terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Europa e o futuro



Visão

Ensaio


página 32


Viriato Soromenho Marques


O que pensam os europeus?

 

De vez em quando as agências noticiosas dão conta de inquéritos de opinião, independentes, que quase passam despercebidos, efectuados em toda a União Europeia (UE), sobre as questões que colocam os governos em rota de colisão com os seus povos. Em Maio deste ano, o Pew Research Center realizou um inquérito em vários países europeus, visando medir o grau de adesão dos diferentes eleitorados à Zona Euro (ZE). Surpreendentemente para muitos observadores, apesar da duríssima austeridade a maioria esmagadora da população quer que os seus países nela continuem. A Grécia está em primeiro lugar, com 69%, seguida da Espanha, com 67%, e da Alemanha, com 66%, Na Espanha e na Itália, a opinião favorável ao euro cresceu entre 2012 e 2013. Dia 2 de Outubro, o instituto Gallup divulgou outro inquérito, ainda politicamente mais sensível, sobre o balanço da austeridade. Interrogados sobe se a austeridade está ou não a dar os resultados prometidos, 51% dos inquiridos disseram que não está. Apenas 5% concordaram com a situação desta via dolorosa. Nos países fustigados pela austeridade, os respondentes cépticos em relação ela escalam para 94% dos gregos, 81% dos portugueses, 80% dos espanhóis. Mas, mesmo na Alemanha, 50% considera existirem outras opções melhores do que a austeridade, enquanto 25% não concebe outro caminho.

Diagnósticos e Terapias - Mas o mais surpreendente é verificarmos que a desconfiança dos povos europeus no sistema bancário é absolutamente esmagadora. Curiosamente, Portugal é o campeão das atitudes mais favoráveis do público em relação à banca: 40% confia nos bancos, contra 54% que desconfia. Até os alemães temem mais os bancos do que os portugueses: 37% contra 62%. A desconfiança eleva-se para 87% em Espanha, 84% na Irlanda ou 80% na Grécia. É impossível não destacar o consenso dos cidadãos europeus em relação à origem a crise em que estamos mergulhados: ela foi causada pelos abusos dos sector financeiro, o que, na Europa, é quase sinónimo de sector bancário. O cidadão comum, em todos os países da UE, não parece engolir a narrativa dos "Estados que viveram acima das suas possibilidades", usada como desculpa para a austeridade. Na verdade, a cumplicidade e a promiscuidade entre governos e bancos são intensas, o que, aliás, explica a ausência total de regulação eficaz, como se viu na queda da Irlanda, no Bankia em Espanha, no Paschi em Itália, e nos casos BPN e BPP em Portugal.

A reforma dos tratados - A única maneira segura e estrutural de fazer sair a Europa da crise será a da reforma profunda dos Tratados, construindo as instituições de um federalismo republicano e constitucional à escala europeia. Mas, se os governos escutassem a dor dos seus povos, em vez dos interesses da pequena elite do poder financeiro, mesmo sem mudar poderiam ser tomadas medidas que aliviariam a austeridade, e que, ao contrário desta, estariam predestinadas a ter sucesso. Por exemplo, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), na linha de uma sugestão já antiga de George Soros, poderia receber uma licença bancária. Em vez de ir buscar os seus fundos aos mercados mediante emissões obrigacionistas, com garantia dos Estados da ZE (incluindo Portugal), o MEE irá buscar o dinheiro ao BCE, à mesma taxa de referência oferecida à banca comercial. As garantias poderiam ser as mesmas oferecidas aos credores obrigacionistas, caindo as taxas de juro para 0,5%. Com isso, o alívio na despesa anual com juros permitiria realizar as reformas estruturais, num quadro constitucional, ao mesmo tempo que aliviaria o impacto da austeridade sobre a procura interna, contribuindo para o desenvolvimento económico. Contudo, as enormes vantagens desta solução prejudicariam o mito sacrossanto da desvalorização interna como via para a competitividade, e lesariam os lucros da especulação com a dívida pública. Razão tinha Henry Ford quando afirmava que se o povo percebesse como funcionava o sistema monetário e bancário, aconteceria uma revolução antes do amanhecer do dia seguinte.


Sem comentários:

Enviar um comentário