terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Por outro lado: uma forma de equacionar o dumping social e a encruzilhada da globalização


 
Todavia, para termos os produtos de que hoje dispomos a preços acessíveis seria impossível consegui-lo se as empresas que os produzem estivessem a pagar aos seus trabalhadores a preços ocidentais. Quando a Índia e a China pagarem a preços decentes, os preços vão encarecer a sério. Se o capitalismo não tivesse essa mina imensa que é a Ásia de hoje, disposta a trabalhar freneticamente por pouco, haveríamos então de ver como se conseguiria resolver o problema da justiça social relativamente aos trabalhadores e manter no mercado produtos a preços acessíveis a todos.
Não estou a justificar, apenas a tentar apontar a movimentação do capital seguindo a sua lógica de sempre. O capital é apátrida, e hoje cada vez mais. Não há Estado que consiga controlá-lo, a não ser a China, ao que parece, mas nós não estamos dispostos a ceder ao Estado os nossos direitos civis, como fazem os chineses. Quer dizer, portanto, que estamos num imbróglio dos diabos, e ninguém no Ocidente tem poder para impedir o capital de se aproveitar da disponibilidade da China e da Índia para se sujeitarem a este estado de coisas. Só se disséssemos todos: não compramos nem mais um produto vosso, porque vocês estão a conseguir esses preços à custa de suor e sangue dos vossos cidadãos. Acha que no Ocidente vai haver muita gente disposta a um gesto destes? E quantos não diriam sim, apoiariam a ideia, mas depois iriam pela calada comprar barato no mercado negro? Não estou a ver uma saída no horizonte. A entrada dos biliões de chineses e indianos dispostos a aceitar o que os seus Estados lhe impõem é algo que nos transcende completamente, na medida em que a China e a Índia consideram problemas internos e há biliões de chineses e indianos que estão dispostos a muitos sacrifícios, porque mesmo assim estão a melhorar muito a sua qualidade de vida, se comparada com a que tiveram até aqui e a que tiveram os seus pais. É quase um paradoxo, eu sei. E é também, no mínimo, um quebra-cabeças de dimensão colossal e nunca vista na história da humanidade.


Onésimo Teotónio Almeida, Utopias em dói menor, p.258-259.

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