domingo, 3 de novembro de 2013

Colmatar lacunas, ler clássicos


Estes considerandos foram motivo próximo para aproveitar o fim-de-semana e me dedicar a um dos vários clássicos em falta.


É no capítulo V, de Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev:

- O que é o Bazárov? – Arkádi riu-se. – o tio quer que eu lhe diga o que ele é precisamente?
- Faz-me o favor, sobrinho.
- É um niilista.
- Como? – perguntou Nikolai Petróvitch, enquanto Pável Petróvitch ergueu a faca no ar com um bocado de manteiga na lâmina e ficou imóvel.
- Ele é um niilista – repetiu Arkádi.
- Niilista – disse Nikolai Petróvitch. – Isso vem do latim nihil, nada, tanto quanto julgo saber; portanto, essa palavra significa um homem que…que não reconhece nada?
- Diz antes que não respeita nada – disse Pável Petróvitch, e voltou a barrar a manteiga.
- Que encara tudo de um ponto de vista crítico – observou Arkádi.
- E isso não é a mesma coisa? – perguntou Pável Pétrovitch.
- Não, não é a mesma coisa. Niilista é um homem que não se curva perante nenhuma autoridade, que não tem fé em nenhum princípio, seja qual for o respeito que rodeia esse princípio…
- E então, isso está certo? – interrompeu Pável Pétrovitch.
- Depende de cada um, tio. Há quem ache bem, e há quem ache muito mal.
- Ora essa. Bem, estou a ver que isso não é coisa para nós. Nós, pessoas da velha geração, achamos que sem princípios (Pável Pétrovitch pronunciou esta palavra suavemente, ao modo francês; Arkádi, pelo contrário, pronunciou «princípios» acentuando a primeira sílaba), sem princípios assumidos, como tu dizes, com fé, não se pode dar um passo, nem respirar. Vous avez changé tout cela, Deus vos dê saúde e o posto de general, enquanto nós ficaremos a admirar-vos, senhores…como é?
- Niilistas – pronunciou Arkádi claramente.
- Sim. Antes havia os hegelianistas e agora temos os niilistas. Veremos como conseguirão vocês viver no vazio, no espaço sem ar, e agora, por favor, toca a companhia, irmão Nikolai Petróvitch, são horas de beber o meu cacau.


I.Turguéniev, Pais e Filhos, Relógio D’Água, Lisboa, 2010, p.28-29.


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