quarta-feira, 11 de setembro de 2013

D. António Ferreira Gomes e o Concílio Vaticano II (V)



D. António FERREIRA GOMES, A Igreja pós-conciliar, Telos Editora, Porto sd.


Este processo porém veio a terminar-se em meio grego e sob a provocação de repetidas heresias, nascidas fertilmente da cultura helénica já misturada com a mistagogia oriental. As definições conciliares, apesar da eidética e mundividência culturais desse tempo, permanecem válidas e irreformáveis quanto ao essencial. Mas seria da perguntar se, na eidética popular e não só popular, haverá aderências gregas, que a visão mais exigentemente bíblica e de tendência ecuménico- cultural do nosso tempo deva legitimamente depor. Como têm lembrado vários teólogos, principalmente Karl Rahner, seria caso de voltar ao Concílio da Calcedónia e desenvolver, a partir do seu pensamento autêntico, uma cristologia para o nosso tempo. Cristo - «verdadeiro Deus», mas também «verdadeiro homem»...
É bem de notar que «verdadeiro Deus» é, ou parece, bastante fácil de admitir e de...arrumar! Arrumar, com aquela facilidade com que arruma o caso o nosso poema nacional: -           «É Deus; mas quem é Deus ninguém o entende, que a tanto o engenho humano não se estende». Ou com aquela facilidade com que arruma Deus um Montaigne (também de origem materna portuguesa, como se sabe) e outros semelhantes, para quem a religião cristã é coisa tão venerável, sagrada e intangível, que se deve deixar aos padres, enquanto eles, filósofos... tratam de outras coisas, de coisas sérias. Ou como um Spinoza, filósofo «português» igualmente, para quem tudo finalmente se explicava por Deus sive natura...
Porém Cristo «verdadeiramente homem» é coisa muito mais difícil; mas é evangélico e conciliar!
Não podemos evidentemente analisar isso aqui. Admitiremos, e isso nos baste, que a «divinização» pode levar a afastar de nós o modelo, na medida em que se torna objecto de culto. Esta alienação essencialista e objectante pode andar junta a uma espécie de afastamento espacial: assim como Deus se pode tornar o Infinito perdido lá nos longes do infinito, assim Cristo Jesus, ressuscitado e subido aos céus, pode sumir-se nesse Deus, infinitamente distante e portanto, como os deuses antigos, um mero deus otiosus.
Se pudéssemos prosseguir esta análise, deveríamos reconhecer que este «deus dos filósofos», este deus ente-de-razão, este deus otiosus - que, graças a Deus, nunca existiu nem existirá - esse deus racionalista foi introduzido na cultura moderna pelo velho pai do racionalismo, o grande Descartes, herdeiro nisto e em muitas outras coisas dos nominales parisienses. E, nas Meditações e Método cartesianos, veríamos destilar-se por forma nova e duplicada o velho veneno grego, na sua marcha lógica do homem para a natureza e da natureza para Deus, mas com a terrível agravante de que o pensamento subjectivo do homem é que sustenta o ser, e portanto Deus, e vice-versa Deus passa a responder pela verdade das coisas da natureza. Sumariamente, podíamos dizer que, assim como, ao procurar demonstrar o objectivo pelo subjectivo. Descartes, não obstante abrir caminho a muitas especulações úteis, tinha de falhar no essencial, assim também, ao pôr Deus em mero argumento ontológico e portanto ao condicioná-Lo pelo homem ou fazer de Deus um ente-de-razão humana. Descartes entrava num caminho sem fim, caminho de abismo, catástrofe e ateísmo, este caminho da «morte de Deus», em que nos encontramos e do que...temos de sair!
Com isto, mal esboçamos o apontamento do que pode haver de «platonismo para o povo» no cristianismo que distraidamente ensinamos. Havia que considerar a alma platónica como o artista em relação à lira ou o prisioneiro em relação ao cárcere... a imortalidade platónica igual à metempsicose e ao racionalismo duma alma separada e encarcerada...os mitos platónicos da vida nas Ilhas Bem-aventuradas ou no Tártaro, exactamente como na Divina Comédia...o amor platónico, face ao amor cristão...o culto das Leis face à noção cristã da pessoa humana...Em suma, Cristo Jesus face a Sócrates, o Justo.
Tarefa da Igreja pós-conciliar, tarefa imensa de desvestir-se, despojar-se de uma cultura, venerável mas transitória, para encarnar em nova cultura o que é essencial e eterno.
Mas essa é a sua missão - a sua Cruz e sua Ressurreição. Foi esse o caminho que lhe apontou o Concílio. O fim desse caminho ninguém o vê: nenhum de nós o verá, graças a Deus! E isso é a esperança...
Mas o percurso, o método, o lugar e o espaço estão indicados, duma forma tão nova como inspiradora: «Diocese é a porção do Povo de Deus, que se confia a um Bispo para que a apascente com a colaboração do Presbitério, de tal modo que, unida ao seu Pastor e reunida por ele no Espírito Santo por meio do Evangelho e da Eucaristia, constitui uma Igreja particular, na qual está e opera a Igreja do Cristo, una, santa, católica e apostólica» (C. D. 11).
Diocese de Vila Real, em celebração jubilar de cinquenta anos de caminho andado!
Tendes uma Diocese, tendes um Bispo: estais a caminho, no caminho sem fim de Deus, que é o Futuro absoluto do Homem e da História. Caminhai em peregrinação e comunidade de Fé e Caridade, in viam pacis, no caminho da Esperança!
 
(conclusão)

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