sábado, 28 de setembro de 2013

Richard Feynman (II)




Richard FEYNMAN, O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de… Prefácio de Freeman DYSON, Gradiva, Lisboa 2006.


Esmagar átomos

 

Aquilo em que estou a trabalhar neste momento é um problema especial que se nos deparou e que vou descrever. Como se sabe, todas as coisas são feitas de átomos - já sabemos isso e a maioria das pessoas também - e o átomo tem um núcleo em volta do qual giram eletrões. O comportamento dos eletrões no exterior é hoje completamente conhecido e as leis que o regem são bem compreendidas, pelo menos que nós saibamos, nesta eletrodinâmica quântica de que lhes falei. E depois de isso ter sido resolvido o problema passou a ser o de saber como é que o núcleo funciona, como é que as partículas interagem, como e que se mantem unidas. um dos resultados secundários foi descobrir a fissão e fazer a bomba. Mas investigar quais são as forças que mantêm as partículas nucleares unidas era uma longa tarefa. No principio pensou-se que era uma troca de um tipo de partículas no interior, que foram inventadas por Yukawa, chamadas piões, e previu-se que, se se disparassem protões - o protão é uma das partículas (27)

...

O QUE É A CIÊNCIA

 ...de as endireitar e andou no chão de um lado para o outro.

Ok, vamos ver.”

E então observamos e vimos, tanto quanto eu conseguia perceber,  que o pássaro bicava as penas as mesmas vezes, não importava há quanto tempo andava no chão, e não imediatamente após o voo.

Por isso a minha hipótese estava errada e não conseguia adivinhar a razão correta. O meu pai revelou a razão.  É que os pássaros tem piolhos. Há um pequeno floco que se liberta da pena, ensinou-me, algo que pode ser comido, e o parasita come-o. E nas articulações do para­sita, entre as secções da perna, há um pouco de cera que escorre e há um piolho que vive ai a comer a cera. O piolho tem uma fonte de comida tão boa que não a digere muito bem e da extremidade traseira sai um liquido que tem muito açcar e n﷽﷽﷽ fascas novas, c'omeç5 úcar e nesse açúcar vive uma criatura muito pequenina, etc.

Os factos não estão corretos. O espírito está. Primeiro aprendi sobre o parasitismo, um no outro, no outro, no outro.

Em segundo lugar,  ele continuou a dizer que no mundo,  sempre que há uma fonte de alguma coisa que possa ser consumida, há uma forma de vida que encontra uma maneira de fazer uso dela e que cada bocadinho que sobra é comido por alguém.

0 significado disto é que o resultado da observação, mesmo que eu não fosse capaz de chegar a uma conclusão final, era uma peça de ouro, um resultado maravilhoso.

Era algo de maravilhoso.

Suponham que me tinham dito para observar, para fazer uma lista, para escrever, para fazer isto, para ver e,  quando escrevesse a minha lista, era arquivada com mais 130 listas nas costas do meu bloco de notas. Eu aprenderia que o resultado da observação é  relativamente aborrecido,  que não sai daí grande coisa

Acho que é muito importante - pelo menos era para mim - que, se queremos ensinar as pessoas a fazerem observações, devemos mostrar que algo de maravilhoso poderá surgir.

Aprendi então o que era a ciência. Era paciência. Se olhássemos e prestássemos atenção, teríamos uma grande recompensa (embora não todas as vezes). Como resultado,  quando me tornei um homem maduro, trabalhei laborio­samente, hora após hora, durante anos, nos problemas - umas vezes muitos anos, outras menos tempo -, mui­tos deles falhados, muita coisa a acabar no cesto dos papéis, mas de vez em quando havia a recompensa de uma nova compreensão, que aprendi a aguardar quando era miúdo, o resultado da observação. Porque não aprendi que a observação não valia a pena.

Incidentalmente, na floresta aprendemos outras coisas. Íamos passear e víamos coisas normais e falávamos de muitas coisas, sobre as plantas que cresciam, a luta das árvores pela luz, como tentavam chegar o mais alto possível e resolver o problema de levarem a água a mais de 35 ou 40 pés de altura, as pequenas plantas no chão que procuram os bocadinhos de luz que passam, tudo o que cresce, etc.

Um dia tínhamos visto isto tudo e o meu pai levou-me outra vez à floresta e disse-me: «Durante todo este tempo em que temos observado a floresta vimos apenas metade daquilo que se passa, exatamente metade..

«O que queres dizer?», perguntei-lhe.

Ele disse-me: «Temos visto como é que todas estas coi­sas crescem, mas por cada bocadinho de crescimento tem de haver a mesma quantidade de degradação, pois de outro modo os materiais seriam consumidos para sempre. As árvores mortas ficariam ali depois de terem usado tudo o que podiam do ar e do chão e nada voltaria para o chão e para o ar e nada mais podia crescer porque não haveria material suficiente. Para cada bocadinho de crescimento tem de haver a mesma quantidade de degradação

E seguiram-se muitos passeios nos bosques, durante os quais partíamos velhos troncos, víamos vermes engraçados e fungos a crescer. Ele não podia mostrar-me as bactérias, mas víamos os efeitos da sua ação, e assim sucessiva­mente. Vi a floresta como um processo de reciclagem constante de materiais.

Havia muitas coisas destas, descrições de coisas de ma­neiras estranhas. Ele começava muitas vezes a falar de uma coisa deste modo: «Supõe que vem cá um homem de Marte ver o mundo.» É uma ótima maneira de ver o mundo. Por exemplo, quando brincava com o meu comboio elétrico, ele disse-me que havia uma grande roda a ser girada pela água que está ligada por filamentos de cobre, que se esten­dem e estendem em todas as direções; depois há peque­nas rodas e todas elas giram quando a roda grande gira. A relação entre elas é feita apenas por cobre e ferro, nada mais, sem partes móveis. Giras uma roda aqui e todas as rodinhas giram em todo o lado e o teu comboio e uma delas. Foi um mundo maravilhoso aquele de que o meu pai me falou.

O que é a ciência, penso que poderá ser algo como isto: houve neste planeta uma evolução da vida até ao ponto em que se desenvolveram animais que são inteligentes. Não falo apenas de seres humanos, mas de animais que brin­cam e conseguem aprender alguma coisa com a experiên­cia (como os gatos). Mas a dada altura cada animal teve de aprender com a sua própria experiência. Desenvolve­ram-se gradualmente até um animal poder aprender mais rapidamente e poder mesmo aprender com a experiência de outro pela observação, ou um poder mostrar ao outro, (122)  ou um ver o que o outro tinha feito. Assim, houve a pos­sibilidade de todos aprenderem, mas a transmissão não era eficiente e morriam, e talvez aquele que aprendeu morresse também antes de poder passar aos outros o que aprendera.

A questão é: será possível aprender mais rapidamente (o que alguém aprendeu por acidente) do que a taxa a que o assunto é esquecido, seja por má memória, seja pela morte do aprendiz ou inventor?

E então chegou uma altura em que, para algumas espécies, a taxa a que aumentava a aprendizagem fez com que acontecesse uma coisa completamente nova: as coisas po­diam ser aprendidas por um animal e passadas para outro e outro de uma forma suficientemente rápida para não se perderem. E tornou-se possível acumular conhecimento.

Isto foi designado por time-bending (curvatura do tempo). Não sei quem lhe chamou assim em primeiro lugar.

Temos aqui algumas amostras desses animais, sentados a tentarem ligar uma experiência a outra, cada um a tentar aprender com o outro.

Este fenómeno de ter uma memória, de ter conhecimento acumulado que passa de uma geração para outra, era novo no mundo. Mas continha um doença. Era possível trans­mitir ideias erradas. Era possível passar ideias que não eram lucrativas para a raça. A raça tem ideias, mas estas não são necessariamente benéficas.

Então chegou uma altura em que as ideias, embora se acumulassem lentamente, eram todas acumulações não ape­nas de coisas práticas e úteis, mas grandes acumulações de todo o tipo de preconceitos e crenças estranhas e anormais.

Descobriu-se então um  meio de evitar a doença. Isto é, duvidar de que o que é transmitido do passado seja de facto verdade e tentar perceber, ab initio, novamente a partir da experiência, qual é a situação, em vez de acreditar na experiência do passado, sob a forma que é transmi­tida (123). E é isso que é a ciência: o resultado da descoberta de que vale a pena verificar novamente através da experiência direta e não necessariamente acreditar na experiência passada da raça. ...

(cont.)

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