quarta-feira, 16 de outubro de 2013

'O preço da desigualdade', de Joseph Stiglitz


O Preço da Desigualdade

1-O pensamento económico neoliberal está de tal modo difundido e arreigado entre os cidadãos, ou, pelo menos, um vasto conjunto de autores sociais-democratas, ou à esquerda da social-democracia, assim o percepciona e diagnostica que muita da intervenção, sob a forma de ensaio político, por exemplo, por banda destes últimos, se destina, deliberadamente, a contrariar essas ideias (presumivelmente) prevalecentes/feitas. Títulos como 23 coisas que nunca lhe contam sobre a Economia, ou Não acredite em tudo o que pensa, para dar, apenas, dois exemplos, denunciam, logo na lombada, justamente, esta vaga.

2-Entre estes autores, que buscam desmontar o (que chamariam de) ludíbrio de teses apresentadas como factos da natureza, mas que são, em realidade, constructos ideológicos, destinados, democraticamente, ao contraditório, no mesmo terreno – isto é, na arena das ideologias -, a expressão ‘mitos’ passou a ser a moeda corrente para designar esse conjunto de posições (adversárias) que se propõem ‘desconstruir’.

3-Ora, a intervenção de Joseph Stiglitz, em O preço da desigualdade, pode, precisamente, enquadrar-se nesse vasto campo da ‘desmitologização da economia política’ que nos governa (o emprego reiterado, também nesta obra, do vocábulo ‘mitos’, explicitando em ‘forma de letra’ o que ‘materialmente’ se pode constatar ao longo de todo o roteiro proposto, neste livro, pelo Nobel da Economia 2001, assim o ratifica).
Claro está que sempre poderá afirmar-se que este tipo de enfoque garante a visibilidade das ideias contrárias aquelas que se pretendem promover; explicita como estes, ‘os mitos’, têm sido vitoriosos, ao longo dos anos/décadas mais recentes e, logo, não deixa de, objectivamente, na própria censura dos mesmos, punir a má estratégia/a incapacidade/a impotência dos que neles não creem, em torná-los secundários face a uma outra economia política possível (a referência são os últimos 30 anos, segundo um certo consenso que se depreende de tais livros; portanto, uma censura que traduz uma auto-crítica implícita); quando os autores, insertos em tal ‘corrente’, se multiplicam, acabam, por vezes, por cair na redundância – as mesmas limitações, os mesmos defeitos, a certos axiomas liberais, expostos/explorados à exaustão - e a abordagem tende a ser feita pela negativa – afinal, o elencar de um acervo programático que se rejeita.

4-Todavia, justiça se faça, não tem faltado, de Steve B. Reich a Joseph Stiglitz a dimensão propositiva. Aliás, a multiplicação de programas alternativos não deixa de ser um dos legados, paradoxais, de uma crise relativamente à qual se procurou, nem mais, encontrar um conjunto de soluções ditas únicas.

5-Por comparação com O paradoxo da globalização, dir-se-ia que o texto de Stiglitz cumpre, com maior acuidade, a necessidade/programa de uma linguagem susceptível de uma dada descrição do real (mais à esquerda), assente em categorias como “ricos” e “pobres”, claramente demarcada ao nível da “classe social” e de um “confronto” latente – os “99%” face ao “1%” - a esse nível, embora sem o levar às últimas consequências, nem, no limite, o preconizando – Stiglitz diz que uma redução das desigualdades, por exemplo, beneficiaria mesmo os de “topo”; tal redução seria benéfica para o “conjunto da economia”, acrescenta.
Quando se assinala que O preço da desigualdade cumpre a necessidade/programa ao nível da própria nomeação do real – à luz de uma determinada visão do mesmo, evidentemente – cura-se, aqui, de sublinhar o que Franco Cazzola – em O que resta da esquerda? – entende ter sido um dos factores de derrota, ou uma das derrotas, da esquerda ao longo dos últimos anos/décadas: a adopção de um dicionário unívoco, retirado de uma descrição (pretensamente asséptica) da realidade promovida por uma maioria (economicamente) neoliberal (maioria mediática, nomeadamente, capaz de passar um dado posicionamento político-ideológico ao conjunto da população), cuja vitória (ideológica) passava, também, pelo domínio da linguagem. Neste sentido, um vocabulário incapaz de traduzir as diferentes aspirações, interesses, demandas, de grupos diversos, em uma sociedade, contribuiria para obnubilar a existência dessa natureza conflitual que presidiria a opções diferenciadas e a impor, com(o) naturalidade, que, para utilizar a expressão de Stiglitz, o interesse dos “1%” fosse o interesse de todos.
Claro que o tipo de expressões utilizadas, como as vindas de citar, muito se ligam a um conjunto de movimentos que irromperam em distintas sociedades ocidentais, nos anos mais próximos, com o Occupy Wall Street, ou os Indignados à cabeça.
Nesta perspectiva, a linguagem, mais solta – e, pelo menos em parte, inorgânica – poderia, aqui, revestir, ou ser acusada de revestir, um cunho de tipo populista. Outros dirão, mas aí em uma leitura/interpretação mais engajada da produção ensaística que recorra a expressões como as sublinhadas, que a recuperação de vocábulos que nos tempos de maior fervor ideológico na segunda metade do século XX fizeram furor é anquilosada, incapaz de conquistar mentes e corações, ou, até, de descrever, adequadamente, o tempo presente.


(cont.)


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