domingo, 6 de outubro de 2013

Romano Guardini e 'o espírito da liturgia' (II)




Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.



Qual é o sentido do que é? Ser, e por isso mesmo ser um reflexo do Deus infinito. E qual é o sentido do que vive? Viver e por isso mesmo manifestar a sua natureza essencial e desdobrar-se como revelação natural do Deus vivo.
Estas considerações aplicam-se à ordem da natureza e também à vida do espírito. Será lícito afirmar no sentido rigoroso do termo que a Ciência tem um fim prático? Não é. O pragmatismo pretende dar-lhe um, e seria o aperfeiçoamento moral do homem. Mas procedendo assim ignora a independência e a dignidade do Conhecimento. A Ciência não tem fim prático mas tem um sentido um sentido que estriba em si mesmo e que se chama: o Vero.
A actividade legisladora duma assembleia, dum parlamento, tem um fim prático que consiste em procurar um resultado determinado e preciso na vida do Estado. Mas a jurisprudência não conhece fim deste género; o seu único objectivo é o conhecimento do Vero no terreno das questões de Direito. Outro tanto sucede com qualquer Ciência autêntica a qual por sua essência não é mais do que Conhecimento e serviço do Vero.
Por seu lado a Arte também não conhece fim prático. Ou dir-se-á que só ambiciona fornecer ao artista meios de se alimentar e vestir? Ou então como pensavam os homens da Aufklärung, a sua missão limita-se a ensinar a virtude e a se tornar por meio da imagem auxiliar da inteligência? Não. A obra de arte não conhece utilidade nem fim prático, mas tem um sentido que consiste em ser (ut sit) e em que nela a essência das coisas e a vida íntima do artista e da alma humana se projectem numa forma sincera e depurada. Contenta-se com ser o reflexo de beleza do Vero, "splendor Veritatis".
Se a vida chega a perder de vista a ordem firme das finalidades práticas, bem depressa degenera no diletantismo e suas frivolidades. Se a submeterem à golilha rígida do utilitarismo, morre. Os dois princípios esteiam-se mutuamente. A utilidade é o alvo do esforço e do trabalho; o sentido é o conteúdo da vida, da vida em flor e em eflorescência. Os dois pólos do Ser são: Utilidade e Sentido, Esforço e Crescimento, Trabalho e Produção, Ordem e Criação.
Esta dualidade fundamental, encontramo-la na vida da Igreja.
Primeiramente, o imponente e forte arcaboiço dos fins práticos incarnado no direito canónico, na constituição e administração da Igreja. Tudo, aqui, são meios que convergem para um fim único: a marcha regular do imenso mecanismo que a administração eclesiástica representa. O ponto de vista central, do qual são aqui julgados os estatutos e instituições da Igreja, é essencialmente prático: esta instituição, este estatuto servem ou não eficazmente a obra de conjunto, servem-na com o desgaste mínimo de forças e de tempo? Nesta imensa organização do trabalho domina o espírito prático e positivo.
Mas há outro lado da vida da Igreja, outro domínio em que ela nos aparece sumamente emancipada do critério de utilidade. Este domínio chama-se: a liturgia. Sem duvida, também aqui damos fé de fins práticos que de algum modo formam como que o arcaboiço do edifício. Assim, por exemplo, os Sacramentos têm a missão de nos comunicar graças determinadas. Mas esta missão, tomada estritamente, pode ser desempenhada muito sumariamente, muito brevemente. O aspecto que reveste a dispensação dos Sacramentos, quando administrados pelo sacerdote em caso de urgência, oferece-nos uma imagem exacta do acto litúrgico reduzido às únicas linhas do fim útil.
Pode igualmente ser justo dizer que cada gesto, cada oração da liturgia visa o fim de desenvolver a espiritualidade do fiel.
Tudo isto é verdade.
No entanto, não encontramos na liturgia método de formação moral, nem plano moral determinado e consciente. Para bem ver isto, basta comparar o desenrolar duma semana do ano litúrgico com os Exercícios espirituais de S. Inácio. Nestes últimos tudo é minuciosamente, metodicamente pesado; tudo, orientado para um resultado educativo e psicológico determinado; tudo - cada exercício, cada oração, até a natureza particular das pausas e suspensões na oração - tudo converge para um alvo único que é a conversão da vontade.
Quão diferente o quadro que nos oferece a liturgia! Assaz significativo é o facto de a liturgia não ter nenhum lugar nos exercícios espirituais. Também ela, sem dúvida, se propõe formar a alma, nunca porém servindo-se dos meios dum método educativo deliberado, progressivo e calculado; contenta-se com criar, dando-lhe toda a medida de perfeição possível, uma atmosfera espiritual em que a alma possa crescer e desenvolver-se.
(cont.)
 
 

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