou seja, psíquico. E era, de certa forma, individual. (...) A religião já não era só os sinais exteriores de confirmação da ordem eterna, necessários à conservação de cada sacrifício, até mesmo de sacrifícios humanos (...) Um Deus que requeria [agora] uma decisão individual, extremamente pessoal e eticamente livre. Ele exigia algo interior. No fim dos tempos, todos se encontrariam perante esse Deus. A partir desse momento, o Homem estava sozinho, sozinho perante Deus, e a partir desse momento o Homem devia obedecer mais a Deus do que aos Homens. Acima de tudo, o Homem podia entender, com o tempo, que era livre, livre de decidir e que tinha de assumir responsabilidades pela sua decisão, mas no sentido de uma resposta perante o julgamento de Deus. Deste modo, o Homem libertou-se da prisão espiritual das religiões tribais, que não conheciam a liberdade religiosa, e teve de aprender o que era a tolerância. E porque é o próprio Deus quem deseja seguidores íntimos, todas as outras formas de seguimento à força perdem sentido. O monoteísmo, ao qual o Homem se converte livremente, plantou deste modo o gérmen do que o Homem entende actualmente como liberdade e autonomia

Manfred LutzEscândalo dos escândalosA história secreta do cristianismoPaulus, 2019, pp.20-22.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Um cimento fundamental de uma sociedade


A perda do Cristianismo como uma força que liga toda a sociedade deparou-se com uma crise severa. E tal crise é reconhecida abertamente por todos os quadrantes políticos. O advogado e político alemão de esquerda Gregor Gysi explicou, na Academia Evangélica de Tutzing, que é ateísta, mas tem medo de uma sociedade sem Deus porque se poderia perder a solidariedade, e que o socialismo não é mais do que um Cristianismo secularizado. (...) A Direita, mesmo não conhecendo muito bem o Cristianismo (...) canta, no tempo do Advento, cânticos natalícios a plenos pulmões

Manfred LutzEscândalo dos escândalosA história secreta do cristianismoPaulus, 2019, p.10. 

Da necessidade de «traduções salvíficas»


Jurgen Habermas, conhecido filósofo alemão, que se considerou a si mesmo como «um religioso desarmonioso», exige, por isso, com palavras dramáticas, pelo menos «traduções salvíficas» da terminologia judaico-cristã da imagem e semelhança do Homem com Deus. Só assim, acredita Habermas, se pode assegurar a aceitação geral do conceito de dignidade humana, que é o conceito central da nossa organização social. Além do mais, Habermas deseja que os cristãos sejam percebidos no discurso público como cidadãos religiosos. Contudo, este desejo devoto de um agnóstico choca os cristãos, que tendem a viver a sua fé de forma mais reservada e em privado. 

Manfred Lutz, Escândalo dos escândalos. A história secreta do cristianismo, Paulus, 2019, p.11.