sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Escassez



Joana GORJÃO HENRIQUES, (entrevista) Eldar SHAFIR, A Pobreza é uma Ditadura do Cérebro, Público 2 (Domingo), 03. 11. 2013, 36-38.

 
Toma conta do nosso cérebro, diminui as nossas capacidades mentais e afunila a nossa perspectiva. Não interessa se falamos da escassez "dos ricos" (o tempo) ou da escassez "dos pobres" (o dinheiro). A escassez, ou seja, ter menos do que aquilo que sentimos que precisamos, muda o nosso comportamento e a forma como pensamos. Tem ainda um efeito de círculo vicioso: escassez gera mais escassez, o que explica por que as pessoas pobres ou hiperocupadas têm dificuldade em sair da "armadilha". Ficam mais propensas ao erro, à falha: falha no cumprimento dos prazos, falha nos pagamentos.
Esta é a tese do livro e estudo Scarcity: Why Having Too Little Means So Much (qualquer coisa como "Escassez: porque ter muito pouco significa tanto") - de Sendhil Mullainathan, economista na Universidade de Harvard, e Eldar Shafir, professor de Psicologia Cognitiva na Universidade de Princeton - publicado recentemente nos Estados Unidos, e com edição em Portugal pela Lua de Papel prevista para Março de 2014.
Uma das razões por que a escassez de dinheiro e de tempo tem características comuns é o facto de criarem uma mentalidade, a "mentalidade da escassez", e isso explica os comportamentos e consequências que provocam: quando toma conta de nós, sem que o possamos controlar, afunila a nossa visão e torna-se o único centro de atenção, fazendo com que negligenciemos outras componentes da vida. Torna-nos, na expressão dos autores, míopes. Enquanto estamos focados nas compras de supermercado, esquecemo-nos de que temos de guardar dinheiro para a renda mensal; enquanto estamos absorvidos pelo deadline de amanhã, esquecemo-nos de preparar o trabalho da semana seguinte; e como não temos o suficiente agora, vamos pedir um empréstimo com custos elevados no futuro - e pedir emprestado pode ser dinheiro, com juros altos a que não ligamos, ou tempo, com a extensão dos prazos e consequente acumulação de obrigações.
Juntar os dois tipos de escassez - e ainda um terceiro, o de quem faz dieta e fica obcecado com comida, e um quarto, a solidão - teve como objectivo criar mais empatia pelos que são pobres, explica-nos Eldar Shafir por telefone a partir dos Estados Unidos. Há muita gente que olha para os pobres "como um grupo exótico", responsáveis pela sua condição "porque não trabalharam, não lutaram o suficiente e têm os valores e atitudes erradas", sendo esta visão mais comum nos EUA do que na Europa, comenta.
Obviamente, as consequências da falta de tempo e da pobreza são mais radicais no segundo caso - é um fardo tão pesado que pode deixar as pessoas incapazes de procurar emprego, pagar contas a horas, preencher formulários complicados para aceder a programas de ajuda e por aí adiante. Dados que referem no livro: a Unicef estima que 22 mil crianças morram diariamente devido à pobreza, quase mil milhões de pessoas não sabe sequer escrever a sua assinatura, metade das crianças no mundo vive abaixo da linha de pobreza e, até nos EUA, se estima que quase 50% das crianças, a determinada altura das suas vidas, vão estar a receber senhas de refeição (programa de ajuda alimentar).
Conclusão dos autores: em vez de desenhar políticas públicas que tenham tolerância zero em relação aos efeitos da pobreza, por exemplo, os governantes deveriam justamente partir do pressuposto de que, enquanto estão ocupadas a pensar em como esticar o dinheiro, as pessoas pobres dificilmente terão capacidade para preencher os formulários que este tipo de programas lhes exige ou chegar sempre a horas aos cursos de formação profissional que lhes marcaram.
Para escrever o livro Scarcity... os autores usaram um estudo que acabaram de publicar na revista Science em Agosto, Poverty Impedes Cognitive Function. É aqui que concluem que a escassez afecta as nossas capacidades cognitivas, ao ponto de nos poder fazer perder pontos em testes de inteligência. Detalhando, como no livro, a escassez - de qualquer tipo - tem efeitos visíveis, e imediatos, que afectam as várias componentes do que eles chamam "largura de banda" (bandwidth): a capacidade mental, a fluidez de inteligência (que influencia a forma como processamos informação e tomamos decisões) e o chamado "controlo executivo" (que afecta a forma impulsiva como nos comportamos). "Estar pobre, por exemplo, reduz a capacidade cognitiva de uma pessoa mais do que uma noite inteira sem dormir. Não é que os pobres tenham menor 'largura de banda' como indivíduos. É ao contrário, a experiência de pobreza reduz a 'largura de banda' de qualquer pessoa", defendem no livro. "A escassez perpetua a escassez (...). A escassez cria a sua própria armadilha."
À Revista 2, Eldar Shafir desenvolve: temos uma capacidade "gigante" para armazenar informação na memória a longo prazo, mas "no que toca a pensar em tempo real e manter as coisas vivas na memória de trabalho, isso é muito limitado". Exemplo: "Sabemos que se estiver a falar ao telemóvel no carro isso reduz enormemente a capacidade de responder rapidamente e contornar obstáculos - ao ponto de isto ser equivalente a estar alcoolizado segundo a lei nos EUA! O que acontece nesta questão de a escassez tomar conta da mente é que quando não temos o suficiente de alguma coisa ocupamos uma grande parte da nossa mente, e fazemo-lo durante muito tempo, com essa falta. A questão é que até se pode estar a tentar resolver o problema no qual se está focado de forma eficaz, mas a periferia fica desfocada. Isso é o processo de afunilamento, que faz com que se fique concentrado numa coisa e se perca a capacidade para ver o que está à volta."
O que explica, por exemplo, por que é as pessoas pobres sabem muito melhor como é que gastaram os seus tostões no supermercado - estão mais vigilantes e atentos a isso - e se tornem naquilo a que chamam "peritos" no valor do dinheiro. Cria, por isso, benefícios no momento, torna-nos mais eficazes, mas, ao mesmo tempo, a nossa visão afunilada leva-nos a negligenciar o que está à volta e a perder a qualidade de prever as consequências das nossas escolhas. "Todas as pessoas, se fossem pobres, teriam uma 'largura de banda' menos eficaz."
A ideia do livro era "fazer as pessoas perceberem que os pobres estão a cometer os mesmos erros que eu e você cometemos quando estamos demasiado ocupados", explica Shafir. "Criamos esta empatia tornando os pobres menos exóticos e estranhos e diferentes e isso talvez leve as pessoas a perceber que são pessoas parecidas com elas, estão é a pagar um preço mais elevado pelos seus erros."
E como é que a empatia acontece? Troque-se a palavra "dinheiro" pela palavra "tempo" e eis que as semelhanças aparecem, levantando-se o mesmo tipo de questões na altura de tomar uma decisão: se comprar isto, o que é que não vou conseguir comprar? Se fizer isto, o que é que vou deixar de fazer?
Resultado: os bens básicos tornam-se um luxo, no caso de quem tem falta de dinheiro, e as actividades básicas tornam-se igualmente um luxo, para quem tem falta de tempo. Passa-se, então, o tempo a calcular as perdas e ganhos, mais focado no aqui e agora, e menos nas vantagens ou desvantagens a longo prazo (daí ser mais provável contrair piores empréstimos, por exemplo, ou acumular inúmeras tarefas). A ironia da pobreza, defendem, é que, ao mesmo tempo que precisam de tomar melhores decisões, os pobres acabam por estar, porém, na pior posição para o fazer.
Para desenvolveram o estudo Poverty Impedes Cognitive Function, os autores escolheram pessoas num centro comercial de Nova Jérsia com um rendimento médio anual alto, de 70 mil dólares (50 mil euros), e um rendimento medio baixo, de 20 mil dólares (14 mil euros), num total de cerca de 100 participantes em várias experiências. Foram divididos em dois grupos - os ricos e os pobres - e submetidos a diferentes hipóteses de como gerir uma despesa, primeiro 150 dólares e depois 1500. Fizeram testes de inteligência e de autocontrolo: quando tinham de gerir pouco dinheiro, 150 dólares, pobres e ricos não apresentaram diferenças nos testes. Mas os pobres revelaram uma diferença de até menos 13 pontos do QI quando a despesa aumentava para 1500 dólares. Concluíram que esta diminuição da inteligência acontece apenas quando o assunto é dinheiro: "As diferenças não são entre ricos e pobres, mas sobre o desempenho da mesma pessoa em circunstâncias diferentes. "
Na outra experiência feita numa situação real na Índia com cerca de 460 agricultores de cana-de-açúcar, o desafio foi perceber o seu desempenho antes e depois de receberem o salário (que no caso deles acontece em tranches maiores e menos regularmente, por normal uma ou duas vezes por ano), estando "ricos" logo a seguir à colheita e "pobres" imediatamente antes. As conclusões foram as mesmas do que em Nova Jérsia: a performance era muito pior antes de receberem o ordenado do que depois. "Como os indivíduos no centro comercial, a mesma pessoa parecia menos inteligente e mais impulsiva quando estava pobre. "
Mas o que é um pobre, exatamente? E será que as conclusões das experiências feitas pelos autores mudam consoante o grau de pobreza? Quando pedimos para explicar a definição de pobreza que usaram, Eldar Shafir diz que é um conceito difícil de definir e que pode ir da incapacidade para pagar as contas ao fim do mês a não ter dinheiro para as necessidades básicas. Ressalva, porém, que as pesquisas, no centro comercial e na Índia, são com pessoas que se depararam com uma situação de restrição, não são pessoas que estão em situação de pobreza objectiva ou pobreza crónica, por um longo período de tempo.
Estudos sobre os efeitos da pobreza crónica, da saúde à capacidade profissional, há vários, defende; a sua pesquisa diferencia-se porque se concentra "na pobreza em tempo real". E essa diferença "é muito importante", sublinha, "porque, quando dizemos 'pobres', não falamos sobre um grupo restrito, mas sobre um grupo grande de pessoas - podem ser milhares de americanos que hoje estão preocupados com os seus orçamentos. Nesse aspecto, inclui muito mais pessoas do que aquelas que estão na linha de pobreza."
Quanto aos exemplos mais extremos, como o de pessoas que não têm qualquer rendimento, nem trabalho, nem contas para gerir, Shafir confessa que a psicologia da escassez deixa de funcionar. "Nos EUA, há senhas de refeição, alguma ajuda, mas mesmo nesse caso as pessoas ainda estão a tentar gerir o seu dinheiro e perdem muito tempo com isso."
Inverter os efeitos da pobreza crónica é algo para o qual Shafir diz não ter solução, mas Scarcity... pode ajudar a encontrar soluções para quem está em situação de pobreza temporária. Para o psicólogo, trata-se de abordar o problema pensando no que as pessoas pobres não têm: dinheiro, capacidade cognitiva. Nos EUA, exemplifica, muitos dos programas disponíveis para os pobres tem requisitos muito rígidos, tipo: as pessoas têm de aparecer à hora exacta, vir bem vestidas, fazer centenas de coisas para mostrar que têm a atitude correcta. "O que se passa é que essa ajuda vem com uma série de exigências difíceis de cumprir para quem tem muita coisa na cabeça. E portanto a questão é que não estamos a ajudar tanto como poderíamos, mas a impor uma série de requisitos que vemos como questões de personalidade, mas que na verdade se tratam apenas de capacidade cognitiva: se se está preocupado em cuidar das crianças, em ter de se apanhar não sei quantos transportes, é difícil aparecer à hora exacta. Acho que se percebermos melhor as pessoas, mais fácil será ajudá-las a sair da pobreza." No fundo, conclui: "Nunca nos passaria pela cabeça cobrar imenso dinheiro a quem vai pedir senhas de refeição simplesmente porque não vamos pedir às pessoas o dinheiro que elas não têm. Mas, se se exige que as pessoas preencham formulários complicadíssimos, por exemplo, está-se a cobrar uma taxa de capacidade mental enorme que as pessoas também não têm; a questão é como desenhar estes programas com um número mais baixo de pagamentos, financeiros ou mentais, de modo a que as pessoas possam beneficiar deles."
Pegando no exemplo dos agricultores. Uma das suas necessidades é comprar fertilizante, dado que isso tem benefícios económicos, mas como só é necessário na altura do cultivo, em que a maioria dos agricultores já gastou grande parte do salário, a necessidade dessa despesa aparece-lhes, normalmente, como um choque. Ora, sugere Shafir, poderia introduzir-se um sistema que forçasse a comprar o fertilizante na altura da colheita, em que têm dinheiro. "Não se está a mudar a pessoa, nem as opiniões dela, está-se apenas a deslocar uma decisão importante da periferia para dentro do túnel e portanto nessa altura eles tomam a mais correta e compram o fertilizante." Trata-se, no fundo, de introduzir incentivos ou lembretes no timing mais correto, o da abundância - o que explica a eficácia de sistemas de poupança que retiram directamente uma parte do ordenado no dia em que se recebe para uma conta específica ou sistemas de pagamento automático de contas mensais.
Olhando para este cenário de crise económica, em que vários países como Portugal enfrentam graves problemas financeiros e as pessoas passam cada vez mais tempo preocupadas com dinheiro, o que podemos esperar? "A implicação de tantas pessoas perderem as suas capacidades por se estarem a focar na escassez é uma perda geral de inteligência numa nação como um todo", responde. "Tanto as pessoas como o Governo perdem potencial, estão a deixar de dar atenção a coisas que são importantes como a construção de infraestruturas ou as artes, coisas que são menos alvo de pressão e são por isso negligenciadas." Afinal, quando toma conta de nós, a pobreza torna-se uma ditadura no nosso cérebro.

 

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