sábado, 5 de outubro de 2013

Richard Feynman (III)


              Richard FEYNMAN, O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de… Prefácio de Freeman DYSON, Gradiva, Lisboa 2006


"mostrou isto e aquilo, podem perguntar «como é que a ciência o mostrou, como é que os cientistas descobriram ­ como, o quê, onde?». Não foi a ciência que mostrou, mas esta experiência, este efeito. E tem tanto direito como outra pessoa qualquer, após ouvirem as experiências (mas temos de ouvir toda a evidência), de julgar se se chegou a uma conclusão reutilizável.
Num campo que é tão complicado que a verdadeira ciência não é capaz de chegar a lado nenhum temos de confiar numa espécie de sabedoria antiquada. Estou a ten­tar inspirar o professor da base a ter alguma esperança e alguma autoconfiança no senso comum e na inteligência natural. Os especialistas podem estar errados.
Provavelmente, arruinei o sistema e agora os estudantes que forem para Caltech já não serão bons. Penso que vive­mos numa era não científica em que quase todas as comunicações, livros, etc., são não científicos. Isso não quer dizer que sejam maus, mas são não científicos. Como resultado, há uma quantidade considerável de tirania inte­lectual em nome da ciência.                                  
Finalmente, no que respeita a este time-bending, um homem não pode viver para além da sepultura. Cada geração que descobre algo a partir da sua experiência deve transmiti-lo, mas fazê-lo com um equilíbrio delicado de respeito e desrespeito, de modo que a raça (agora que está alerta para a doença que a atinge) não inflija os seus erros de forma demasiado rígida na sua juventude, mas transmita a sabedoria acumulada, mais a sabedoria que talvez não seja sabedoria.
É necessário ensinar tanto a aceitar como a rejeitar passado com um equilíbrio que requer qualidades consideráveis. A ciência, a de todos os assuntos, contém em si própria a lição do perigo na crença da infalibilidade dos grandes professores da geração anterior.
Por isso continuem.

….
 
Então tivemos os resultados das experiências do Lamb[1] e do Rutherford[2] nos desvios de energia do eletrão dos átomos de hidrogénio. Até aí a previsão grosseira tinha sido o suficiente, mas agora havia um número muito pre­ciso: 1060 megaciclos, ou lá o que era. E toda a gente disse «que diabo, este problema tem de ser resolvido». Sabia-se que a teoria tinha problemas, mas agora havia mesmo este número muito preciso.
E, assim, o Hans Bethe pegou neste número e fez umas estimativas para evitar as infinidades, subtraindo este efeito daquele, de modo que as quantidades que tendiam a ir para o infinito eram interrompidas e, provavelmente, ter­minariam nesta ordem de magnitude, aparecendo com algo como 1000 megaciclos. Lembro-me de que ele tinha con­vidado uma série de gente para uma festa na sua casa, em Cornell, mas, entretanto, tinha sido chamado para fazer uma consultoria fora. Telefonou durante a festa e disse-me que tinha descoberto  no comboio. Quando voltou, deu uma palestra sobre o assunto e mostrou como este procedi­mento de corte evitava as infinidades, mas era ainda tudo muito ad hoc e confuso. Ele disse que seria bom se alguém pudesse mostrar como é que podia ser limpo. Fui ter com ele depois e disse «oh, isso é fácil, eu posso fazer isso». Vê, é que eu tinha começado a ter ideias sobre isto quando estava no MIT. Nessa altura até tinha cozinhado uma res­posta - errada, e claro. Vê, isto é onde o Schwinger, o Tomonaga e eu entramos, no desenvolvimento de um modo de transformar este procedimento em análise sólida - tec­nicamente, para manter a invariância relativistica durante todo o caminho.

(...) 

A relação da ciência com a religião

As heranças da civilização ocidental

A civilização ocidental, parece-me, tem duas grandes heranças. Uma é o espírito científico de aventura - a aven­tura no desconhecido, um desconhecido que deve ser reco­nhecido como tal de modo a ser explorado; a exigência de que os mistérios não solucionáveis do universo permane­çam sem resposta; a atitude de que tudo é incerto; para sintetizar, a humildade do intelecto. A outra grande he­rança é a ética cristã - a base da acção no amor, a irman­dade de todos os homens, o valor do individuo -, a humildade do espírito.          
Estas duas heranças são, logicamente, fortemente con­sistentes. Mas a lógica não é tudo; é preciso um coração para seguir uma ideia; se as pessoas estão a voltar para a religião, para que estão a voltar? Será a igreja moderna um lugar para dar conforto a um homem que duvida de Deus,  mais, que não acredita em Deus? Será a igreja moderna um lugar para dar conforto e encorajamento ao valor dessas dúvidas? Até agora não conseguimos a força e o conforto para manter uma ou outra destas heranças de um modo que ataca os valores da outra? Será isto inevitável? Como é que podemos conseguir inspiração para manter estes dois pilares da civilização ocidental de modo a permanecerem juntos, com todo o vigor e sem receios mútuos? Não será este o problema central do nosso tempo? Coloco-o ao painel para discussão.


(conclusão)
 


[1] Willis Lamb (1913-),  prémio  Nobel da Física de 1955 pelas suas descobertas acerca da estrutura fina do espectro do átomo de hidrogénio.
[2] Ernest Rutherford, 1.° barão Rutherford de Nelson (1871-1937), físico britânico nascido na Nova Zelândia, que fundou a física nuclear.
 

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