quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Richard Feynman



Richard FEYNMAN, O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de… Prefácio de Freeman DYSON, Gradiva, Lisboa 2006.

 

INTRODUÇÃO

... do seu valor no vácuo. Fazendo as contas, ver-se-á que 61 quilómetros por hora (pouco mais de um quilóme­tro por minuto), divididos por 1080 milhões de quiló­metros por hora, da 0,0000000565 da sua velocidade no vácuo! Colocando este resultado em perspectiva, é como se Galileu tivesse largado as suas bolas de canhão da Torre de Pisa e elas tivessem demorado dois anos a atingirem o chão!
A razão para os pontos de exclamação no parágrafo anterior é que fiquei sem fôlego na conferência (até Einstein teria ficado impressionado). Acho que, pela primeira vez na minha vida, senti uma migalha daquilo a que Feynman chamava «a excitação da descoberta[1]», o sentimento súbito (provavelmente semelhante a uma epifania, embora neste caso por interposta pessoa) de que tinha compreendido uma ideia nova e maravilhosa, que havia algo novo no mundo; que estava presente num acontecimento científico de grande significado, não menos dramático ou excitante do que o sentimento do Newton quando percebeu que a misteriosa força que levara a apócrifa maçã a cair-lhe na cabeça era a mesma que fazia com que a Lua orbitasse a Terra ou o de Feynman quando deu aquele primeiro passo na compreensão da natureza, da interação entre a luz e a matéria, que acabou por levá-lo ao prémio Nobel.
Sentado naquela audiência, quase podia sentir Feynman nas minhas costas a segredar-me ao ouvido: «Vê? É por isto que os cientistas persistem nas suas investigações, que lutam tão desesperadamente por cada bocadinho de co­nhecimento, ficam noites inteiras acordados à procura da resposta para um problema, ultrapassam os obstáculos mais difíceis até ao próximo fragmento de compreensão para, finalmente, chegarem aquele momento feliz e excitante que é parte do prazer da descoberta[2].» Feynman dizia sempre que não trabalhava em física pela glória ou pelos prémios, mas por diversão, pelo brilhante prazer de descobrir como funciona o mundo, o que o faz tilintar.
O legado de Feynman é a sua imersão e dedicação à ciência - a lógica, os métodos, a rejeição do dogma, a capacidade infinita de duvidar. Feynman acreditava e vivia na crença de que a ciência, quando usada com responsa­bilidade, pode ser não só divertida, mas de um valor inestimável para o futuro da sociedade humana. E, como todos os grandes cientistas, adorava partilhar a sua admiração pelas leis da natureza tanto com colegas como com leigos. O Prazer da Descoberta apresenta o melhor dos textos curtos de Feynman - a maior parte já publicados e um inédito.
A melhor maneira de apreciar a mística de Feynman é ler o livro, pois aqui encontra-se uma ampla variedade de tópicos sobre os quais Feynman pensou profundamente e discursou de forma tão charmosa, não apenas física - no ensino da qual jamais alguém o ultrapassou -, mas também religião, filosofia e pânico da exposição pública na academia, o futuro da computação e da nanotecnologia (da qual foi o pioneiro), humildade, diversão em ciência, o futuro da ciência e da civilização ou o modo como os cientistas debutantes devem encarar o mundo.
Feynman tinha uma atitude muito descontraída relati­vamente a correção gramatical das suas conferências orais.

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O PRAZER DA DESCOBERTA

O prémio Nobel, assim seja. Não tenho nada a ver com o prémio Nobel...é uma...[risos]. Não gosto de honras, aprecio-o pelo trabalho que fiz e pelas pessoas que o apre­ciam e sei que há muitos físicos que usam o meu trabalho; não preciso de mais nada, creio que nada mais faz senti­do, não vejo que faça diferença que alguém na Academia Sueca decida que este trabalho é suficientemente nobre para receber um prémio - já tenho o prémio. O Prémio é o prazer da descoberta, a excitação da descoberta, ver que outras pessoas o usam [o meu trabalho] - estas são as coisas reais, as honras são irreais para mim. Não acredito em honras, aborrecem-me, as honras aborrecem, as honras são galões, as honras são uniformes. O meu pai criou-me desta maneira, não consigo suportá-lo, ferem-me. Quando andava no liceu, uma das primeiras honras que recebi foi ser membro do Arista, um grupo de miúdos que tinham boas notas; toda a gente queria ser membro do Arista, e quando entrei descobri que o que se fazia nas reuniões era discutir quem mais era merecedor de pertencer a esse ma­ravilhoso grupo além de nós, OK? Então sentávamo-nos para tentarmos decidir a quem é que seria permitido jun­tar-se a este Arista. Este tipo de coisa perturba-me psi­cologicamente por uma razão ou por outra que não com­preendo e desde esse dia sempre me perturbou. Tinha problemas com... quando me tornei membro da Acade­mia Nacional de Ciências, acabei por ter de renunciar porque essa é outra organização cuja maior parte do tem­po é passada na escolha de quem é suficientemente ilustre para aderir, para ser autorizado a juntar-se a nós na organização, incluindo questões sobre se nós, os físicos, devíamos manter-nos unidos, porque eles têm um químico muito bom que estão a tentar incluir e não há espaço que chegue, e por aí fora. Qual é o problema com os químicos? A coisa toda estava podre porque o seu propósito principal era decidir quem é que podia ter esta honra, OK? Não gosto de honras.

 

As regras do jogo

[De 1950 a 1988, Feynman foi professor de Física Teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).] Uma analogia engraçada para dar uma ideia do que fa­zemos nesta tentativa de compreendermos a natureza e imaginar que os deuses estão a jogar um grande jogo, tipo xadrez, é que não sabemos as regras do jogo, mas nos é permitido olhar para o tabuleiro de vez em quando, talvez para um pequeno canto, e, a partir destas observações, tentamos perceber quais são as regras das peças que se movimentam. Após algum tempo podemos descobrir que, por exemplo, quando só há um bispo no tabuleiro este mantem a sua cor. Mais tarde podemos descobrir a lei para o bispo, a medida que se movimenta na diagonal, o que explicaria a lei anterior e por que não perdeu a sua cor, e isso seria análogo a descobrir uma lei e depois encontrar-lhe um significado mais profundo. Então  as  descobertas acontecem, tudo parece estar a correr bem, temos todas as leis, parece opimo, mas, de repente, ocorre um fenómeno estranho qualquer num canto e começamos a investigá-lo, a procurá-lo - e perturbador, algo de que não estávamos a espera. Já agora, nós, na física fundamen­tal, estamos sempre a tentar investigar aquelas coisas cuja conclusão não compreendemos. Não estamos a verificar as nossas conclusões a toda a hora; depois de as termos con­firmado o suficiente ficamos satisfeitos.
Aquilo que não bate certo, a parte que não se comporta de acordo com o previsto, é aquilo que é mais interes­sante. Podemos ter revoluções em física depois de termos verificado que o bispo mantém a cor e se move na diagonal, e durante muito tempo toda a gente sabe que é assim, quando de repente, num jogo qualquer de xadrez, se percebe que o bispo não manteve a cor, que a cor muda. Só mais tarde descobrimos outra possibilidade, que um bispo é capturado e que um peão vai até ao extremo onde está a rainha para produzir um novo bispo - isso pode acontecer, mas não o sabíamos e por isso é tão semelhante ao modo como são as nossas leis: por vezes parecem bem e continuam a funcionar até que, de repente, uma luzinha mostra que estão erradas e lá temos de investigar as condições sob as quais o bispo mudou de cor e, gradualmente, aprendemos a nova regra que o explica de modo mais profundo. No entanto, ao contrário do xadrez, em que as regras vão ficando mais complicadas à medida que se avança, na física, à medida que se descobrem coisas novas, começa tudo a parecer mais simples. Em geral, parece mais complicado porque aprendemos a partir de uma experiência maior - quer dizer, aprendemos novas partículas e novas coisas - e por isso as leis parecem complicadas outra vez. Mas, se não nos esquecermos do que é maravilhoso e aumentarmos a nossa experiência para regiões cada vez mais audazes, de vez em quando temos aquelas integrações em que tudo se junta num todo e se torna mais simples do que parecia antes. Se estivermos interessados na essência do mundo físico, da realidade ou na visão completa do mundo e, de momento, a única via para o compreendermos for o pensamento matemático, então acho que ninguém pode apreciar totalmente, ou mesmo parcialmente, estes aspectos particulares do mundo, a grande profundidade do carácter universal das leis, as relações entre as coisas, sem compreender a matemática. Acho que é, não sei, não conheço qualquer outro modo de o fazer, não conhecemos outra maneira de o descrever com rigor... ou mesmo de ver as inter-relações. Por isso não acredito que uma pessoa que não tenha desenvolvido algum conhecimento matemático seja capaz de apreciar este aspecto do mundo - não me interpretem mal, existem muitos, muitos aspectos do mundo para os quais a matemática não é necessária, como o amor, que são maravilhosos de apreciar e de sentir o fascínio e mistério, e não quero dizer que a física é a única coisa no mundo, mas estávamos a falar de física e, se é disso que falamos, então não saber matemática é uma severa limitação a compreensão do mundo.

 
(cont.)


[1] No original, the kick of discovery. (N. do T.)
[2] Outro dos acontecimentos mais excitantes, se não na minha vida, pelo menos na minha carreira de editor foi ter encontrado as transcrições há muito enterradas e nunca publicadas de três palestras que Feynman deu na Universidade de Washington em inícios de 1960 e que deram origem ao livro o Significado de Tudo, mas esse foi mais o prazer de encontrar do que o prazer de descobrir!
 

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