quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Palavra e diálogo



Paulo FREIRE, A Dialogicidade, Essência da Educação como Prática da Liberdade [1]

 

Ao iniciar este capítulo sobre a dialogicidade da educação, com o qual estaremos continuando as análises feitas nos anteriores, a propósito da educação problematizadora, parece-nos indispensável tentar algumas considerações em torno da essência do diálogo. Considerações com as quais aprofundemos afirmações que fizemos a respeito do mesmo tema em «Educação como Prática da Liberdade»[2].
Quando tentamos um adentramento no diálogo, como fenómeno humano, se nos revela algo que já poderemos dizer ser ele mesmo: a palavra. Mas, ao encontrarmos a palavra, na análise do diálogo, como algo mais que um meio para que ele se faça, se nos impõe buscar, também, seus elementos constitutivos.
Esta busca nos leva a surpreender, nela, duas dimensões: acção e reflexão, de tal forma solidárias, em uma interação tão radical que, sacrificada, ainda que em parte, uma delas, se ressente, imediatamente, a outra. Não há palavra verdadeira que não seja praxis. Daí, que dizer a palavra verdadeira seja transformar o mundo[3].
A palavra inautêntica, por outro lado, com que não se pode transformar a realidade, resulta da dicotomia que se estabelece entre seus elementos constituintes. Assim é que, esgotada a palavra de sua dimensão de acção, sacrificada, automaticamente, a reflexão também se transforma em palavreria, verbalismo, bla-bla-bla. Por tudo isto, alienada e alienante. É uma palavra oca, da qual não se pode esperar a denúncia do mundo, pois que não há denúncia verdadeira sem compromisso de transformação, nem este sem acção.
Se, pelo contrário, se enfatiza ou exclusiviza a acção, com o sacrifício da reflexão, a palavra se converte em activismo. Este, que é acção pela accão, ao minimizar a reflexão, nega também a praxis verdadeira e impossibilita o diálogo.
Qualquer destas dicotomias, ao gerar-se em formas inautênticas de existir, gera formas inautênticas de pensar, que reforçam a matriz em que se constituem.
A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar.
Não é no silêncio[4] que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na acção-reflexão.
Mas, se dizer a palavra verdadeira, que é trabalho, que é praxis, é transformar o mundo, dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens. Precisamente por isto, ninguém pode dizer a palavra verdadeira sozinho, ou dizê-la para os outros, num acto de prescrição, com o qual rouba a palavra aos demais.
O diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu.
Esta é a razão por que não é possível o diálogo entre os que querem a pronúncia do mundo e os que não a querem; entre os que negam aos demais o direito de dizer a palavra e os que se acham negados deste direito. É preciso primeiro que, os que assim se encontram negados no direito primordial de dizer a palavra, reconquistem esse direito, proibindo que este assalto desumanizante continue.
Se é dizendo a palavra com que, «pronunciando» o mundo, os homens o transformam, o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens.
Por isto, o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidariza o reflectir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um acto de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes.
Não é também discussão guerreira, polémica, entre sujeitos que não aspiram a comprometer-se com a pronúncia do mundo, nem com buscar a verdade, mas com impor a sua.
Porque é encontro de homens que pronunciam o mundo, não deve ser o do pronunciar de uns a outros. É um acto de criação. Daí que não possa ser manhoso instrumento de que lance mão um sujeito para a conquista do outro. A conquista implícita no diálogo, é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro. Conquista do mundo para a libertação dos homens.


[1]Paulo FREIRE, A Dialogicidade, Essência da Educação como Prática da Liberdade, in A Pedagogia do Oprimido, Textos 5, Afrontamento, Porto 1975, 2. ed..
[2] Paz e Terra - Rio - 1967.
[3] Algumas destas reflexões nos foram motivadas em nossos diálogos como Professor Ernani Mario       Fiori.
[4] Não nos referimos obviamente, ao silêncio das meditações profundas em que os homens, numa forma só aparente de sair do mundo, dele «afastando-se» para «admirá-lo» em sua globalidade, com ele, por isto, continuam. Dal que estas formas de recolhimento só sejam verdadeiras quando os homens nelas se encontrem «molhados» de realidade e não quando, significando um desespero do mundo, sejam maneiras de fugir dele, numa espécie de «esquizofrenia-histórica».
 

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