quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Da absolutização do presente



A verdade é que pensamos pouco no futuro – e não deixa de ser um amargo sinal que sejam os nossos historiadores a denunciarem-no. O futuro não nos mobiliza. Tornou-se mais um assunto de fatasciência ou dos gurus da tecnologia do que propriamente um tópico político existencial. Não lhe reconhecemos grande estatuto e raramente nos dispomos ao exercício de olhar o presente com os seus olhos. O nosso ponto de comparação é, quando muito, o passado. E, ainda assim, é mais um esbarrar do que um encontro. Com ele esgrimimos apressadas razoes, falamos sobre culpas e números; com ele competimos. Porém, o que nos interessa realmente é o presente, esta máquina de viver que absolutizamos, abstraídos de tudo o resto, como se o tempo fosse uma jangada em pura deriva e não já uma viagem. Não vemos que esta obsessão extenuante por um presente que realize o que esperamos é um grave equívoco. Queremos que o presente seja tudo e esquecemos que ele é só parte; esquecemos que o presente é incompleto e inacabado; é um território aberto, uma etapa apenas do longo curso da história. Assim, chegamos ao século XXI sem um projecto civilizacional que ultrapasse o horário de abertura dos telejornais ou os muros do nosso quintal. Uma das peças da “memória física” deste nosso presente encapsulado é a carta de Giusi Nicolini, responsável pela autarquia de Lampedusa (Itália), enviou recentemente à União Europeia. A escassa centena de quilómetros de mar que separa a ilha Lampedusa da costa africana tem-se tornado um grotesco corredor da morte para os emigrantes que tentam alcançar a europa. Na ilha moram cinco mil habitantes, e pode imaginar-se que o cemitério local tenha sido pensado para essa população. Mas, no canal, só nos últimos 25 anos, já morreram naufragadas mais de oito mil pessoas.

José Tolentino Mendonça, Grandes Cemitérios sobre a Lua, Expresso, 12/10/13.
 
 

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