sábado, 9 de novembro de 2013

"Hannah Arendt" (V)



Ípsilon, 08/11/13


Página 35


Estação Meteorológica


António Guerreiro


A banalidade do bem


A utilização a torto e a direito da, "banalidade do mal" não é de agora. Mas o filme de Margarethe Von Trotta sobre Hannah Arendt (e, neste caso, trata-se de facto de um filme em que o "sobre" se torna óbvio, daí advêm algumas das suas fraquezas) veio fazer com que as ocorrências da expressão se disseminassem. Aparentemente, é como se essa categoria do mal banal, tão polémica e tão incompreendida quando Hannah Arendt a forjou, na reportagem que fez do julgamento de Eichmann, se tivesse tornado de uma evidência que entra pelos olhos dentro. Para entendê-la, parece que já não é preciso opô-la à categoria Kantiana de "mal radical" e perceber que a autora, no seu "report", descobriu ouvindo e olhando Eichmann - um mal muito mais difícil de pensar do que aquele que todos pensavam e queriam que fosse. Não se tratava, afinal, de um mal grandioso, profundo e com um fundamento metafísico (e é neste sentido que ele não é radical, não vai às raízes), mas de um mal banal. Se esta palavra deu origem a tantos equívocos e contestações foi porque os leitores da reportagem de Hannah Arendt não perceberam que ela não estava a utilizar a palavra "banal" no sentido de comum, vulgar, que sucede com frequência: ser banal não anula a sua condição de extremo - extremo, mas não radical. Sujeita a uma repetição tão insistente, transformada numa expressão que "pegou" e que, por isso, como dizia Barthes dos estereótipos, tem uma "nauseabunda impossibilidade de morrer", "a banalidade do mal" ganhou um outro poder: a de nos lembrar que existe uma banalidade do bem.
O escritor Alemão Martin Walser lembrou-o, aliás, num discurso, em 1998, quando lhe foi entregue o Prémio da Paz dos Livreiros Alemães. Nesse discurso, que causou uma guerra civil de palavras, mais do que uma polémica, Martin Walser entendeu insurgir-se contra aquilo que ele disse ser uma "instrumentalização da vergonha alemã para fins actuais", através da "monumentalização da culpa nacional". Referia-se ele, deste modo, à multiplicação de grandiosos memoriais do Holocausto, nomeadamente aquele que tinha decidido erigir ao lado da Porta de Brandeburgo, em Berlim, da autoria do arquitecto americano Peter Eisenman (inaugurado em 2005). A banalidade do bem, fora desse contexto altamente delicado e polémico, serve para nos fazer perceber que há uma ideologia ética contemporânea altamente nefasta que faz parte do arsenal dogmático do kitsch e que tanto foi, no passado, responsável por uma estetização da política, como promove hoje aquele "acordo categórico com o ser" de que falava Kundera, ao definir o kitsch político e ideológico. A banalidade do bem - o consenso ético que ele implica - é uma espécie de ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos, de todos os movimentos políticos. Aparentemente, é como se a capacidade de identificar todo o Mal a priori se tivesse tornado comum, e por isso o juízo moral tende a substituir o juízo politico (veja-se como a discussão politica resvalou completamente um vocabulário que é da ordem da moral) e procede a uma despolitização generalizada. O Parlamento tornou-se, desde há muito tempo, num palco onde se representa a vacuidade da banalidade do bem. Paradoxalmente, esse bem banal caracteriza-se pela obliteração da consciência do mal, e no plano dos instrumentos discursivos, desconhece a ironia e a distância crítica da ordem da metalinguagem.
Em suma, é uma política - se tal nome merece - que desconhece a sua matéria primeira: as palavras. E isto é exasperante, dogmático e sem saída.

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