quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CDU/SPD: ponto da situação de uma coligação para a qual a Europa olha


O problema é que, de Berlim, não chegam grandes notícias. Os sociais-democratas já conseguiram o salário mínimo, abdicando de grandes aumentos nos impostos dos mais ricos. Preparam-se para abdicar do Ministério das Finanças, que deverá manter-se nas mãos de Wolfgang Schäuble, mas ainda não se sabe ao certo com que pastas ficarão. Provavelmente e como da praxe Frank-Walter Steinmeire voltará aos Negócios Estrangeiros, onde já esteve na primeira grande coligação com a CDU, em 2005.
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Nas duas questões fundamentais que estão à espera do novo governo alemão, União Bancária e a União Orçamental, a chanceler e o seu ministro das Finanças continuam irredutíveis.
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A Alemanha continua a arrastar os pés. Os sociais-democratas já terão cedido nesta matéria, que é fundamental para que o crédito chegue aos países do Sul em condições pelo menos aproximadas das que usufruem os do Norte. Nenhuma economia do Sul conseguirá crescer a sério sem que este problema crucial seja resolvido. A chanceler prefere pôr a tónica no investimento que deve ser canalizado para esses países.
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Só um cego não veria o risco brutal que esta realidade comporta para as democracias europeias.
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A Europa, com esta geração perdida, está a brincar com um fogo que terá dificuldade em apagar.
A segunda questão a que os sociais-democratas deram alguma importância passa por medidas que vão no sentido da mutualização mais ou menos parcial da dívida dos países do euro. Os países do Sul em maiores dificuldades estão asfixiados pelo peso da dívida. O SPD já foi a favor de um “fundo de redenção” para a dívida superior aos 60 por cento fixados no Tratado, que foi uma sugestão dos economistas que aconselham o Governo alemão. Mas o que vai chegando de Berlim é que, também aqui, os sociais-democratas se preparam para recuar.
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A ideia de que é preciso compensar os países que sejam afectados por choques assimétricos aos quais não podem responder porque perderam os instrumentos de desvalorização da moeda e de aumentar o Orçamento está a fazer o seu curso. Pode ser uma espécie de orçamento da zona euro (que já veio referido nas conclusões da penúltima cimeira europeia). Mas é apenas uma hipótese.
Entretanto, estamos todos à espera da ‘grande coligação’. Há ainda uma esperança de que alguma coisa mude. Se não, o risco que todos corremos é, um dia destes, ver instalar-se uma crise política e social em muitos países europeus de tal ordem que alguma coisa terá de ser feita.
Até lá só nos resta fazer figas. Mesmo que seja com muito pouca convenção.

Teresa de Sousa, À espera de Godot, Público, 10/11/13, p.52.  




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