sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Da ressurreição (VI)


12-      Outro ponto crucial, em nosso entender, face às leituras feitas a propósito deste trabalho prende-se com a apropriação linguística da ressurreição. Na obra de Olegário Gonzalez de Cardedal, Cristologia, começa por ser feita a pedagogia da boa hermenêutica dos Evangelhos (e sua natureza): “os textos foram lidos como história positiva, quando se trata de textos confessantes nos quais o que é dito e o dizer, a realidade enunciada e a pessoa enunciante, não são cindíveis[1]. Quer isto dizer, que não há ressurreição sem testemunhos e que só podemos aceder ao ressuscitado através do testemunho, importando, pois, proceder à interpretação do testemunho. Isto implica, da mesma maneira, compreender que “a fé não é produto, coisa ou fármaco que se toma de fora, exterior à pessoa, mas tem de nascer do livre exercitamento da vida[2].

Significa, pois, tal afirmação, que Cristo ressuscitado “não é cognoscível pela inteligência humana [actuando] só; a novidade da sua realidade glorificada excede a nossa capacidade perceptiva, porque pertence à ordem escatológica. A fé conaturaliza-nos para podermos pensar e sentir na mesma ordem em que Jesus existe. Deus deu a outros [a possibilidade de] ver a Jesus e continua a dar-nos a acreditar (…) Crer em Cristo é sempre fruto da revelação e da graça[3].

A fé que, diga-se, dará lugar a uma linguagem muito própria, não transponível para outros campos do saber, afirmará Cardedal. Um postulado que, como veremos, é susceptível de discussão.
A linguagem da ressurreição – glória ou glorificação, exaltação, vivificação, Jesus Kyrios, constituição em Filho de Deus, justificação – é performativa. Ora, e esta será uma perspectiva a reter como contraponto ao que a seguir aduziremos, “só no ‘jogo de linguagem’ que é a vida total da Igreja, têm pleno sentido tais expressões (…) Em outro ‘jogo de linguagem’ (científico, técnico, inclusivamente filosófico, pragmático) todas estas expressões teriam outro sentido. Não é que não fossem reais, mas careciam do âmbito de ressonância e acreditação [credibilidade] necessário para que elas mostrem a sua verdade e nós a descubramos[4].

Sem, necessariamente, aderir, nos seus exactos termos, a tal entendimento, verificamos que, hoje por hoje, a ideia de urgência de re-substancialização da linguagem, da sua tradução de modo que diga e toque o quotidiano do humano, no séc.XXI, está bem patente no seio da Igreja[5].



[1] Ibidem, p. 136.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem, p.147.
[4] Ibidem, p.141.
[5] Vide, no mais recente Sínodo dos bispos para a nova evangelização, quer no seu instrumentum laboris, quer nas suas conclusões finais, como estas preocupações se encontram elencadas. Cf., respectivamente, http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20120619_instrumentum-xiii_po.html, e http://www.vatican.va/news_services/press/sinodo/documents/bollettino_25_xiii-ordinaria-2012/04_spagnolo/b30_04.html, consultados a 11/11/12.

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