sábado, 12 de outubro de 2013

Ambiente: um beco sem saída?



Jornal de Letras


página 30


ECOLOGIA

Viriato Soromenho Marques



NUM BECO SEM SAÍDA


Alguma vez teria de acontecer. O "défice de engenho" em que a nossa civilização se encontra, segundo a forte fórmula do canadiano Thomas Homer-Dixon, teria que conduzir ao resultado que o recentíssimo livro do cientista britânico Stephen Emmott, Dez Mil Milhões. Enfrentando o Futuro, exibe de forma franca e brutal. O défice de engenho é a diferença entre as enormes dificuldades que a nossa espécie enfrenta para poder sobreviver, e a extraordinariamente limitada panóplia de instrumentos à nossa disposição para resolver os problemas que essas dificuldades constituem.

Stephen Emmott é um cientista ilustre. Chefia um departamento de Ciência Computacional na Microsoft Research, e é professor em várias ilustres instituições universitárias no Reino Unido, como é o caso da Universidade de Oxford. Este livro, que se lê de um fôlego, não é um ensaio académico. É uma conversa com o leitor. Serena e amarga, Emmott olha para o nosso mundo como se estivéssemos dentro da Matrix, ou como se fôssemos os obscuros habitantes da Caverna Platónica. Em páginas rápidas, como se se tratasse de pinceladas nervosas de um pintor, o autor passa em revista o estado do mundo. Analisa cada uma das dimensões de um planeta que está em mudança acelerada pela acção da nossa espécie. Não se trata só da biodiversidade em perigo, da criosfera que derrete, da litosfera que é esventrada pela nossa sede insaciável de energia fóssil. Não é só a nossa atmosfera que, quimicamente modificada, se transforma no vector das alterações climáticas. Ou a nossa hidrosfera sobre pressão, quer na água doce, quer nos grandes oceanos salgados, sofrendo múltiplas agressões. O problema reside na combinação de tudo isso. Na incerteza explosiva que daí pode resultar.

Mas o que mais dói é aquilo que, para Emmott, já sabemos. As políticas têm falhado redondamente. Das alterações climáticas à desertificação, passando pela biodiversidade. Tudo está pior. Os políticos fazem parte do problema e não da sua solução. Vendem ilusões. Querem perpetuar-se nos seus pequenos poderes, mesmo que o mundo pereça. Não há soluções mágicas nem tecnologias de "chave na mão". Mesmo as ciências e os cientistas estão entretidos, muitas vezes, em jogos secundários. Nas suas carreiras. Nas suas pequenas vitórias. A nossa incapacidade de olharmos para o lado é surpreendente e constitui um mistério ético. Talvez uma prova variante do "mal radical" que falava Kant?

Sempre prometi a mim mesmo que se um dia chegasse à beira do abismo que Stephen Emmott vislumbra, me calaria. As catástrofes inevitáveis e sem remédio não precisam da redundância de um aviso. Acredito, contudo, que a intenção de Emmott é uma manifestação radical de coragem, de vontade de serviço. Um desesperado grito de esperança.
Um livro explosivo. Só para adultos capazes de não sucumbirem a emoções extremas.

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