terça-feira, 17 de setembro de 2013

Albert Jacquard



Albert JACQUARD, E Deus nisto tudo?, in A Equação do Nenúfar. Os prazeres da Ciência, Terramar Lisboa 1998, 143-148.

 

Atribuímos ao jornalista Jacques Chancel, especialista na condução de entrevistas com as mais diversas personalidades, a mania de pôr sistematicamente a questão «E Deus nisto tudo?» Os alunos com quem me encontro acabam sempre, quando a confiança se estabelece entre nós, quando a personagem do cientista se esconde atrás da  personagem do avô, por formular, noutros termos, a mesma interrogação. Durante muito tempo, preferi evitar a questão, achando que o meu papel não era intervir num domínio pessoal que as famílias delimitam segundo as suas próprias convicções.
Reflectindo, esta fuga pareceu-me não ser coerente com a sinceridade que tento manter e manifestar. Feita a experiência, tomando mil e uma precauções, respondo apresentando o testemunho do meu próprio percurso. Este percurso não tem nada de exemplar; não procuro dar um modelo, evito o menor traço de proselitismo. A este preço, um diálogo aberto pode ser instaurado. Eles precisam, para compreender realmente o meu discurso, saber de que desenvolvimento pessoal, a minha atitude presente é o resultado.
Originário de uma família profundamente católica, cresci com o respeito pelas crenças, sacramentos e ritos desta religião. Depois veio a idade do pôr em causa, das recusas mais motivadas pela necessidade de se opor do que de uma reflexão. Nessa altura operou-se uma lenta reconstrução a partir, não somente, dos materiais recebidos na infância, mas de todos os que a vida traz. Por fim veio a aproximação de uma certa estabilidade que sinto como cada vez menos católica e cada vez mais cristã; no sentido em que ser cristão é levar a sério os preceitos de vida propostos por este homem, dito o Cristo, que assim os exprimia há dois mil anos. Neste desenvolvimento por vezes conflituoso, as bifurcações foram provocadas pelos encontros, pelas leituras, pelas reflexões, pelas emoções, particularmente as que foram suscitadas pela actividade científica e a preocupação com o rigor que ela implica. O importante é prosseguir honestamente este caminho, e não ficar parado no meio de certezas mortas.
Sabendo isto, os jovens que me escutam, sejam de famílias muçulmanas, cristãs, judias, animistas ou agnósticas, podem reagir melhor às minhas respostas e perceber as que, sem que eu tenha consciência, são orientadas abusivamente pela minha própria posição.
Para os mais jovens, trata-se sobretudo de uma interrogação sobre o sentido da vida cujo resultado é conhecido, a morte. «Porque é que nasci, se tenho de morrer?»  «Se é tão triste morrer, preferia não ter nascido»  «Depois da morte o que é que há?», com os do 4.° ano estas observações são frequentes.
Verificamos que a origem de todas as inquietações a propósito do sentido da vida é a evidência da morte. Já todos sentimos o choque insuportável do desaparecimento de alguém próximo. Havia alguém. Não há ninguém. É possível? Tudo nos empurra para não aceitar totalmente esta pros­tração, este vazio que sucede brutalmente a uma presença. Qualquer coisa, que não é uma «coisa», deve ficar daquele que acabou de desaparecer. Mas o quê? Quem pode responder? Não pode ser recolhido nenhum testemunho, porque a mudança é irreversível. Ficamos todos reduzidos a hipóteses. Não há, em todo o caso, nenhuma razão para nos zangarmos a este propósito.
E talvez seja melhor não falar demasiado desta questão, pois, definitivamente, será impossível dar uma resposta baseada numa observação ou numa experiência. Face à interrogação sobre a nossa própria morte, uma atitude, à primeira vista paradoxal, mas que acaba por ser eficaz, é possível: aposto convosco que sou imortal, e não hesito em apostar 1000 francos; esta aposta, tenho a certeza de que não vou perder, porque no dia em que virem que ganharam, será demasiado tarde para reaverem o dinheiro. É apenas uma observação espirituosa, mas permite tomar consciência do absurdo que toca certos conceitos quando se trata da questão do depois da morte.
Os problemas aos quais nós devemos dar prioridade dizem respeito ao antes da morte, quer dizer, a vida. A principal lucidez é medir o valor deste presente fabuloso que não é a vida, ela própria, mas uma vida de homem ou de mulher. Como é pouco a vida definida somente como uma sucessão de processos biológicos que se organizam, lutam para durar o mais tempo possível, e acabam por capitular e apagar-se. Ela é apenas uma cadeia de acontecimentos banais, não merece o deslumbramento. A vida de um humano é muito mais, porque ele sabe que vive. Tem consciência de ser. Compreendeu que os instantes presentes serão seguidos pelos instantes que virão, ainda inexistentes mas sobre os quais tem influência. Fabricado pelo universo, é capaz de o transformar, é, então, responsável.
«A vossa vida está por construir, vocês são jovens; múltiplas possibilidades vão-se abrir para vós. Vêm à escola  para abrir as portas.»
Os maiores põem frequentemente a questão na forma clás­sica: «Acredita em Deus?» Lembro-lhes antes de mais que Einstein, dizem, replicava: «Diga-me o que designa pela palavra Deus e responder-lhe-ei.» A minha reacção não evoca a palavra Deus, mas o verbo «crer». O que é que ele significa no vosso pensamento?
Crer é confiar na palavra do interlocutor. Mas esta confiança é subjectiva «Acredito em vocês», significa que tenho a certeza da  vossa  boa fé, mas vocês  são, como todos, susceptíveis de se enganar e os factos que descrevem podem ser diferentes dos factos reais.
No discurso do cientista, o verbo «crer» não acontece. O ponto de partida de toda a investigação é uma observação sempre parcial, sempre imprecisa. A partir desta observação, a ciência esforça-se por propor uma explicação sob a forma de um modelo sempre provisório, sempre passível de revisão. Newton não «acreditava» na gravitação universal. Não apresentava a atracção entre as massas como uma realidade, mas como uma tentativa (particularmente bem sucedida, verdade seja dita) para explicar a queda dos corpos e o movimento dos planetas. Não afirmava «as massas atraem-se» mas «tudo se passa como se as massas se atraíssem», com uma força que a sua célebre fórmula permite calcular. Aliás, o seu modelo não permite explicar as verificações feitas a seguir no que toca ao movimento de Mercúrio; é preciso substituílo por um modelo proposto por Einstein, o da relatividade. Não é uma renegação de Newton, mas um prolongamento do seu pensamento, esperando que novos modelos prolonguem o pensamento de Einstein. A atitude científica não consiste em crer, mas em sistematicamente pôr em causa e rever. Cada avanço é vivido como um novo triunfo na procura de um renascente conhecimento (connaissance) do real.
No entanto, esta atitude não responde a todas as angústias. Face a estas podemos ter necessidade de imaginar realidades que escapam a qualquer tentativa de observação. Esta necessidade, uns sentem-na; outros, não. Não escondo pertencer à primeira categoria; mas não posso compreender que esta diferença entre uns e outros possa resultar em confrontações violentas.
Contudo, estas confrontações estão entre as mais mortíferas da história dos homens, esta história está repleta de guerras de religiões. É necessário reflectir aqui sobre a função das religiões.
Apoiando-nos na etimologia desta palavra o latim religare, reunir, apresentamos uma religião como uma estrutura que cria uma ligação entre todos os que nela participam. É verdade que é grande o conforto interior de nos encontrarmos com pessoas que partilham a mesma fé, que se submetem aos mesmos preceitos, que modelam a sua vida quotidiana segundo os mesmos ritos, que põem as questões fundamentais com as mesmas palavras, que aceitam as mesmas respostas. Mas os que têm a seu cargo a manutenção destas ligações fizeram destas, muitas vezes, a fonte do seu poder. As estruturas das igrejas foram decalcadas das estruturas dos estados, com o que essas estruturas implicam de dominação, exploração, compromisso, competição, violência.
É possível um outro olhar sobre as religiões, dando a esta palavra uma falsa etimologia, e aproximando-a da palavra latina relegere, reler. As religiões ajudam-nos a ler e a reler os textos fundadores, não para os repetir indefinidamente, mas para lá descobrir, constantemente, novas pistas, novas aberturas, novas riquezas. Nesta visão, a religião cristã deveria, antes de mais, ensinar os seus fiéis a ler o Evangelho, tal como se fosse a primeira vez; o islão, o Alcorão; a religião judaica, a Bíblia.
Com este olhar, a própria ciência pode ser considerada como uma religião, pois consiste numa releitura permanente, uma investigação nunca saciada das realidades do universo. Se as religiões tivessem a sabedoria de abandonar os seus sonhos de hegemonia, que são frequentemente uma traição da sua mensagem, a oposição entre elas ou com a ciência não faria qualquer sentido. Esta sabedoria está, talvez, ao nosso alcance.
Chegar aqui deveria ser uma parte do objectivo do ensino. Por uma louvável preocupação de neutralidade, o sistema educativo francês não fala muito das oposições entre religiões a não ser das explosões de violência a que elas conduziram: é difícil ensinar História de França sem lembrar a noite de S. Bartolomeu. Mas o conteúdo das religiões só raramente é descrito. Daqui resulta um desconhecimento com consequências graves, cada um reduzindo a religião do outro aos seus sinais exteriores. Deveria ser possível ensinar serenamente aos jovens franceses o que significa realmente ser católico, ser protestante, ser muçulmano, ser judeu, ser agnóstico. O conhecimento do outro é a condição do respeito.

 

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