domingo, 3 de novembro de 2013

Clássicos: Jovens turcos, o positivismo presumido, o cientismo arrogante


Delicioso.




- Ele vai dissecá-las – disse Pável Petróvitch. – Não acredita em princípios, mas nas rãs acredita.
(…)
- E em que é que hei-de acreditar? Dizem-me uma coisa, eu concordo, e nada mais.
(…)
- Um bom químico é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta – interrompeu Bazárov.
- Ora vejam – proferiu Pável Petróvitch e, como se estivesse a adormecer, ergueu ligeiramente as sobrancelhas. – Portanto, não dá valor à arte?
- A arte de acumular dinheiro, ou de acabar com as hemorróidas!
(…)
- Portanto, o senhor rejeita tudo? Admitamos. Acredita portanto apenas na ciência?
- Já lhe afirmei que não acredito em nada; e o que é a ciência – a ciência em geral? Existem ciências, assim como existem ofícios, patentes; mas a ciência em geral é coisa que não existe.
(…)
- Sim – disse ele, sem olhar para ninguém -, é mau viver assim cinco anos no campo, afastado das grandes inteligências! Fica uma pessoa mais parva que os parvos. Esforçamo-nos por não esquecer aquilo que nos ensinaram, e de repente – zás! – descobrimos que tudo isso são tolices, e dizem-nos que as pessoas sensatas já se não ocupam dessas bagatelas, e que nós não passamos de uns simplórios atrasados. Que fazer? Pelos vistos são mesmo mais inteligentes do que nós.
(…)
- Tu trataste-o com demasiada rudeza – observou Arkádi. – Ofendeste-o.
- Sim, vou agora mimar estes aristocratas provincianos! Tudo isto é apenas amor-próprio, hábitos leoninos, fatuidade!
(…)
- A educação? – retrucou Bazárov. – Cada pessoa deve educar-se a si mesma, nem que seja como eu, por exemplo…E quanto ao tempo, porque hei-de eu depender do tempo? Antes dependa ele de mim. Não, meu caro, tudo isso é desleixo, futilidade! E que são essas relações enigmáticas entre o homem e a mulher? Nós, os fisiologistas, sabemos que relações são essas. Tu estuda a anatomia dos olhos: onde ir buscar aqui, como tu dizes, um olhar enigmático? Tudo isso é romantismo, disparate, literatura. É melhor irmos ver o escaravelho.


I.Turguéniev, Pais e Filhos, p.30-40.


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