quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Melancolia



Para o melancólico, as coisas são enigmáticas, desvinculadas, cada uma isolada em si mesma, privadas de autêntico significado porque ele não as vê com aquela afectividade, aquele desejo e aquela confiança que lhes conferem calor, tornando-as familiares, amigas das mãos que as tocam e as trabalham, enquanto elementos da vida – como as estações do ano, em cuja cíclica repetição podemos inserir-nos com harmonia. Para o melancólico, pelo contrário, tudo isso se resume num inútil florescer e desvanecer.
A melancolia – observava Goethe – é a incapacidade de amar a repetição que pauta a nossa existência (as estações, o dia e a noite, os afazeres e hábitos quotidianos, o suceder das gerações) e de usufruir das inumeráveis e surpreendentes variações que cada aparente repetição diária – na realidade sempre nova e aventurosa – contém. A melancolia percepciona pelo contrário o fluir e o repetir-se como uma infinita monotonia, o destilar de segundos e minutos sempre iguais no vazio.
A melancolia é uma tristeza que não sabe precisar o seu objecto e a sua causa; acusa intensamente a perda de algo, sem poder dizer o quê. Tem a ver com a preguiça, a ociosa e complacente falta de desejo, de projecto, de acção; está, pois, próxima do pecado e do vício, ou melhor, de um dos pecados capitais. Sabiam-nos os monges medievais, que se precaviam contra a tentação da «acedia», dos engodos da depressão melancólica, que o Inimigo lhes insinuava na prostração da hora meridiana, que quebra as energias e estimula fantasias perversas. A melancolia não só não pode definir a falta de que sofre, como nem quer fazê-lo, porque se compraz e se nutre dessa perda indefinível e da sua indefinição, acrisola-se no seu próprio voluptuoso tormento; o tormento não quer fazer o luto, mas posterga-lo sem limite.
O melancólico é também um falsário, dizia Kierkegaard, segundo o qual era a perda de Deus, ou seja, de um valor central e unificador, que impedia de ver a conexão significativa das coisas, o sentido e a unidade da vida, induzindo à melancolia.
(…)
O eros e a fé, as duas experiências radicais do escândalo de existir, sabem muito bem o que é a melancolia, aquele «humor negro» que, segundo os antigos, o corpo de alguns segrega mais do que o de outros, determinando o seu temperamento. Essa velha teoria contém uma grande intuição, não por acaso elaborada pelo pensamento antigo, se bem que as grandes religiões – dizia Chesterton – sejam caracterizadas por um «genuíno materialismo»: a relação, ou melhor, a identidade do que chamamos espírito e do que chamamos matéria, duas faces da mesma moeda, a paixão por uma pessoa amada indistinguível da expressão que ela estampa num rosto e do mecanismo psicofísico que forma essa expressão, que é essa expressão. A fé que, como está escrito, move montanhas, é uma energia, um modo de ser de cada pessoa. Por isso Singer, num seu romance, escreve que «o abatimento está a um passo da denegação» - da vida, do seu significado, de Deus.
A tradição hebraica – especialmente a oriental chassídica – condenou a melancolia como uma perda de fé que esgota a vitalidade, o eros, e celebrou o valor religioso da alegria, do sexo, do riso como imperturbável resistência à destruição, como revelam tantas inesquecíveis histórias hebraicas, hilariantes até na tragédia. Conta-se que o santo e pio rabino David de Lelov teria afirmado na hora da morte: «Eu rio de Deus, porque aceitei o seu mundo como é».
(…)
A melancolia não é só depressão psíquica ou tristeza tortuosa e morbidamente acalentada. A fugacidade e a imperfeição da nossa vida fazem dela uma corda fundamental do ânimo, mesmo para quem gostaria de assemelhar-se mais ao rabino David de Lelov do que aos monges propensos ao demónio meridiano. Nenhuma vida e nenhuma poesia de vida podem ignorar a melancolia, a caducidade do tempo que passa, aquilo que sempre falta em toda a felicidade e em todo o amor, mesmo feliz, o corromper das coisas e dos sentimentos, mesmo os mais puros, o desencanto, o incessante alterar-se e esvanecer-se.
O amor – escreveu Charles-Louis Philippe – é tudo aquilo que não se tem; essa falta pode ser vivida não necessariamente com deleite masoquista, mas com um sentido forte – clássico, antigo – do inevitável desacerto que existe entre o coração e o mundo, assim como para o teólogo Romano Guardini a melancolia é o sentido de uma insuficiência terrena que pode levar a Deus. Não há encanto sem consciência e não há consciência sem melancolia. Há um século, um cultor da fisiognomia, descrevendo a belíssima boca de Cléo de Mérode, grande actriz e grande amante, notava que, com o passar dos anos, ao redor daquela boca se desenhara como que uma sombra de melancolia. Talvez, assim, fosse ainda mais bela.


Claudio Magris, Melancolia e modernidade, in Alfabetos, p.69-71.




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