sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Quem segue viagem é meu companheiro



As palavras estão presas a milhares de outras palavras, canso-me tanto de as ouvir, de as dizer, mas como não tenho deus nem causa, nem geração nem casa, é por elas que terei de continuar, procurando, não sei bem o quê, afinal uma luz que não encontra objecto mostra a sua própria fome? Só há dois caminhos: ou abandono-me ao caos de uma guerra ou, por entre, rasgo, corto, disseco, vou mostrando, uma hesitação, um desconhecimento, um retorno, vou desmantelando cada rosto, cada rosa, cada esboço de um sentido único, a armadilha de um riso, vou, porque a deriva é inexpugnável porque, o medo leva-nos ao vício de uma meta, de uma rua ou de uma porta, talvez na estepe, onde o vento caótico rasga no pó uma fresta, ou nos vultos que se apagam em vultos, ou nas pequenas explosões de um galope, ou uns segundos numa aldeia de adobe, sob um sol ressequido, talvez aí, aqui?, nenhuma palavra, nenhum uivo, nenhuma paragem, nada do que encaminha, nada do que constrói, nada, este deserto mergulha no deserto até ao deserto, como quem diz: o pó encontra o pó, a areia encontra areia, e os cavalos estão presos ao mundo pelo ruído dos seus cascos, talvez aí, aqui, neste lugar sem coordenadas, nesta desordem, um gesto, uma palavra, uma cor, nasçam sem arrimo nem vigilância, incompletos esperem que outro gesto, outra palavra, outra cor, acrescentem fragilidade à fragilidade, hesitação à hesitação, e assim reconduzam um esboço à plenitude de um esboço maior

Rui Nunes, Armadilha, p.21-22.
 
 

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