quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Mais Rahner, menos Portela


O sorriso, que pelo menos a mim não raro me parece melífluo, acompanha toda a exposição. Durante a mesma, surgem gargalhadas, há gestos de fastio noutros lados, um interesse genuíno em boa parte da audiência. Talvez, seja como for, o palestrante tenha o consabido mérito de não deixar ninguém indiferente. Um conhecido, apressa-se a dada altura, a perguntar-me: "quem é este?!".
"Este" é Luís Portela, que veio às Jornadas de Educação, mais de 500 professores presentes, falar de um tema que dera, já, título a um seu livro: "Da Ciência ao Amor".
Portela perguntara, em sendo possível a intuição, se não tínhamos responsabilidade por levarmos com um tijolo em cima, provindo de um andar 4 metros acima de nós, no momento em que íamos a passar; se o exemplo dera, a muitos, para rir, ele insistia: sempre que há um grande acidente de avião, escutamos, incessantemente, alguém que nos diz "eu estava mesmo para embarcar, mas...". 
O "mas" é curioso se significar que era possível saber, à partida, intuir, perscrutar um acidente que adviria daquela viagem. Julgo que em muitas viagens, que infelizmente terminam em trágico desastre, não apareceu ninguém a reivindicar que era para ter ido e não foi; e, mesmo quando tal sucede, não raro tratou-se de um mero acaso e de nenhuma iluminação (individual). Mas mais: se seria possível antecipar, saber (de algum modo) o que viria a verificar-se (depois), seria, uma vez mais, caso, para questionar a "historicidade" do vivido, a liberdade (versus o fatalismo, o inevitável, o já escrito, o destino incontornável). Estaremos num simulacro? Seremos apenas pequenas criaturas nas mãos de deuses que se deleitam a brincar connosco? 
Apesar de múltiplos professores de Filosofia na sala, nenhum entendeu que se justificam perguntas do género. Preferiram, antes, dar vazão a um outro tipo de inquietação que lhes vai no peito, durante meia hora...aquietada. É o fenómeno cultural/sociológico mais interessante de observar naquela tarde.
Vejamos: Luís Portela começa a sua conferência com a consideração de estudos sobre estados pós-mortem e pelo modo como muitas pessoas - que por aquele passaram - os descrevem. Por exemplo, o encontro com o Todo. Substitua-se "Todo" por "Deus" e aflora-se/insinua-se, senão uma prova, pelo menos algum indício, sugestão que haverá algo de científico que nos leva até Ele. Do lugar onde me situo, interrogo-me se, em momento algum, esta é uma forma densa de me levar a Deus; se a ideia de uma "outra vida" se joga nestas imagens cerebrais, em arquétipos culturais que, no entender de não poucos, tornam as descrições pós-mortem mais ou menos óbvias. Vamos encontrar "Deus" nalguma ressonância em laboratório? É esse lugar apto a encontrá-Lo?
Luís Portela fala na qualidade de investigador científico, e a capa de cientificidade confere um carácter "mais verdadeiro" a afirmações que nada têm de cientificas: "a vida é uma escola em que vamos melhorando" até ao aperfeiçoamento - suponho que total. Nenhuma contradição há entre um orador ir propondo a existência de vidas sucessivas (reencarnações) e a rejeição de inscrição em qualquer religião; basta, por exemplo, que eu considere o budismo uma filosofia (e não uma religião), para que considere a não contradição. 
Que nenhum professor de Filosofia presente se inquiete com a epistemologia - que linguagem é própria para dizer "Deus"? Que método para O procurar? Será que Deus é "provável"? A afirmação da "vida como escola" (sucessiva) tem carácter científico? - se verá, ainda, uma vez mais, adiante. 
"Sim, sim, senhor professor, estou totalmente de acordo consigo: estamos aqui apenas de passagem"(sic), "Como o senhor professor disse, o dinheiro não é o mais importante da vida"(sic): as reacções, que cito à letra, de professores, na plateia foi, a meu ver, muito interessante, deste ponto de vista: embora no final da exposição de Luís Portela - que dali a nada estava, já se imaginava, a falar de Jesus e, não podia faltar, do ouro e prata de altares e dos seus seguidores que não lhe fazem jus - vários docentes tenham abandonado a sala, em realidade a esmagadora maioria ficou. A primeira pergunta surgiu ao fim de um certo tempo de espera. Quase de modo envergonhado. Mas, a partir de aí, houve quase como que uma descompressão, um à vontade, uma sensação de alívio. As pessoas estavam, finalmente, "autorizadas", por alguém do mundo da "ciência", a poderem falar de realidades que, de facto, por muito que se pretenda negar, as importam e implicam de que maneira. De modo lato, dir-se-iam as questões "espirituais". À laia de um discurso mais asséptico, uma diretora fala em "inteligência emocional" - o medo a certas palavras é um poema -, expressão e conceito completamente estranho, no entanto, à conferência que se tinha acabado de escutar. Dá um lado aparente moderno, mas o melhor que tal docente perguntou prende-se com as técnicas de meditação: "olhe que eu vejo muita gente a praticar yoga mas no intuito de se melhorar a si, e não para ajudar os outros". Pois é: falta saber se o Projecto Educativo que superintende promove o yoga, as melhores práticas do mesmo e se não incompatível com a oferta curricular de outras disciplinas que visam não uma fuga mundi que proporcione um qualquer melhoramento pessoal, mas ao invés, a promoção dos últimos, o salgar do mundo. E se os pais fazem alguma ideia de que estes problemas se colocam num projecto educacional a levarem a sério.
As "religiões" são vistas, por muitos, como "obsoletas", com as quais não se pode aprender ou conhecer, a sério, o que quer que seja; mas vejamos: a tradição cristã, por exemplo, está connosco, lida com o humano, há dois mil anos. Tem lídimos cultores, pessoas que compreendem a natureza e condição humana de modo ímpar, lendo-a, de modo penetrante, à luz do confronto com essa lente (cristã) que trazem consigo. A sua verve é profunda, foi até ao fundo do poço. Seja como for, na apropriação dos tempos por largos sectores, trata-se de gente , esta de que falo (cultores de uma busca do essencial no humano, à luz de uma mundividência cristã), com uma "capacidade diminuída".
Mas chega o guru, com capa científica, afirma que "pensar positivo leva a que consigamos coisas positivas" (ciência?), auto-ajuda de superfície e, sim, temos a autorização necessária para levarmos a sério uma dimensão (espiritual) que, upa upa, está presente em nós.
Só que - e o diabo está nos detalhes - o que é transmitido durante a palestra, também não cai numa tábula rasa. A apropriação - mesmo que, por exemplo, do budismo - encontra uma formulação catequética cristã-católica (suma ironia) de que as pessoas não se afastaram ("estamos aqui de passagem", "o dinheiro não é o mais importante"). A tradição que eles viam como menor era-lhes, pensavam estas, confirmada (pelas palavras do orador cientista). O que, uma vez mais ironia das coisas, lhes agradava de sobremaneira (percebia-se pelo que afirmavam). 
Uma teologia séria, conceitos densos, prosseguida laboriosamente, anos a fio, para nos dizer o indizível, pura e simplesmente não tem leitores; uma espiritualidade, com amplo significado antropológico, à luz de uma mundividência cristã, tem alguns leitores, mas é olhada de soslaio por alguns que se crêem intelligentsia; mas uma sopa turva - que confunde asserções de interpretação sobre a vida e o mundo (chamar-lhe filosóficas seria de mais) com ciência - e embarcar no pensamento positivo que traz mais positivo, ah, isso sim.
Um mundo com mais Portela do que Rahner julga-se emancipado, mas mostra-se profundamente infantil.

Conversas ao fim da tarde




A propósito de ideias e modos formatados de as expôr, diálogo recente, à Gulbenkian, entre Álvaro Laborinho Lúcio, no papel de conferencista, e a menina que o acolhe, na tarde marcada, naquela instituição:
- É o dr.Laborinho Lúcio?
- Sou.
- Vai fazer a conferência?
- Sim.
- E traz powerpoint?
- Só power

Juntam-se, em São Martinho de Anta, no Espaço Miguel Torga, fim de tarde do segundo Sábado de Setembro (14-09-2019), Fernando Alves e Laborinho Lúcio. Perante mais de três dezenas de ouvintes, prolongam o diálogo por duas horas, na mais longa sessão do género, já sem lugar ou hipótese de participação do público, naquele lugar. Principiam por eloquentes declarações de admiração mútua, com o magistrado jubilado a referenciar o espaço radiofónico do decano da rádio como o momento mais inteligente e estimulante que chega daquelas ondas. 

Como habitualmente, a conversa tem uma forte dimensão biográfica - "nunca as mulheres da Nazaré usaram sete saias, isso é um mito"; o que sucede com o número de saias tem que ver com o estatuto social de cada mulher: "a mulher do bacalhoeiro usava 14 saias" -, no caso concreto surgindo um retrato da Nazaré natal pobre - "a minha mãe alugava escadote de madeira", o jornal vendia-se ao peso - e solidária (o homem com pneumonia que sai da cama para se lançar ao mar, de modo a evitar mortes demasiado frequentes, porque as ondas de McNamara eram também as que não raro levavam pescadores, e hoje falta fazer este continuum, esta ligação presente-passado, para se compreender um contexto social-cultural). A mãe de Laborinho Lúcio era doméstica, o pai funcionário dos CTT. O menino era filho único, neto único, sobrinho único, o que "podia transformar-me em um bocadinho pior do que sou". 
Infância na sequência da II Guerra Mundial, na memória resquícios do racionamento da comida. No talho, humor involuntário, no elencar das rações "Lista de porcos: Dr.Carvacho, Fernando Manuel...".
Marcante, por aquele tempo, o filme "Nazaré", de um claro neo-realismo, onde a imensa pobreza era mostrada, o risco de vida no mar, e isto por clara oposição à Nazaré folclórica do Estado Novo. O filme, no qual participou, por exemplo, um Artur Semedo, não foi propriamente muito bem acolhido, inicialmente, na terra retratada, um lugar onde o Carnaval era data determinante e as pessoas empenhavam tudo o que tinham para nele participarem. Na Nazaré "morrer no Sábado gordo é inconstitucional", gracejou Laborinho Lúcio, recordando o romanesco caso de uma família que guardou na salgadeira a sua defunta, participou nas atividades de Carnaval e, então, sim, na quarta-feira seguinte, enterrou, e chorou a bom chorar, aquela que deixara o mundo dos vivos. 
Laborinho Lúcio recordou, no diálogo fluente, inteligente e espirituoso que prosseguiu, o convite de Jorge Sampaio, à época PR, para Ministro da República nos Açores:
- Tem alguma experiência de Regiões Autónomas?
- Então, não tenho? Nasci na Nazaré...
Confessou como teria gostado de ser Provedor de Justiça, entendia que para isso estava fadado, quis sempre ir para Justiça mais do que para Direito, ou este como via daquela, e entendia que podia multiplicar projectos de cidadania - como aliás, mesmo sem tal cargo, implicou nos Açores - tornando o país mais democrático, mais participado
Na qualidade de juiz, quis sempre encontrar um lado bom naquele que tinha cometido crimes e se encontrava à sua frente - não acredita num mal e num bem absolutos personificados nos que se lhe apresentam e crê que a recuperação/reinserção principia ali, quando, apesar do mal, apesar de actos em si mesmo graves, censuráveis, criminosos, encontra boas pessoas. A pessoa, antes e para lá, de actos (momentâneos) que praticou (e pelos quais é responsável). Fica claro, para Laborinho Lúcio, que o juiz é muito mais do que a boca que pronuncia as palavras da lei e que executa um silogismo. De resto, atira: "detesto a objectividade". Só o obejcto é objectivo. É necessário perceber o como, o porquê, a complexidade - a subjectividade - de alguém para conhecer e chegar a uma sentença. 

sábado, 14 de setembro de 2019

Anomia


Numa outra das entradas mais memoráveis deste diário, Joel Neto responde à pergunta que certamente lhe é feita com frequência: como lida com o mexerico de um meio pequeno. A resposta é antológica: "se a escolha for mesmo entre a exposição ao mexerico e a solidão do anonimato, então continuo a preferir arriscar que bisbilhotem sobre mim, mas não deixem de saber quem sou e de ir ao meu velório".  

Onésimo Teotónio Almeida, Joel NetoA idílica prosa do Diário, JL, nº1277, de 11 a 24 de Setembro de 2019, p.30.

Testemunhos de portismo


As minhas memórias confundem-se com as do clube. Desde muito miúdo, ia com um vizinho ver os jogos. E aquilo é contagiante. Hoje, vou ao futebol com os meus filhos, que também são sócios. (...) O futebol é muito básico e todos temos um lado que gosta do preto e branco. No estádio, defendo sempre o Porto, mesmo que não tenha razão, algo que não admito noutras situações. Sou um adepto igual a qualquer outro. A felicidade é total, a tristeza é total (Pedro Burmester, à Visão, nº1384, 12-09 a 18-09-2019, p.91).

Sou da cidade do Porto e do Futebol Clube do Porto. Escrevi um livro sobre o Boavista, é verdade, mas sou adepto, quase que posso dizer fanático, do FCPorto. Tenho lugar anual na bancada dos SuperDragões, vou ver todos os jogos do Porto, falto a compromissos importantes para ir ver um jogo do Porto...Já deixei um ministro da Cultura a apresentar um livro meu para ir ver um jogo da Liga dos Campeões. [O museu do FCP] é um museu extremamente interessante, que conta a história do clube de uma maneira muito eficaz, e, inclusivamente, nós temos estagiários do nosso curso de gestão do património colocados no museu (Amândio Jorge Morais Barros, História - Jornal de Notícias, nº21, Agosto de 2019, p.71).

Reino unido?


Discutimos muito mais do que a saída do Reino Unido da União Europeia. Discutimos, desde logo, a própria união do reino na medida em que, por esta altura, a todos parecerá evidente que pelo menos a questão de um segundo referendo sobre a independência da Escócia ficará, muito rapidamente, colocada em cima da mesa (a primeira-ministra Nicola Sturgeon não faz, aliás, grande segredo do que lhe vai na alma sobre o assunto). Mas as ondas de choque chegarão provavelmente também às Irlandas, onde, como era previsível, já se levantaram vozes a defender a unificação.

Pedro Norton, O vírus do iliberalismo na pátria do liberalismo, Visão nº1384, de 12 a 18-09-2019, p.80.

Desperdício de votos


O modelo eleitoral português é pródigo em desperdiçar votos. (...) Em 2015, por exemplo, cerca de 762 mil votos (14,65% do total) não elegeram um único parlamentar. (...) As fragilidades e insuficiências do sistema aplicado em Portugal e que foi criado por um jurista, Victor d'Hondt, há 150 anos estão documentadas. Mas a vontade - ou a forma - de mudar a lei não colhe consenso. (...) [Há 4 anos] PS e PSD tiveram quase 208 mil votos deitados fora, porém é nos partidos com menor representação parlamentar que esse fenómeno tem mais impacto
[Em Lisboa, 1,7% dos votos dão direito a um deputado; em Vila Real, são necessários 8,9% dos votos; em Bragança, 11,2% e em Portalegre, 13,2%]

Pedro Raínho, Maioria. Falta-lhe um bocadinho assim?, Visão nº1384, de 12-09 a 18-09-2019, pp.76-80.