quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Camus



Jornal de Letras

Página 9

 

Eugénio Lisboa



A embriaguez da lucidez


“Camus não lutou somente contra a preguiça da inteligência (a sua obra é como a embriaguez da lucidez), como se opôs ainda à preguiça do coração”

Jean Grenier


Pôr a tónica, falando de Camus, na “embriaguez da lucidez”, tão finamente diagnosticada por Jena Grenier (como poderia não ser ele a fazê-lo?), é a melhor homenagem que se pode prestar à reedição (revista e acrescentada) do belo e lúcido livro de Marcello Duarte Mathias (MDM) A Felicidade em Albert Camus (Dom Quixote, 280 pp, 16,90). É que este livro do ensaísta português é bem um exemplo dessa lucidez, afinada por uma aguda sensibilidade, que permeia de uma ponta à outra, a obra e a vida do autor de l’Étranger. Camus tem sido, em MDM, a devoção de uma vida.

Não é difícil perceber porquê: alguém dizia ao escritor Jean Claude Brisville que “ler Camus é ficar com vontade de lhe apertar a mão.” E o próprio Sartre, ex-amigo enviesado e cruel do autor de La Peste, prestou-lhe, nos dias que se seguiram à sua morte uma homenagem justa e comovente: “Ele representava neste século, e contra a História, o herdeiro actual dessa longa linha de moralistas, cujas obras constituem o que há talvez de mais original nas letras francesas. O seu humanismo obstinado, estrito e puro, austero e sensual, deu combate incerto aos maciços e deformados acontecimentos do dia. Mas, inversamente, pelo inesperado das suas recusas, ele reafirmou, no coração do seu tempo, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de oiro do realismo, a existência do acto moral”.

Camus, francês argelino, oriundo dos bairros pobres de Argel, é hoje uma das glórias sem mácula das letras francesas do século XX. Além dele e de Roger Martin du Gard (para cujas obras completas, o autor de Noces escreveu um admirável prefácio), não sei se haverá muitos mais.

Ao contrário de Sartre e de alguns outros duvidosos maîtres-à-penser, Camus nunca pactuou com a opressão e o atropelo das liberdades humanas, a pretexto de uma mítica felicidade-a-haver. As vítimas do comunismo estalinista não eram mais justificáveis ou toleráveis do que os mártires do fascismo italiano ou do nazismo alemão. Numa fórmula fulgurante deste livro, onde brilha uma prosa descascada e clássica não indigna de Camus, Mathias observa: “Para ele (Camus), não há escravos felizes e escravos infelizes e nenhum carrasco merece indulgência seja qual for a causa em nome da qual decepa a cabeça”.

Embora tudo, na obra de Camus, seja dito de modo luminoso, embora a sua sedutora prosa ática nunca nos embrulhe em opacidades e trapaças, o mundo nela desvelado, ainda que íntegro, não é feito de uma ausência total de componentes divergentes e até contraditórias. Numa resposta dada à pergunta sobre “as minhas dez palavras preferidas”, Camus indica-nos a variedade das suas “preferências”: o mundo, a dor, a terra, a mãe, os homens, o deserto, a honra, a miséria, o verão, o mar. “ Este adorador do sol não foi também, afinal, um verificador do absurdo? Palavras suas em L’Été: “Com tanto sol na memória, como pude eu apostar na falta de sentido?

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