quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Anatomia do ser




Que coisa são as nuvens


Revista Expresso, 19/10/13

Página 6


José Tolentino Mendonça


AMADA VIDA


Muitas vezes aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, comer diariamente o pão velho da própria maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa.

Pode parecer estranho, mas a dada altura agarramo-nos à dor como se ela fosse um heroísmo e pomo-nos a expor feridas como quem exibe condecorações. O nosso desígnio, inconfessado, mas claríssimo, passa a ser atravessar a vida (e o que nos resta dela) com o estatuto de vítima. A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos. Penso que uma viragem se opera quando aceitamos perceber que somos todos vulneráveis. É fácil reproduzir um esquema dialéctico em que somos a vítima e o outro agressor e esquecer que ele também é atravessado pelo sofrimento. De facto, não raro, a agressão é uma linguagem desviada para exprimir ou para dissimular a condição de vítima. Um necessário caminho é reconhecer que naqueles que nos ferem (ou feriram) há também bloqueios, mazelas e opacos novelos. Se não nos amaram, não foi necessariamente por um acto deliberado, mas por uma história porventura ainda mais sufocada do que a nossa. Não se trata de desculpabilização, mas de reconhecer que naquele que não me fez justiça ou não me devolveu a cordialidade que investi existe alguém provado pelo limite. E que a ferida agora acesa não se destinava a mim especificamente: era um magma de violência à deriva, à beira de estalar.

Todos precisamos de perdão. O perdão instala um corte positivo, interrompe a baba inútil da tristeza, esta maceração que nos faz infelizes e nos leva a esmagar os outros de infelicidade. Tao facilmente ficamos atolados em becos cegos, em círculos sem saída, reféns de uma amargura que cada vez vai sendo mais pesada e contamina inexoravelmente a vida. O acto de perdão é uma declaração unilateral de esperança. O perdão não é um acordo. Se me quedo á espera que aquele que me oprimiu venha ao meu encontro arrancar-me da mágoa, posso esperar sentado. O perdão é este gesto unilateral que recusa dar voz à vingança e crê que por detrás daquele que me feriu há ainda um ser humano vulnerável, capaz de mudar. Perdoar é crer na possibilidade de transformação, a começar pela minha.

Muitas vezes a aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, a comer diariamente o pão velho da própria maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa. Parece que aquilo que aconteceu (e de mal, ainda por cima) saciou-nos completamente. As ofensas recebidas revelam-nos um duro e irónico retrato de nós. Ora, para perdoar é preciso ter uma furiosa e paciente sede do que (ainda) não há. O perdão começa por ser uma luzinha. E é bom insistir e esperar. O sol não brota de repente. Essa demora é uma condição da sua verdade. Li estes dias um conto extraordinário de Alice Munro, Prémio Nobel de 2013. Gostaria de o recuperar para o último parágrafo deste texto. Diz a narradora: “Não fui a casa durante a última doença da minha mãe, nem ao seu funeral. Tinha dois filhos pequenos e ninguém com quem os deixar em Vancouver. Mas tínhamos dinheiro para a viagem, e o meu marido sentia desprezo por tudo o que fossem comportamentos formais, mas porquê culpá-lo? Eu pensava o mesmo. Dizemos que certas coisas não têm perdão – ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas perdoamos – fazemo-lo a todo o momento.” Para os que quiserem saber, o conto chama-se “Amada Vida”.

 

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