domingo, 27 de outubro de 2013

Romano Guardini e "o espírito da liturgia" (V)



Aqui, esforça-se por criar a unidade entre o que deseja e o que possui; entre o que deveria ser e o que é; entre a sua alma e a Natureza; entre o corpo e o espírito. Tais são as formas e as imagens a que a Arte dá origem, e que não se propõem nem ensinar, nem moralizar. Nunca um artista verdadeiro teve diante dos olhos um objectivo didáctico ou ético. Na arte ele só busca a solução do conflito íntimo que o corrói, só ambiciona trazer ao mundo da representação, à luz clara da expressão plástica, a vida superior que entrevê em sonho e de que a realidade lhe não oferece senão uma aproximação. Não pretende outra coisa que não seja libertar, exteriorizando-os, o seu ser e o seu sonho, senão projectar a exterior, na forma, a verdade interior. E, por seu turno, o espectador não deve, diante duma obra de arte, desejar senão descansar nela, respirar nela, mover-se livremente nela, nela tomar consciência do melhor de si mesmo, e entrever nela o cumprimento e a realização da sua mais íntima nostalgia. Nunca deve buscar nem ensinamento nem matéria de edificação ou de reflexão.
Muito mais ainda do que a Arte faz a liturgia, pois oferece ao homem a possibilidade e a ocasião de realizar verdadeiramente - levado pela Graça - a sua essência, de ser plena e totalmente o que deve ser, se é fiel ao seu destino divino: "filho de Deus". Na liturgia pode diante de Deus "alegrar-se da sua juventude". Há, aqui, decerto, algo de sobrenatural mas que, justamente pelo carácter de sobrenatural, responde ao mais íntimo da nossa natureza. E, porque esta vida é mais elevada do que a que pode projectar-se na realidade quotidiana, tira as harmonias e as formas, que lhe correspondem, ao único domínio onde as encontra: à Arte. Ela fala pela voz da melodia ou do ritmo; move-se com gesto lento e hierático; veste-se de cores e de vestes que não pertencem à vida habitual; escolhe, para se realizar, datas e locais, ao arranjo e estrutura dos quais presidiram leis superiores. No sentido mais elevado do termo, é uma vida de criança na qual tudo e imagem, dança e canto.
Eis pois a magnífica realização que a liturgia nos oferece: a Arte e a Realidade conciliadas e fundidas na Infância da Sobrenatureza sob os olhares de Deus. O que até ao presente não tínhamos encontrado senão no reino do irreal, no mundo da representação artística, a saber, a forma estética convertida em tradução expressiva da vida humana - transmudou-se agora em realidade.
Mas esta vida nova tem de comum com a da Criança e com a da Arte, o não estar dependente de nenhum critério utilitário. Em compensação está inteiramente repleta do mais profundo sentido.
Não é trabalho, é jogo.
Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia.
 
(cont.)
 
 

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