quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A identidade do PSD, por Pacheco Pereira


O PSD tem dois problemas muito graves. Tem uma direcção política que nada tem a ver com o programa, génese, história e identidade do partido. Depois tem um aparelho que levou um verdadeiro murro no estômago (…)

O PSD tinha uma componente anticomunista e antimaçónica, e as tradições que o fundaram vinham da doutrina social da Igreja. A direcção de hoje e as estruturas do partido têm uma lógica diferente. Corremos o risco de ver um dos grandes partidos fundamentais para a vida política portuguesa ficar sem esse papel. O partido vivia de tradições que neste momento não estão representadas na direcção e são profundamente perturbadas pelo aparelho partidário que tem uma mera lógica de lugares. (…)

Do ponto de vista cívico, a partir do momento em que os partidos muito dificilmente mudam por dentro, temos de encontrar mecanismos que os pressionem a mudar a partir de fora. (…)

O PSD era o partido da classe média, quando havia mobilidade social e as pessoas podiam melhorar a sua condição de vida. Agora, está a haver mais exclusão e um empobrecimento significativo da classe média, a haver uma cada vez maior diferenciação social. Até nisso há uma traição ao programa social-democrata (…)

O futuro do PSD passa pelo retorno às ideias e aos valores da sua génese, pelo retorno à herança de Sá Carneiro, que são três coisas. Um partido liberal no plano político, que preza as liberdades e os direitos; um partido personalista; e um partido social-democrata, que tem em comum com a esquerda uma preocupação com o Estado como factor corrector das desigualdades sociais. É este PSD, que é o único que existe, que tem sido violentado por uma direcção a quem estes valores são completamente alheios e pela partidocracia. (…)

Se o PSD perder este papel de partido com capacidade reformista e se se transformar num partido dos grandes interesses financeiros e do seu próprio aparelho, o seu papel na vida política portuguesa é definhar. E isso deixa um enorme vazio.


José Pacheco Pereira, em entrevista a Miguel Gaspar e Nuno Ribeiro, As eleições são uma crítica severa ao sistema dominado pelo PSD e pelo PS, Público, 06/10/13, p.10-13.


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