terça-feira, 29 de outubro de 2013

O populismo e a Europa



Público, 20 de Outubro 2013

 

PONTO DE VISTA

 

Ainda o populismo anti-europeu: notícias de Itália

 

Análise

Jorge Almeida Fernandes

 

Enrico Letta, primeiro-ministro italiano, visitou Barack Obama e lançou um alarme: “O crescimento do populismo é hoje a principal questão politica e social da Europa”, declarou numa entrevista ao New York times (15 de Outubro). Os movimentos populistas europeus têm origens e características muito diferentes. É difícil dizer se são de esquerda ou de direita. Alguns são racistas e outros não, mas todos são anti-euro e anti-Europa. “Referiu em particular o exemplo italiano do movimento 5 Estrelas (M5S), do blogger Beppe Grillo. No dia seguinte, Grilho respondeu a Letta, lançando a pré-campanha para as eleições europeias de Maio. Parodiando a primeira linha do Manifesto Comunista de 1848, declamou no seu blogue: “Um fantasma paira sobre a Europa. É o voto nas próximas eleições europeias que poderá pôr fim à europa dos bancos e dos burocratas.” Fala numa #cruzada” contra o euro. “A Itália está em coma. É a explosão da nossa dívida privada, a prevalência do Banco Central Europeu sobre os nossos bancos e o regime do câmbio fico do euro que tornam insustentável a nossa dívida pública.” A adesão ao euro “fez com que os ajustamentos de competitividade sejam feitos à custa de trabalhadores, com a austeridade e o desemprego.”

Denuncia outros partidos como culpados ou cúmplices. “O M5S é o único no Parlamento a falar de soberania monetária e de vassalagem”. Descreve uma “Itália algemada sob tutela europeia”. Os grillini preparam-se para levar o PE “um vento não só anti-euro como anti Alemanha”, diz um analista.

São os mesmos temas de Marine Le Pen em França, embora não tenham as mesmas origens ideológicas. A Frente Nacional vem da extrema-direita. O mentor de Grillo, Gianroberto Casaleggio, sonha com um mundo sem parlamentos, governado pela democracia directa da Rede. Há outra diferença: Le Pen apela à saída da UE, Grillo quer “mais Europa e menos bancos”.

Face à Europa

Passou a era do “euro entusiasmo”. É patente nos estudos do Eurobarómetro e a Itália, tal como outros países em crise, é dos mais sensíveis. Um estudo do instituto Demo&PI, publicado no passado dia 12, permite dar um retrato actual da sensibilidade italiana.

A “confiança na UE” desceu de 56,8%, em 2000, para 33,5% em 2013. Em termos de área politica, a confiança é maior no centro-esquerda (48,7%) do que no centro-direita (33,6%), atingindo a quota mais baixa entre os eleitores de Grillo (26,1%).

Sem UE, a crise teria sido pior ou melhor? Pior para 43,5%, melhor para 23,4, “tudo na mesma” para 25,4%. Deve a Itália sair do euro e voltar á lira? De forma nenhuma”, respondem 53, 8%. E 15,7 aprovam “pouco” essa solução. Mas 30,5% concordam “muitíssimo” ou acham “muito” vantajosa a saída do euro.

Dentro de dez anos a Itália estará na UE? Sim, respondem 82,3%. E existirá o euro em 2023? Sim, respondem 79%. A aprovação da saída do euro é alta no centro-direita (41,3%) e no N5S (43,2%), mas mesmo assim minoritária. Do ponto de vista social, a “eurodesilusão” é maior entre operários, domesticas e desempregados.

O coordenador do inquérito Ilvo Diamanti, resumo: os italianos estão desiludidos mas não se converteram em eurocépticos. O eurocepticismo de Grillo, alimentado durante o ano passado por Berlusconi, é minoritário.

Há um outro fenómeno que produz incerteza na política. Nas eleições de Fevereiro, que se traduziram na ascensão de “grillismo”, as duas grandes coligações, centro-esquerda e centro-direita sofreram um rombo no seu eleitorado popular. Nas eleições de 2008, marcaram a última vitória de Berlusconi, o centro-esquerda obteve 39,1% do voto operário: em 2013, apenas 25,3%. O centro-direita, que obtivera 52,8, apenas atraiu 25.8 em 1013. Para onde f oram os votos operários? Para o M5S (40,1%).

Entre técnicos e funcionários, observou-se o mesmo efeito, embora com menos amplitude. A atração do M5S e do euroceticismo é mais forte entre os jovens. Uma curiosidade: a direita conservou a posição dominante no voto das domésticas e a esquerda no voto dos reformados. Em resumo: o voto popular não se deslocou da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda: mudou-se para o populismo “grillista”. Note-se que tanto o Partido Socialista francês como o Partido Democrático Italiano têm hoje uma base eleitoral dominante nas classes médias, sobretudo quadros, técnicos e funcionários públicos. Na França, o “maior partido operário” é a FN, de Marine Le Pen. Na França, a deslocação inicia-se no fim dos anos 1980. Na Itália, é mais tardia.

O factor “jovens”

A “desilusão com a Europa” não é alheia à desilusão com a política”, que é a rampa do lançamento do populismo. Na Itália há um factor muito sensível: os jovens e os precários.

Em 2001, dois economistas, Tito Boeri e Vincenzo Galasso, publicaram um livro cujo título diz tudo: Conto i giovani. Come l’Italia sta tradendo le nuove generezioni (Contra os jovens. Como a Itália está a trair as novas gerações).

“Assiste-se à maciça redistribuição dos recursos da geração dos filhos para a dos pais. Em pouco mais de dez anos, duplicámos a nossa divida publica e promovemos pensões de reforma generosas, não obstante à quebra da natalidade e o prolongamento da vida. “Sobre cada jovem recai um montante de dívida em exponencial crescimento. É a ruptura do pacto entre gerações.

A taxa de desemprego dos jovens de 18-25 anos atinge os 39%. A taxa de desemprego global está controlada, na casa dos 12%, graças ao crescimento do trabalho e à erosão dos salários. Mas é o país europeu em que um desempregado menos hipóteses tem de reencontrar um emprego.

Os sindicatos, que na Itália ainda são poderosos, constituem uma máquina de defesa dos que “já estão dentro” e dos reformados. Ao anunciar o seu projeto de reforma das leis do trabalho, em Fevereiro de 2012, Mario Monti frisou a necessidade de pôr termo “ ao terrível apartheid no mercado de trabalho entre os que que já estão dentro e os que, jovens, têm dificuldade em entrar. Pouco conseguiu.

O populismo não é irresistível. A sua primeira arma é a fraqueza dos adversários, quando eles são incapazes de fazer reformas.
 

Sem comentários:

Enviar um comentário