domingo, 13 de outubro de 2013

Romano Guardini e o "espírito da liturgia" (III)



Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.
 
 
A diferença é a mesma que existe entre a antiga palestra, onde cada movimento, cada instrumento, é calculado, e a floresta livre, os espaços livres da planície, onde o homem vive e cresce na Natureza e com ela, em ligação com ela. A liturgia cria um vasto mundo animado interiormente pela circulação da mais abundante e mais rica espiritualidade e dá liberdade à alma para aí se mover e desdobrar. A abundância de orações, de actos, de pensamentos, o enquadramento cronológico do ano, a complicação do calendário, etc., tudo isto se torna incompreensível, se o submetermos apenas ao critério da utilidade rigorosa. A liturgia não conhece fim útil" ou pelo menos não pode ser compreendida nem abarcada do só ponto de vista do fim "útil". Não é meio que se empregue para alcançar objectivo determinado. O seu fim - ao menos até certo ponto - é ela própria. Segundo o sentimento da Igreja, a liturgia não deve ser considerada como verdadeira fase, como caminho para um termo situado fora dela, mas sim como um mundo de vida que estriba sobre si mesmo. Isto é importante. Por falta de bem o compreender, esforçamo-nos por encontrar na liturgia toda a sorte de intenções formativas e educativas, que de algum modo nela podem ser introduzidas, mas que lá não estão primitivamente.
Na verdade, há uma razão primeira e capital em virtude da qual a liturgia não pode conhecer fim útil; é que a sua razão de ser é Deus e não o homem. Na liturgia o homem concentra o olhar, não em si, mas em Deus. Não pensa em se formar ou aperfeiçoar; mas todo se volta para o esplendor de Deus. O sentido da liturgia, para a alma, consiste em estar diante de Deus, em desabafar livremente na sua divina presença, em viver no mundo sagrado das realidades, das verdades, dos mistérios e dos sinais divinos, em viver a vida de Deus, que é simultaneamente a vida própria do cristão, vida verdadeira e profunda.
Lemos na Escritura dois passos de notável profundidade que ilustram de maneira definitiva esta questão. O primeiro encontra-se na visão de Ezequiel. Pôr-se-á a questão do "fim útil" para aqueles querubins de fogo que " vão para onde o Espírito os impele... que se não voltam para trás enquanto andam... que vão e vêm como o relâmpago... que vão... e param e se levantam da terra... cujo bater das asas se assemelha ao ruído das torrentes... cujas asas baixam logo que se detêm"? O exemplo destes querubins não deveria desanimar os nossos modernos zeladores, sempre e em toda a parte à espreita do fim útil? Eles são movimento, puro movimento, magnífico e potente movimento, que se desdobra consoante o Espírito o anima e impele,—movimento que não pretende ser mais do que a expressão do Sopro do Espírito, a revelação exterior da Chama e da Força interiores.
Eis a imagem viva da liturgia.
 
(cont.)
 
 

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