domingo, 20 de outubro de 2013

Romano Guardini e "o espírito da liturgia" (IV)



Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.



O outro passo, encontramo-lo nos lábios da eterna Sabedoria. "Cum eo eram cuncta componens: et delectabar per singulas dies, ludens coram eo omni tempore; ludens in orbe terrarum".
Temos aqui as palavras decisivas. O Pai encontra a sua alegria e delicias na contemplação do Filho, Plenitude perfeita do Vero, e abre livremente aos olhos dele, numa expressão de inexprimível beleza, este infinito tesouro, numa pura beatitude de vida, sem nenhum "intuito útil" mas com a mais definitiva plenitude de sentido: o Filho brinca diante do Pai.
Outro não é o sentido da vida dos seres perfeitos que são os Anjos: contentam-se com se mover sob o olhar de Deus sem finalidade, como o Espírito os impele, unicamente para serem, na Sua presença, um Jogo, um Canto vivo.
Na terra, duas coisas nos oferecem uma imagem desta sublime "inutilidade": o jogo da Criança e a criação do Artista.
No jogo e pelo jogo, a criança não se propõe alcançar um fim; só pretende manifestar a sua força rudimentar, desafogar livremente a sua vida sob a forma de movimentos, de palavras e de gestos que não visam nenhum fim positivo. O seu único objectivo e dilatar-se, desenvolver-se, tornar-se cada vez mais plenamente o que é.
Toda esta espontaneidade e liberdade de gestos não conhece nenhum fim útil, mas está repleta de sentido profundo, que é, para aquela vida em botão, revelar-se livremente pela palavra, pelo movimento e pela acção, tomar plena e total posse do seu ser, mais simplesmente e numa só palavra: existir. E porque esta vida em princípio não busca nem se propõe coisa alguma, porque se contenta com abrir-se e desabafar sem entraves, a sua "expressão", a sua tradução externa é naturalmente harmoniosa e incarna na beleza límpida da forma. O seu gesto faz-se espontaneamente ritmo, dança e imagem, rima, harmonia e canto. Tal é igualmente a essência do Jogo: Vida que se desafoga livremente e sem finalidade, que toma posse da sua plenitude, carregada e saturada de sentido pelo só e simples facto da sua existência. E este Jogo é belo quando lhe deixam toda a sua liberdade, quando a loucura dos métodos e das pedagogias não vem perturbá-lo e introduzir nele intenções que falseiam e alteram a sua sinceridade.
No entanto, a vida desenrola-se; começam as lutas e os combates; entrou na existência humana um elemento de conflito e, com ele, um elemento de fealdade. O homem tem diante dos olhos o objectivo do que quer ser e também do que deve ser. Este ideal, tenta ele realiza-lo e torna-se então cônscio da imensa resistência que a vida opõe ao seu esforço. Sabe quão raro e excepcional êxito representa para a criatura o facto de ela ser o que quereria e deveria ser.
Este conflito entre o seu sonho e a realidade, experimentará resolvê-lo noutro plano, noutra ordem, no reino irreal da imaginação: na Arte
 
(cont.)
 
 

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