A incerteza, quase gritante, que rege o nosso tempo, e se coloca ao nosso futuro, faz com que, não apenas o nosso conhecimento - naufragando num oceano de dados, informação, ruído contínuos e incessantes -, mas também a nossa vontade fiquem debilitados, entorpecidos e, mesmo, se demitam. Sob duas formas políticas se dá essa demissão da vontade (política), regista Innerarity: a da (ideia de) adaptação ao que quer que seja que aí está/esteja (a adaptação como primado da direita) ou a contestação ou renúncia a tudo que se nos apresenta (a oposição como mandamento da esquerda). O exemplo dado pelo filósofo político é o da globalização: a perspectiva, de um lado, de que há que nos adaptarmos a como a globalização se dá, hoje por hoje; o posicionamento, por outro, de recusa de qualquer tipo de globalização (antes, mesmo, de verificar que oportunidades/vantagens dela podem advir e de como a conformar no melhor sentido).
Há, neste momento histórico em que nos encontramos, outras consequências advindas da perplexidade para com o mundo em que vivemos: emoções confusas, sentimentos que vogam sem uma âncora institucional segura, ausência, para muitos, de um marco que fosse hoje indisputável (quando é tão indispensável), alguém em quem confiar, uma bússola de orientação.
Em diferentes páginas de Política para perplexos, identifico uma comunhão de diagnóstico, por parte de Daniel Innerarity com Gilles Lipovetsky, a este respeito. Ou seja, se como o filósofo francês tem dito (recorde-se, por exemplo, esta entrevista), a uma fase histórica, em que o predomínio das instituições, das comunidades, tornava claro o sentido, o significado, o rumo, o caminho que a pessoa devia seguir, contudo coartando-lhe a liberdade, a absolutização do indivíduo, a sua "saída" de comunidades e instituições, colocou-o entregue a si mesmo, sem qualquer mapa, gerando níveis inéditos de stress e uma sociedade medicada a propósito e em sobredoses, já o filósofo basco assinala: "podemos também constatar que os nossos sentimentos vogam sem qualquer âncora institucional, dando lugar a sociedades exasperadas, ansiosas e irascíveis. Quando tudo se torna imprevisível, instável e suspeito surge a nostalgia das paixões tranquilas e levanta-se com especial inquietação o problema de saber em quem confiar, como recuperar alguma referência que nos permita orientar os nossos conhecimentos e emoções (...) que algumas certezas nos abandonaram é algo que podemos comprovar comparando as nossas previsões com aquilo que realmente aconteceu: ou se considerarmos a segurança de que gozaram muitas gerações e civilizações menos informadas do que a nossa, com uma tradição mais rígida que compensava a escassez da liberdade com uma orientação esmagadora. Quando alguém está bem equipado em matéria de certezas corre o risco de acabar no fanatismo; o risco maior de quem está perplexo é adaptar-se ao politicamente correcto e pouco mais"(pp.16 e 21).