sábado, 14 de setembro de 2013

Recensões que são convites


José Riço DIREITINHO, O Poder da Palavra (J  (﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽m os sonhos e Is que Iual, 06. 09. 2013, 26.ón Kalman STEFÁNSSON, Paraíso e Inferno (Trad. João Reis), Cavalo de Ferro), Expresso. Atual, 06. 09. 2013, 26.

Cartografia afectiva das nossas angústias, num retábulo islandês que atravessa o desespero silencioso da condição humana.

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A procura de um sentido para a existência de um Deus bom e todo-poderoso que permite o sofrimento dos homens, quando lhe seria tão fácil evitá-lo, foi a agulha da bússola que guiou o autor islandês Jón Kalman Stefansson (n, 1963) na escrita do romance Paraíso e Inferno, primeiro volume de uma premiada trilogia. Mais do que uma história em que os gritos dos mortos se misturam com os dos vivos, compondo um coro trágico que não cessa de evocar a inevitável desolação da existência, a irremediável solidão dos homens, Paraíso e Inferno é sobretudo um hino ao poder redentor das palavras e também da amizade, pois "o Inferno é ter braços mas ninguém a quem abraçar".
Jon Kalman Stefánsson escreveu um romance cuja acção tem lugar na costa islandesa, em finais do século XIX, numa pequena comunidade piscatória na orla de uma baía que, dizem, é "tão larga que a vida não a consegue atravessar". É a época da pesca do bacalhau, o final do Inverno. O frio, a escuridão, as tempestades, o vento e o Ártico parecem acompanhar todos os pensamentos das personagens, como se ao lado dos peixes e dos companheiros afogados que lhes habitam os sonhos e lhes acenam na madrugada com barbatanas em vez de mãos houvesse sempre lugar para um contrapeso que os prendesse à cruel realidade.
Bárdur e "o rapaz" (este nunca e nomeado) são os dois principais protagonistas desta história, que parece querer aventurar-se a descobrir quanto sofrimento o coração humano consegue afinal suportar. A amizade entre os dois assenta no gosto comum pela leitura, e isso torna-os estranhos aos olhos dos restantes pescadores da companha: "Os dois idiotas, Bárdur e o rapaz, por vezes deixam-no completamente louco com o raio das suas leituras eternas, citando eternamente poemas um ao outro, um raio de uma desgraça, um raio de uma podridão psicológica que deixa uma pessoa mole."
Durante os meses da pesca, vivem por ali cerca de 400 homens, alojados em 40 cabanas; no que resta do ano, cada um vai à sua vida, para junto da mulher e dos filhos. Saem de noite para a pesca, quando nem o mar nem o céu lhes mostram sinais de perigo; saem em pequenos barcos, "caixões abertos no meio do mar", meia dúzia de homens a remar durante quatro horas até chegarem aos bancos de pesca, onde ficam depois seis ou oito horas. Não sabem nadar, também não adiantaria: se alguém cair à água enquanto pesca morrerá "no mais curto espaço de tempo, o frio tomará completamente conta dele e não o largará". Não se passa um dia nas vidas daqueles homens em que não ouçam o mar, uma "criatura gigantesca que respira". A relação dos pescadores com os elementos naturais é narrada e descrita de forma magistral; há histórias que se cruzam, personagens que chegam e saem carregando os seus fracassos e desejos, vozes de mortos que entram pela narrativa adentro, o que evidencia ainda mais a linguagem poética de Stefansson.
Dividida em duas partes - cada uma delas precedida de um texto curto, grafado em itálico, em que o narrador se desvela -, a ação do romance desenvolve-se em redor de um exemplar (traduzido para o islandês em 1828) de uma obra clássica da literatura universal, Paraíso perdido, do religioso John Milton (1608-1674). Este título, referido bastas vezes ao longo do romance - a obsessão pela sua leitura acaba por ser a causa indireta da morte de uma personagem -, é a chave de toda a narrativa. Nesse poema épico, espécie de conto sobre a moral cristã, Milton desenvolve o tema bíblico da expulsão do Paraíso, refletindo sobre a natureza do mal e sobre o sofrimento a que a humanidade foi condenada. O resultado destas reflexões é apresentado (indiretamente) por John Milton através da genial descrição psicológica dos principais protagonistas da epopeia: Deus, Adão, Eva e o Diabo (são as atitudes deste último que acabam por deixar uma espécie de esperança que se esconde por trás da perda do Paraíso). À semelhança de Adão e de Eva, expulsos do Paraíso por terem provado do fruto da árvore do conhecimento, também os protagonistas do romance de Stefansson são "vítimas" da curiosidade (que saciam com as muitas leituras), e por causa dela perderam o Paraíso (a inocência) e começaram a duvidar. "Bárdur e o rapaz, contudo, não confiam tanto [em Deus] quanto os restantes. São jovens e leram desnecessariamente demasiado, os seus corações bombeiam mais incertezas do que os dos outros, e não apenas sobre Deus, porque o rapaz também não tem certezas sobre a vida, (...), sobre o seu propósito."
Para Milton, no poema Paraíso Perdido, o Céu e o Inferno não são lugares físicos mas antes estados de alma; também Stefansson não cessa de nos fazer notar essa ideia. "O inferno é estar morto e apercebermo-nos de que não nos importámos com a vida enquanto tivemos a oportunidade de o fazer. "
Paraíso e Inferno parece ensaiar, atravessando o desespero silencioso da condição humana, uma cartografia afectiva das nossas angústias. E também dos nossos demónios.


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