domingo, 29 de setembro de 2013

Romano Guardini e 'o espírito da liturgia'


'O' texto, sobre a liturgia:




Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.

 

Para certas naturezas fortes e viris que, desde a origem, tenderam com todo o esforço de suas vidas para a conquista da Verdade e não vêem da vida e do mundo mais do que a face ética, e procuram por toda a parte na existência o fim que devem alcançar, há na liturgia uma dificuldade de ordem muito peculiar. Afigura-se-lhes ser algo de inútil, uma espécie de pompa supérflua, de criação artificial, complicada e sem objecto. E sentem-se ofendidos e escandalizados pela minúcia com que a liturgia regula o pormenor do desenrolar dos ofícios e das cerimónias, a ordem que preside ao desenvolvimento das mesmas, a orientação - à direita e à esquerda - dos gestos, o tom da voz, que deve, segundo os casos, ser elevada ou baixa. E perguntam para que serve toda esta farfalhice? O essencial da Missa, do Sacrifício e da Comunhão pode reduzir-se a umas quantas linhas tão simples, que não se chega a compreender a razão do estendal de tantos ritos e cerimónias. Se bastam umas poucas palavras para as consagrações essenciais da vida religiosa, se a dispensação dos Sacramentos pode ser feita com tanta simplicidade, de que utilidade são todas estas complicações, todos estes usos exteriores?
Às naturezas desta categoria a liturgia parece facilmente ser uma como que "montagem de teatro".
Esta questão não pode ser desprezada. Nem ao espírito de todos ela se põe. Mas quando a vemos surgir, é indício dum temperamento sério e reflectido que busca o fundo das coisas.
Relaciona-se com outra questão de ordem mais geral, que é a questão de utilidade, de finalidade prática.
Chamamos finalidade prática ao princípio de ordem que subordina certos objectos e actos a outros objectos e a outros actos, que faz que um objecto se oriente para outro, o qual se torna a razão de ser do primeiro. O princípio subordinado, o meio, só tem valor na medida em que se revela apto para servir os interesses do princípio sobreordenado, ou seja do fim. O ser agente não descansa nem permanece ai; esta fase não e, a seus olhos, mais do que uma passagem, um caminho em direcção ao fim, no qual apenas encontra repouso. O critério do meio encarado através deste prisma será a aptidão para se dirigir ao alvo. Tudo quanto aí não conduz directamente, todo o acessório, todo o supérfluo, será impiedosamente sacrificado. Nesta empresa retintamente objectiva entrará em acção o princípio económico da lei do menor esforço, do menor consumo de tempo e de matéria. O estado de alma concomitante será naturalmente caracterizado por certa impetuosidade de acção tensão violenta de todas as energias, pela mais determinada objectividade.
Tal estado de espírito tem indiscutível utilidade na economia geral da vida a qual transmite seriedade e rigor de direcção. Podemos afirmar que corresponde eminentemente ao real, pois que, na verdade, todas as coisas na existência prática são, duma maneira ou doutra, sujeitas ao critério de utilidade. Por exemplo, toda a vida económica e técnica dele depende. Mas há outras manifestações da vida, que dependem muito menos, ou só parcialmente e mesmo até muito pouco. De nenhuma seria justo asseverar que é passiva, inteira e exclusivamente, deste critério. Precisemos. O princípio que dá às coisas, e aos factos, o direito à vida e que legitima a natureza particular das mesmas, não é muitas vezes mais do que a sua adaptação a um fim prático. Poderemos admitir, por exemplo, para as folhas e flores um fim desta ordem? Umas e outras constituem decerto órgãos vitais da planta; mas não foi de maneira nenhuma o fim prático delas que presidiu à escolha da forma que têm, da cor ou do perfume específico. Por conseguinte, a que fim responde a imensa prodigalidade, o estupendo esbanjamento de formas, de cores e de perfumes que a Natureza oferece? A que responde a diversidade das espécies? Tudo isso se poderia executar muito mais simplesmente. A natureza inteira poderia estar cheia de seres cujo progresso ficasse assegurado de maneira muito mais rápida e "prática". O critério da utilidade, integral e uniformemente aplicado ao reino da Natureza, é singularmente contestável. Podemos ainda alargar a questão: qual a utilidade particular desta ou daquela espécie do reino vegetal ou animal? Bastará acaso responder que uma espécie serve de alimentar a outra? Seria esta uma justificação muito insuficiente. Somos levados a concluir que na ordem da Natureza considerada no seu conjunto em nenhuma parte o critério da finalidade prática se aplica de maneira absoluta e que em muitos casos só se aplica em fraca medida. Vistas através deste prisma muitas coisas não têm utilidade prática absolutamente nenhuma. Outro tanto não sucede numa construção técnica numa ponte ou máquina ou ainda numa empresa comercial na burocracia do Estado onde tudo pelo contrário aparece como que subordinado ao princípio do fim prático. No entanto também aqui a utilidade prática não basta para dar uma resposta satisfatória à questão do direito à existência.
Se quisermos penetrar mais fundo na realidade que nos é proposta precisamos de recuar para mais longe o ângulo de perspectiva. O conceito de utilidade situa o centro de gravidade do objecto fora deste último. Concebe-o como uma passagem uma fase num movimento que segue adiante quero dizer que se dirige ao termo. Ora cada objecto é ao mesmo tempo que corresponde a um fim igualmente uma coisa que estriba em si própria que é o fim de si própria. Muitos objectos quase não são mais do que isto. Pelo que melhor empregaremos aqui o termo sentido (Sinn). Com efeito tais objectos se não têm utilidade no valor estrito do termo têm um sentido. Este sentido cumprem-no não procurando um efeito situado fora deles contribuindo para a produção de alguma coisa que lhes é alheia mas pelo só facto de serem o que são. Vazios de utilidade são, e no rigor do termo, cheios de sentido.
Utilidade e sentido são as duas formas que pode revestir o direito à existência. Sob o ângulo da utilidade o objecto insere-se numa ordem que o ultrapassa; sob o ângulo do sentido repousa em si mesmo.

(cont.)

 

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