quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O estrangeiro nostálgico


Carregamos todos uma casa, somos a casa de uma casa que foi nossa e se transformou numa espécie de osso lascado, com restos de terra e formigas que vão e vêm, de um extremo ao outro, numa diligência maníaca, eu não sabia, mas os pormenores ainda me não tinham afastado dos rostos, eram somente uma intimidade que não sufocava, o pressentimento de um refúgio, uma pausa, para de novo partir, embora não soubesse que qualquer viagem é uma fuga, como também não sabia que qualquer palavra é o prolongamento da primeira, que se desvenda ou desdobra do nascimento à morte, e que nunca a poderemos calar, escrevemos, gritamos, amamos, destruímos, e tudo são sílabas que se juntam a essa palavra e a tornam cada vez mais incompleta, é uma loucura, falta-nos o ar mas prosseguimos, eu não sabia, talvez ainda o não saiba, porque na ânsia de acabar de dizer, na ânsia de uma pausa, torno a palavra mais estranha, como se este castanheiro  tão limpo, esta ribeira de água tão clara, este som de uma rã a mergulhar no charco, o trote do macho, as mãos ossudas do velho, tudo isto de uma nitidez tão perfeita, só acrescentasse névoa e desentendimento à imensa palavra da minha vida. Escuro. O escuro é o meu percurso. O Messias de Haendel, o poema de Celan, o quadro de Twombly, a fotografia de Nozolino, são peças negras desta cegueira a que chamam beleza. Só a lei e a ordem são claras. Como o poder. É preciso calá-las. Calá-lo.


Rui Nunes, Armadilha, Relógio D’Água, 2013, p.11-12.


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