quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Do trabalho sobre a linguagem: poesia e filosofia


Pensar, diz Steiner, é, sempre, um ato linguístico. Esta é a premissa inicial do seu ensaio A Poesia do Pensamento. Do Helenismo a Celan, agora publicado em Portugal pela Relógio d’Água. Nele, cruzam-se múltiplas referências do universo literário, filosófico e artístico deste pensador, através das quais se desenham os contornos da relação problemática entre poesia e filosofia. Não se trata de delimitar um campo de combate onde se tenta decidir quem chega, ou fala, mais alto, conflito cujo desenlace obrigaria a optar entre o poeta ou o filósofo. Em vez disso, este ensaio, como tantas vezes Steiner o designa, é uma viagem através dos sucessivos encontros da filosofia com a poesia e sobre o modo como o trabalho dos filósofos e dos poetas foi desvendando não só novas regiões de sentido para a linguagem, mas, sobretudo, novas regiões da experiência humana. Mas mais do que o elenco desses encontros, este ensaio mostra que o trabalho sobre a linguagem constitui o núcleo central do esforço filosófico da compreensão, e do esforço poético da construção do sentido. A convicção que alimenta todas as suas páginas é a da origem comum das duas práticas e do contínuo regresso a esse solo como forma de fortalecer a energia que alimenta as respectivas construções.
Desta viagem intensa proposta por Steiner fazem parte (desde) o poema filosófico pré-socrático de Parménides até ao ditum de Wittgenstein de que toda a filosofia é um "poetar", passando pelos sucessivos encontros de Heidegger com os grandes génios da poesia alemã. Uma viagem de uma erudição rara, a lembrar os empreendimentos linguísticos monumentais das Humanidades europeias. Steiner constrói, assim, um ensaio que é uma quase-arqueologia, dado o modo como recupera regiões do pensamento já quase inacessíveis.
Steiner debate-se com o problema de apresentar a poesia como esforço de desocultação das experiências humanas mais primitivas e primeiras, aquelas a que a linguagem humana dificilmente chega e que ficam guardadas na região do indizível. É justamente o esforço para transformar esta indizibilidade em comunicação - isto é, tornar o que não pode ser dito numa experiência partilhável numa comunidade humana - que alimenta quer a filosofia, quer a poesia. A poesia surge, portanto, como possibilidade de dar um passo em direção ao momento da história do pensamento não sistematizado em que a intuição é matéria bruta. Por isso, Steiner concorda com Montaigne ao dizer que "a filosofia não é mais do que uma sofisticada poesia".
Pergunta Steiner: "Existirá uma poesia, uma música do pensamento, mais profunda do que aquela que se refere aos usos exteriores da linguagem, ao estilo?" (p.15) Que a filosofia tenha como condição a construção de um estilo mostra que ela se faz na e com a linguagem. É neste contexto que surgem as grandes ficções engendradas pelo pensamento filosófico-metafísico (p.18), ficções necessárias dado que o pensamento precisa de produzir imagens-símbolos para poder exercer-se. "A linguagem da filosofia, como qualquer leitor atento dos grandes filósofos já sabe, é portanto uma linguagem literária e não técnica. São as regras da literatura que prevalecem. Nesta perspectiva incontornável, a filosofia assemelha-se à poesia. É um poema do intelecto e representa o ponto em que a prosa se aproxima mais da poesia", escreve Steiner (p.25).
Esta faceta criativa do esforço filosófico mostra o pensamento não como uma espécie de espelho empenhado em reproduzir a realidade, mas como o momento de criação do homem, do mundo e da experiência. Portanto, tanto a filosofia como a poesia, que tem na língua natural o seu "meio inelutável" (p.25), são instrumentos de criação do humano na linguagem. Neste ponto, a ideia moderna de que os limites da linguagem são os limites do mundo mantém-se incontornável. Limites estes que são simultaneamente os limites da existência, porque como tão bem o pressentiu o poeta Stefan George "nenhum ser é possível onde falha a linguagem" (p.200). Este ensaio, diz Steiner, é "uma tentativa de escutar melhor" (p. 17) esse ser.
Essa escuta implica dar-se conta daquilo que na filosofia é estilo: "Tento esclarecer em que medida toda a filosofia é estilo. Deixando de parte a lógica formal, nenhuma proposição filosófica é dissociável dos seus meios e do seu contexto semânticos" (p.60). Por isso é que "O pensador rigoroso, o mestre da doxa, o lógico e celebrante das matemáticas coligam-se com o escritor inventivo e liricamente inspirado" (p. 61). Não se trata de tornar o filósofo num escritor, mas de mostrar o parentesco entre as atividades empreendidas por ambos e, sobretudo, que o drama da razão humana está sempre à espreita nas diferentes passagens e brechas das grandes construções sistemáticas dos pensadores. Pense-se em Aristóteles, Descartes, Kant ou Hegel, e no modo como a sua prosa pensativa e reflexiva espelha a tarefa de conduzir a linguagem ao limite da sua expressão e da sua inventividade. Dois casos marcantes, a que Steiner dedica muitas páginas do seu ensaio, são os de Wittgenstein e Heidegger. O primeiro devido ao seu ideal filosófico do Dichtung [poetar] e ao seu entendimento da filosofia como uma experiência do pensamento que utiliza o material mais comum, banal e "terra-a-terra", como diz Steiner, para refutar as epistemologias dominantes (p. 174). O segundo por ter construído um projeto filosófico que teve como grande ambição o reencontro do ser com a linguagem, projeto este em que foram essenciais as presenças de poetas como Hölderlin ou Celan (pp. 199-216).
Em A Poesia do Pensamento, Steiner não desconhece os paradoxos em que incorre e anuncia-os: “Há pensadores, nomeadamente ao estilo anglo-saxónico, que insistem na clareza, na comunicação directa. Há, por outro lado, aqueles - como Plotino, os idealistas alemães, e entre os quais se conta também Heidegger - que veem nos neologismos, nas densidades da sintaxe, na opacidade estilística, as condições necessárias de uma intuição original" (p. 98). Contudo, mesmo no caso em que a inventividade e a plasticidade da linguagem parece ser demitida em nome da clareza da comunicação universal, os filósofos veem-se a braços com os resíduos da mudez original que constitui o humano e da qual a linguagem não se consegue libertar. E ai, onde já nenhuma inteligibilidade parece possível, o pensamento torna-se poesia e a poesia pensamento.


Nuno Crespo, O ser falha onde a palavra não chega, Público. Ípsilon, 15/02/2013, p.32.

*****

Sem comentários:

Publicar um comentário