quarta-feira, 16 de outubro de 2013

"Hannah Arendt" (III)



Clara Ferreira Alves

Expresso

Hannah Arendt e nós


O discurso politico oficial usa a novilíngua para disfarçar a ordem imoral e usa a burocracia (não fazemos as regras, apenas as aplicamos) como justificação da obediência.

Sprachregelung. Esta palavra alemã serve, grosso modo, para disfarçar o “mal” incómodo. É uma ordem para que o discurso convencional seja modificado de modo a camuflar a intenção. No nazismo, o sprachregelung emana de uma sociedade altamente burocrática, é a expressão mais perfeita como forma de burocracia como forma de totalitarismo, e destina-se a provocar nos súbditos, uma obediência sem perguntas morais, politicas, filosóficas ou outras. A execução da ordem torna-se um argumento ontológico. E enuncia uma sujeição à lei. Na Alemanha nazi, Hitler e o seu Reich levaram o conceito à consequência extrema. Toda a ordem burocrática necessita de executantes obedientes ou corre o risco de ser subvertida pela rebeldia e a violência, que geram a revolução. O sprachregelung serve justamente para, no discurso político e nos media, temperar os excessos (incluindo os excessos nacionalistas ou ideológicos) e induzir a pacificação, através da adoção de um vocabulário distinto do significado da acção. Orwell acabaria por dar a isto o nome de novilíngua, newspeak, no seu tratado ficcional sobre o totalitarismo, “1984”.
O problema do mal atormenta e assombra todos os ensaios históricos de George Orwell, do mesmo modo que atormentou Hannah Arendt. Os dois viveram em tempos de uma violência moral, física e psicológica extrema, em que a razão, a cultura europeia e a cultura alemã não serviram de proteção para o genocídio, o massacre, a crueldade e a distorção. Uma parte da Europa morreu no Shoah, e não me refiro só aos Judeus. Uma parte de nós, do que a Europa representava de São Petersburgo a Lisboa ou Londres, morreu ali. Outra parte morreria durante o Estalinismo. Para os Portugueses, com a neutralidade pró-Eixo de Salazar, é difícil absorver este problema. Aquém dos Pirenéus, com excepção dos barcos de refugiados que partiram de Lisboa para a América, esse problema não nos parece dizer respeito. O problema da história da Alemanha e da história da Europa. Um problema não resolvido, como se vê pelas manifestações contra a austeridade. Ver o filme da Margarethe von Trotta sobre Hannah Arendt e as tribulações do relato do julgamento de Eichmann em Jerusalém torna-se obrigatório. Para nos fazer pensar. Foi deste relato que nasceu a célebre frase sobre a “banalidade do mal”, usada e abusada fora de contexto. Arendt nunca resolveu o enigma mas tentou explica-lo em termos coerentes, filosoficamente coerentes, pensando sobre ele. Como lhe tinha assinado o mestre (e amante) Martin Heidegger. Tal como aconteceu com Paul Celan, um poeta judeu alemão que se suicidou e que procurou Heidegger na Floresta Negra para lhe pedir uma derradeira explicação para o apoio a Hitler e ao nazismo, também Hannah Arendt quis tentar compreender. Ou absolver. Celan nunca entendeu a finalidade Heideggeriana, não havia absolvição para este crime intelectual, nem um discurso que o pudesse sustentar, muito menos o judaico-cristão discurso do perdão, alheio à alma alemã. Heidegger não podia pedir perdão. No filme de von Trotta, quando Hannah e Heidegger caminham na floresta negra, ele desculpa-se com a ignorância da política, desculpa-se com a burocracia. Tal como fez Eichmann. Eichmann obedecia a ordens e executava a lei, mesmo que a lei fosse representada por um homem e a sua falência moral, Adolf Hitler. Heidegger obedecia a um discurso politicamente dominante que justificava o mal em nome de uma ordem maior. Nunca saberemos o que aconteceu na cabeça de um homem que pensava para, durante o nazismo, ter deixado de pensar. É o acto de deixar de pensar no homem vulgar, acto que gera a obediência cega á norma burocrática, que Hannah Arendt utiliza como conceito operativo em “A Report of The Banality of Evil. Eichmann, burocrata, é empurrado pelos ventos da História para actos extremos. Eichmann é o homem que obedece e para obedecer e executar deixa de pensar. Com Heidegger, nunca as coisas seriam tão simples. E como escreve JM Coetzee (“Inner Workings, Essays 2000-2005”) sobre Paul Celan, Heidegger não poderia invocar o perdão, porque o Shoah não tem perdão. É imperdoável. Estas palavras perdão, culpa, punição, amarguraram Arendt. Os judeus não lhe perdoaram a crítica aos chefes judeus colaboracionistas, os que, como Chaim Rumkovski, no gueto de Lodz, obedeceram aos nazis, exterminaram e deixaram-se exterminar. O problema do mal e da burocracia totalitária suscita o problema da resistência e da sobrevivência. Em Portugal, onde o discurso politica oficial usa a novilíngua para disfarçar a ordem imoral e usa a burocracia (não fazemos as regras, apenas as aplicamos) como justificação da obediência, ver e reler Hannah Arendt é um imperativo. Categórico.

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