sábado, 23 de setembro de 2017

Escolhas totais (em "A peste", de Camus) (III)


É verdade que a jeremiada com que o padre Paneloux começa por tratar, no primeiro sermão, a epidemia que se abateu, em Abril de 1940, sobre Orão, recorda, em muito, o Padre Malagrida do Terramoto de 1755 (ou os pastores evangélicos do início do século XXI, face ao furacão Katrina). Os céus rebentariam de ira divina como resultado da devassidão humana. Um deus retributivo mostraria, assim, a sua face mais colérica e o humano arrostaria com as consequências de ter criado Sodoma e Gomorra. E, no entanto, Paneloux junta-se à equipa sanitária voluntária que acompanha hora a hora os doentes da epidemia, nunca deserta, é, claramente, um homem de bem que sofre a bom sofrer com o sofrimento da criança que cai nas malhas da peste, passando (esta) horrores até à morte (mesma). Suplica e suplica. Rieux, o médico, não pode, num raro acesso de fúria, evitar um escárnio sobre a teodiceia: "Ah! Aquele [a criança], ao menos, estava inocente e o senhor bem o sabe!" (p.186) [pelo menos, a criança estava inocente e não foi por fazer o mal, portanto, que teve como paga o sofrimento atroz por que passou, até perder a própria vida]. E, radicalmente, o clínico rejeita a criação - uma criação na qual uma criança é torturada ("E hei-de recusar até à morte esta criação em que crianças são torturadas", p.187; "A dor inflingida a estes inocentes nunca deixara de lhes parecer o que era na verdade, um escândalo", pp.183-184). A indignação/revolta contra o mal como habitada pela própria presença do bem, como único modo de presença do Bem (com maiúsculas); Deus presente na pergunta pelo mal que não é naturalizado, nem tratado com indiferença, como diria João M. Duque. O padre Paneloux responde a Rieux: "Ah, doutor - exclamou ele com tristeza -, acabo de compreender aquilo a que se chama graça!" (p.187).
Não apenas a desconstrução de uma dada ideia de Deus - como vingativo; "eu tenho outra ideia de amor", atira Rieux, p.187 - se faz por aqui, como, adicionalmente, as observações do médico - "os cristãos falam por vezes assim sem que realmente o pensem. São melhores do que parecem" (p.111); "fico satisfeito por o saber melhor do que o seu sermão"(p.132), alertam para as palavras ditas mecanicamente sem nelas se advertir com caridade, o problema da pura retórica ou superioridade moral (o texto esclarece que Paneleux, no segundo sermão já falou, não na segunda pessoa do plural, mas na primeira; já não foi o "vós, pecadores impenitentes..."), como, ainda, nos termos hodiernos do Papa Francisco, o problema da realidade ser superior à ideia: "Paneloux é um estudioso. Não viu morrer bastante e é por isso que fala em nome de uma verdade. Mas o mais modesto padre de aldeia, que administra os seus paroquianos e que ouviu a respiração de um moribundo, pensa como eu. Esse acudiria à miséria antes de querer demonstrar-lhe a excelência" (p.112). 
As falhas que se possam assinalar a Paneloux não obstam a que a aposta, a escolha de fundo, total, sem mas, por parte deste, sejam a da inteligência mais profunda e fecunda: se Rieux recusa a criação por nela haver crianças inocentes a sofrer, Paneloux considera que justamente, neste umbral definitivo, a confiança absoluta no Cristo que na cruz se junta a todas as vítimas inocentes e anónimas da história se torna, sem matizes nem meias tintas, a entrega total e imperativa a fazer; ter fé será essa queda (sem tibiezas, e no "crer tudo" da homilia do segundo sermão se encontrará, evidentemente, a fortiori, a ressurreição; nunca haverá nenhuma justiça final, uma vez mais a vexata quaestio, para as vítimas inocentes da História se a ressurreição não é a realidade última): "Pois, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante na Terra do que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento arrasta com ele, e as razões que é preciso encontrar-lhe. No resto da vida, Deus facilitava tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele punha-nos entre a espada e a parede. Nós estávamos, assim, sob as muralhas da peste e era à sua sombra mortal que nos era necessário encontrar o nosso benefício. O padre Paneleux recusava até as oportunidades que permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podia compensar o seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Com efeito, quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor na Sua carne e na Sua alma. Não, o padre ficaria ao pé da muralha, fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o símbolo, frente a frente com o sofrimento de uma criança. E diria sem temor, aos que o escutavam nesse dia: «Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem, de entre vós, ousaria negar tudo? (...) Era tudo ou nada" (p.192-193). Quando, neste contexto, o padre Paneloux falava da "aceitação total" (p.193), não remetia para uma "banal resignação", "nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação (...) Só assim o cristão a nada se pouparia e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial" (p.193).
No seu penúltimo livro, Teoria da Fronteira, José Tolentino Mendonça exortava a prática dos exercícios espirituais e neles o concretizar da exclusão das meias medidas para agarra a vida, por fim, pelos colarinhos: "arriscando em vez dos tropeços habituais/a queda infinita" (p.75). E, no seu recentíssimo O pequeno caminho das grandes perguntas, retoma: "é necessário decidir entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la permanentemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos" (p.14). Ou, dito ainda de outro modo, "a fé contemplada no Evangelho é, sobretudo, uma arte do risco. Crer é arriscar crer, como amar é arriscar amar" (p.35).

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A única viagem é a viagem interior


De que te serve o Louvre ou a Tate Gallery, o troféu exibido, os grandes nomes, se não te demoraste num quadro, se não te dilataste, se não repousaste horas nele, se não contemplaste, se nenhuma fímbria, ou corda interior, foi tocada, se não chegaste mais perto do essencial de ti? De que servem os clássicos citados sem serem conhecidos (?), já deixava, em implícita interrogação, o Lipovetsky de A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. 
Um ideal de férias, podia ser este, o da viagem interior, a única, ou, pelo menos, a grande viagem - ainda que a viagem interior, é certo, possa coexistir com a exterior viagem física. Não por acaso, nos sublinhados do novo livro de José Tolentino de Mendonça, hoje lançado, começo por aqui, no que há de identificação com o geral sentido que se retira do passo em questão:


A imensidão que não se pode perder

Pode a muitos parecer um enigma a forma como Emily Dickinson construiu o seu itinerário poético. Ela viveu praticamente numa reclusão voluntária, subtraída a uma previsível vida de contactos e públicas relações. Transformou a casa paterna, em Massachussets, na sua fortaleza, onde podia inventar-se e reinventar-se livremente, segundo os seus próprios códigos de linguagem. O pequeno mundo doméstico tornou-se para ela um continente, um planeta brilhante, uma galáxia ou o inteiro universo. Isto é tanto mais curioso quanto na sua poesia transparece frequentemente o desejo de viagem. E o lema que adoptou é este: «A imensidão não se pode perder», referindo, à maneira de um peregrino da inquietação, uma sucessão incansável de lugares aonde nunca foi - Paris, Nápoles, Veneza, a Suiça, Frankfurt e o Reno.
Emily Dickinson era sobretudo uma viajante imóvel no que dizia respeito ao mundo exterior. Pode dizer-se que procurou incessantemente a porta da alma, como todos aqueles que fazem da vida interior o centro da própria obra. Os seus versos continuam, por isso, a representar sobretudo um desafio ao recentramento. E eles dizem-nos: «Debaixo! Explora-te a ti mesmo!/ Pois dentro de ti encontrarás/O continente desconhecido».

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, Lisboa, 2017, p.15

Escolhas totais (em "A peste", de Camus) (II)


Apesar de, sem dúvida, a certa altura e questionado sobre o tema, - "Acredita em Deus, doutor?
A pergunta fora ainda feita naturalmente. Mas desta vez Rieux hesitou.
- Não, mas que quer isso dizer? Estou nas trevas e tento ver claro. Há muito que deixei de achar isto original" (p.112)" - se confessar ateu, num outro passo o médico dr.Rieux diz que ou bem que se dedicava a tratar vidas (a salvar pessoas), ou bem que se dedicava a saber (no fundo, a investigar as "questões últimas"). Uma espécie de reconhecimento agnóstico (talvez, já, mesmo, entrevisto, implicitamente, na resposta anterior - "mas que quer isso dizer?"), mas não sem uma certa admiração pelo comportamento próprio: "- Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber porquê - deixou-se cair de novo sobre a almofada. - É um facto, aí está. Registemo-lo e aceitemos as suas consequências.
- Que consequências? - perguntou Rambert.
- Ah! - disse Rieux. - Não se pode ao mesmo tempo, curar e saber. Curemos, pois, o mais depressa possível. É o mais urgente" (p.179).
Um período (textual) que me fez lembrar, muito e duplamente, o Cardeal Carlo Maria Martini: se, aqui, Rieux manifesta uma certa estupefacção pelo seu próprio cumprimento do dever (uma espécie de obediência às "leis eternas" de que falava Antígona), o homem de Igreja perguntava a Umberto Eco (Em que crê quem não crê?): há muitos "crentes" que têm um comportamento péssimo, "não crentes" que têm um comportamento exemplar, mas em que fundamenta você a obrigação de dar a vida pelo outro, sem conhecer um Deus pessoal? (ao que Eco respondeu que queria ficar sempre com o exemplo de Jesus, porque só o facto de a humanidade se ter proposto o Cristo como modelo significava que esta espécie bárbara e terrível, estava, com tal gesto/desejo, redimida). E, num livro de perguntas colocadas pelos jovens: [qual o sentido da vida?] Estive demasiado ocupado a trabalhar [no seu múnus, a ajudar os outros, a curar, a salvar] para poder dedicar-me à questão.

P.S.: Rieux realmente afasta-se do que/de quem ama, na medida em que a mulher tinha saído de Orão em tratamento e, entretanto, com a peste a isolar a cidade, o médico e esposa estavam, também, separados. A questão da obrigação de dar a vida também se coloca neste romance, porque, em realidade, ao tratar aqueles que padeciam da peste contagiosa, o médico esteve sempre a arriscar (-se pelos outros).

Escolhas totais (em "A peste", de Camus)


Uma das mais interessantes questões/dilemas colocados pelo extraordinário A peste, de Albert Camus (reeditado, recentemente, pela Livros do Brasil, com tradução de Ersílio Cardoso), é-nos apresentada através de Rambert, o jornalista que aportara a Orão e que se vira, depois, apanhado na prisão que a cidade passou a constituir a partir do momento em que a epidemia tomou conta da urbe e esta foi encerrada (para que não viessem a ocorrer contaminações extra-muros). Tendo deixado mulher, o amor da vida, fora daquelas muralhas; não sendo um natural de Orão e não estando por ali há demasiado tempo, a vontade, manifestada por Rambert, de fugir, a convicção de se evadir dali, mais do que presente, fosse necessário envidar os meios que fosse (uma saída clandestina e ilegal). Conquanto os preparativos se demorassem por semanas e as tentativas de encontrar cúmplices - desde logo, uma declaração que o médico dr.Rieux não passou por escrúpulo profissional - prolongasse a estadia, o certo é que, amadurecida e finalizada, a decisão não foi pela "felicidade", pelo "egoísmo do amor" (espantoso paradoxo formulado por Camus, na medida em que o amor é saída de si para o outro, mas neste caso, a recusa dos demais para se concentrar no amor de uma vida poderia ser interpretado à guisa de egoísmo), mas pela solidariedade com uma comunidade. Ou, se se preferir, não se é feliz, segundo Rambert, vendo todos os outros infelizes: "Rambert disse que tinha reflectido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas, se partisse, teria vergonha. Isso perturbaria o seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e declarou, com uma voz firme, que aquilo era estúpido e que não era vergonha preferir a felicidade.
- Sim - disse Rambert -, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.
Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que se Rambert queria compartilhar a desgraça dos homens, nunca mais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.
- Não é isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver convosco. Mas agora, que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira quer não. A história diz respeito a todos nós. - Ninguém respondeu e Rambert pareceu impacientar-se. - Os senhores sabem-no bem, aliás. Quando não, que fariam neste hospital? Acaso fizeram a vossa escolha e renunciaram à felicidade?" (p.179)
Na sabedoria do dr.Rieux, o dilema - que o binómio felicidade vs solidariedade talvez coloque, no caso, de modo demasiado simplista - começa por ser tratado a uma luz deontológica: não aceita passar um atestado médico para que Rambert pudesse sair de modo lícito de Orão. Mas toda a sua atitude está isenta de soberba, de moralismo, de lições: ele é informado por Rambert dos preparativos deste para a fuga, compreende-os, aceita-os, convive com o jornalista e parece-lhe perfeitamente natural, ou muito compreensível do ponto de vista humano, a "opção pela felicidade" (chegando, nesse esforço de empatia pela posição do outro, por repreendê-lo por não seguir esse caminho: "aquilo era estúpido e não era vergonha preferir a felicidade"). Confrontados com uma situação de uma epidemia (uma guerra, um avanço totalitário), e, ademais, com a família, e o amor maior de uma vida, longe, seria, ou não, legítimo evadir-nos? Ir em busca do amor (que também sofre por nós) seria, propriamente, e apenas, "egoísmo"? Aqui, a fórmula é notável na sua ambiguidade e complexidade: "o egoísmo do amor". Em todo o caso, poderíamos pensar que a irmandade na desgraça seria uma opção mais elevada, uma resposta maior. Mas sem atirarmos pedras, ou julgarmos (severamente) quem assim não decidisse. O ponto, talvez, ainda possa ser outro: quem é, quem compõe o "demos"? E a resposta seria: aqueles que compartilham "a desgraça dos homens" da cidade (mesmo que aparentemente estrangeiros). Peguy perguntava o que Deus nos dirá se chegarmos ao Paraíso sem os outros (?) - ninguém se salva sem os outros serem salvos. E este apelo de partilhar a história, e o discernimento de que um prazer que não pode ser partilhado não é um prazer, pareceram sobrelevar em Rambert.

A Alemanha que vai a votos (II)


Ontem, no Linha da Frente, na RTP1, o outro lado da Alemanha. O reverso da medalha, uma reportagem de António Louçã, com narração de António Esteves.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Eleições locais


1.Não sei se hei-de rir, ou chorar, ao ver o vídeo, com comunicado em português de quinta categoria, de um presidente de uma Associação Académica, ladeado por colegas de pé e em pose fúnebre. Depois de anos a fio sem uma palavra para com o país, nenhum protesto ou manifestação, qualquer forma de solidariedade quando milhões sofreram a bom sofrer medidas e medidas que a tantos desesperaram, sendo tais estudantes universitários, como alguém escreveu, "os grandes ausentes" - como nem em ditadura tinha sucedido neste país -, aparecem agora, por causa de umas "barraquinhas", em "marcha silenciosa" (!) pela cidade. Eles não entendem o ridículo, nem ninguém lhes explica - mas, mais do que isso, as suas acções e omissões e seu significado ético. Se lessem Tony Judt tinham percebido como quando estudantes, mesmo os que se consideravam "radicais", como ele escreveu, no pós-1960, se preocupavam mais com "as horas do fecho dos portões das universidades do que com as práticas laborais fabris" (p.94, Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos), quando o umbigo prevaleceu sobre uma visão sobre o "bem comum" da sociedade, em que cada grupo apenas quer saber de si (ou da sua identidade), então a sociedade caminhou para a "fragmentação", "o relativismo ético" prevaleceu e o sucesso de um modelo de Estado Providência pelo qual lutaram os ascendentes ficava em causa pela "privatização" de tudo e o "individualismo" da descendência.
Não me admirou, ainda, ver políticos formados na mesmíssima escola quererem cavalgar uma onda, incapazes, naturalmente, de contrariarem esse eleitorado potencial, procurando, inversamente, como lhes competia, formar e apresentar uma plataforma política que fosse capaz de reivindicar o cimento social onde ficaram os resíduos de reclamações vãs, pequeninas, tão parciais.

2.Olho para programas eleitorais e constato esquizofrenias políticas: de dois em dois anos, alternam entre o reclamar, a nível local, apoios sociais universais (nem sequer tendencialmente, que é para não haver dúvidas) e, ao nível central, a denúncia de um Estado Social que "prende", "aniquila", "desresponsabiliza" do nascimento à cova. Em que ficamos? Obras públicas são muito más, num ano, mas, passados dois, pede-se infra-estruturas que ultrapassam o delírio. Nada disto perturba os espíritos: nem de quem formula tais propostas e por elas se apresenta, nem de um eleitorado que não está para tais complicações.

3.Mudar horários na mobilidade (pública) urbana, tornando-os mais exíguos, mais espaçados, oferecendo piores condições a uma população que muito havia ganho com essa oferta é errado e seria um tiro no pé se houvesse quem estivesse preocupado com outras coisas que não as "barraquinhas", ou, mais propriamente, as "barracadas". De que vale estar-se ufano por se aligeirar, um pouco, a factura com a mobilidade se o preço para os cidadãos é terem, no fundo, um pior, claramente pior, serviço? Isto impede alguém de reivindicar o campeonato da defesa dos serviços sociais, ou o representante da respectiva junta de prosseguir com os bombos, como se nada fosse?