sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O escrutínio do Nobel (da Economia)


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Se temas há que concitam um sem número de opinadores que recorrem às mesmíssimas expressões e argumentário, outros há em que mais raro é encontrarmos (sequer) opinião, nos nossos media. Assim acontece no escrutínio dos Prémios Nobel da Economia 2013, âmbito no qual a opinião de João Cravinho, hoje, no Público, traz um posicionamento curioso e interessante, singular nos textos de opinião na nossa imprensa. Ainda que, por exemplo, partilhando do mesmo espaço político de um Stiglitz, exprima perspectiva diversa deste sobre o Nobel atribuído a Friedman.
 
 
 
 
João CRAVINHO, Fama, Shiller, Oliveira Costa e Maria José Morgado, (Os Nobel da Economia e da Justiça), Público, 18. 10. 2013, p.49.  
 
Cabe também à Academia Sueca uma quota-parte de responsabilidade moral na propagação das falsas bases intelectuais questão na origem da crise. Neste contexto, ressoou largamente a pergunta- invectiva que a rainha Isabel de Inglaterra dirigiu aos economistas de todo o mundo
Academia Sueca deu o Nobel da Economia a dois economistas da Universidade de Chicago (mais dois), Fama e Hansen, e a um outro de Yale, Shiller. Concentrar-me-ei na picaresca coerência da atribuição simultânea do Nobel da Economia a Eugene Fama e a Robert Shiller, este último o oposto de Fama tanto no plano teórico como prático.
É voz corrente que os conselheiros da Academia Sueca, que preparam e avaliam os dossiers de candidatura, de há muito que desejavam à viva força galardoar Fama. Mas a sua responsabilidade moral e intelectual na criação e difusão das falsas teorias que levaram à crise financeira mundial parecia ser uma contra-indicação intransponível. Parecia, mas conseguiram agora reduzir a cisco esse obstáculo. Todavia, a obstinação era demasiado arriscada para ser servida a seco. Independentemente de o grande mérito de Shiller fazer perfeitamente jus ao Nobel, haverá sempre quem tenha por muito provável que a Academia Sueca dividiu o prémio segundo a justiça de Salomão, para assim melhor gerir a controversa e absurda escolha de Fama. É como dar um recém-criado prémio Nobel da Justiça simultaneamente a Oliveira Costa e a Maria José Morgado.
Em Outubro de 2010 prefaciei a edição portuguesa de um livro de Shiller lançado sob o título Subprime – O Crédito Hipotecário de Alto Risco editado pela chancela Livre de Ana Paula Faria Editora. Nele incluí uma explicação concisa dos contributos fundamentais de Shiller em matérias de teoria financeira e de organização responsável dos mercados financeiros e seu controle democrático. Uma parte desse prefácio aborda a arrasadora crítica que Shiller faz a Fama. Em homenagem à picaresca coerência e ecuménica tolerância da Academia Sueca, reproduzo aqui trechos desse prefácio.
Nos últimos dois anos, o mundo escapou por muito pouco ao colapso global, económico e financeiro, mediante a mais extrema, maciça e meteórica série de intervenções estatais – em substituição ou ultrapassagem do mercado – que a história regista.
Invertendo a ortodoxia dominante, o Estado – na realidade, o contribuinte – assumiu, quase sem reservas, riscos financeiros privados de toda a sorte.
A ironia da história é que esta crise só foi possível pela adesão hegemónica do mundo académico, do mundo da política e do mundo da finança à suposta bondade irrestrita da minimização do Estado face à alegada eficiência e racionalidade dos mercados financeiros, garantes, no juízo geral dos últimos anos, da autocorrecção intrínseca dos mercados sem recurso à “perniciosa” regulação pública.
Os fundamentos intelectuais das práticas que conduziram ao quase-colapso de 2008 estão firmemente inscritos na revolução antikeynesiana promovida a partir de Chicago. Designadamente, a conjugação das hipóteses de eficiência do mercado (Fama) e das expectativas racionais (Lucas) que acabaram por se impor como a representação do mundo dominante entre os economistas. Em nenhum outro campo foram essas ideias mais redutoramente exaltadas e aplicadas do que no domínio dos mercados financeiros. De maneira sucessivamente degradada e obviamente absurda. Na irónica observação de Justin Fox, até Friedman foi ultrapassado.
Adensando este pano de fundo, há também que ter presente que o efeito agregado no médio prazo mais importante desencadeado pela Academia Sueca, independentemente da sua intenção – ao atribuir o Nobel a Hayek (1974), a Friedman (1976), a Stigler (1982), a Becker (1992) e ao próprio Lucas (1995) — foi a legitimação e o reforço da propaganda da escola de Chicago como corrente hegemónica do pensamento económico contemporâneo. A impressiva lista de Prémios Nobel sediados na Universidade de Chicago, ou com ela relacionados, reforçou extraordinariamente a credibilidade das teorias e práticas que acabaram por levar ao colapso dos mercados financeiros em Setembro de 2008. Assim, cabe também à Academia Sueca uma quota-parte de responsabilidade moral na propagação das falsas bases intelectuais que estão na origem da crise.
Neste contexto, ressoou largamente a pergunta-invectiva que a rainha Isabel de Inglaterra, em visita à London School of Economics, dirigiu aos economistas de todo o mundo: como foi possível não terem sido sequer capazes de perceber quaisquer sinais avisadores da crise explosiva que se avizinhava?
Raríssimos são os economistas de grande reputação que podem sobreviver a essa invectiva. Entre eles está, no reconhecimento geral, Robert Shiller – que denunciou oportunamente factores determinantes da grande desordem em que estamos e estaremos por largo tempo enredados.
De facto, Robert Shiller não assistiu sentado à revolução de paradigma que Chicago lançou com a aprovação, entusiástica ou apenas relutante, que caracterizou a maioria dos economistas. Com a excepção dos neokeynesianos e dos especialistas da psicologia aplicada à economia, renderam-se em massa ao magistério aguerrido dos teóricos das hipóteses de eficiência do mercado e das expectativas raciais. Isto é, ao paradigma do funcionamento autocorrectivo do mercado.
Pelo contrário, Robert Shiller, entre os fins das décadas 70 e 80, consagrou-se juntamente com Larry Summers, posteriormente penitente, como um dos mais eficazes críticos da hipótese de eficiência do mercado. Contrariando a sua proposição-chave – o preço de um activo reflecte, por si só, toda a informação determinante do seu valor intrínseco –, produziu uma série de trabalhos sobre volatilidade dos mercados que retiraram crédito à hipótese de Eugene Fama. Ficou célebre o juízo que emitiu a propósito do crash de Outubro de 1987: “A hipótese de eficiência do mercado é o erro mais notável na história da teoria económica”.
A Academia Sueca que pensa disto? Vive olimpicamente cega, surda e muda, em fuga premeditada à questão essencial subjacente à atribuição do Nobel de 2013. Belo exemplo de superior ética académica. É mais que tempo de ver que o rei vai nu.
 

Sem comentários:

Enviar um comentário