sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dar



Miguel ESTEVES CARDOSO, Benemérita adorada, Público, 01. 11. 2013, 47



Dar, pedindo que não se agradeça, é a maior das ofertas. Oferecer, no bom sentido da bondade, é dar a outros aquilo que nos fará falta ou que mais bem faremos guardando.
Temos uma amiga, que conhecemos pelos livros dela, que lemos avidamente e pelas cartas que nos escreve e que, apesar de não nos conhecermos fisicamente, conhecemos melhor do que muitos dos nossos amigos conhecidos. Vivemos numa idade de pedidos, trocas, chantagens, prepotências e abusos de todas as espécies. Faltando o dinheiro, as transações passam a ser de favores descaradamente pedidos. Nunca houve um comércio tão desavergonhado de cunhas. As amizades converteram-se em privilégios. As pessoas telefonam-se e visitam-se como quem compra e paga. O cravar tornou-se respeitável.
Anteontem recebemos uma caixa de mimos (plantas por plantar e secar; figos lavados em sal e azeite, para rechear de amêndoas incluídas) dessa nossa mesmo querida amiga, muitas vezes mencionada por mim, que pediu claramente (com aquela sabedoria, erudição e simplicidade de quem sabe do que fala e dá) que não falasse dela. E que não a mencionasse, para não a envergonhar. Não digo o nome nem revelo a dádiva, cheia de pormenores gloriosamente habituais do povo algarvio e, logo, mais (ou menos) português da maneira mais gloriosa que há. Dar por dar, sem procurar agradecimento, faz chorar. Cada lágrima é bem-vinda. É um prazer ficarmos tão comovidos. Receber é uma sorte. Dar é um milagre: obrigados!

 

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