quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O que é a arte?



De vez em quando, um pouco de neve funde no telhado da casa, e desenha-se uma telha, uma unha negra. Uma estria. Ou. Por entre os abetos, a branca oscilação da paisagem. Descrevê-la. Sobrepor uma descrição a outra, num movimento ininterrupto. E assim atingir o nódulo, o núcleo. Voltar obsessivamente: eis o único modo de possuir. Ou melhor, de estar próximo. De tocar uns dedos. Uma cor. Um som. Essa viagem faz-se através de uma ausência, de todas as ausências: da língua, da pátria, do amor, do afecto. Há um objecto que nos come com a voracidade de uma aprendizagem. Não o podemos sequer chamar. Mas o medo que o envolve, com os pequenos sinais de aproximação, chama-se. Verdade? beleza? o outro? Qual?


Rui Nunes, Armadilha, Relógio D’Água, 2013, p.12-13.


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