domingo, 10 de novembro de 2013

Romano Guardini e "o espírito da liturgia" (VI)




Daí a mescla sublime de seriedade e de alegria divina que nela transparece. O cuidado meticuloso com que, por meio de mil prescrições, regula os pormenores das palavras, dos gestos, das cores, dos ornamentos, dos instrumentos do culto, só é verdadeiramente compreensível a quem seja capaz de tomar a sério a Arte e o Jogo.
Já vos foi dado ver a seriedade com que as crianças promulgam as leis dos seus jogos e danças, regulam o gesto e a posição das mãos, a importância e significação dum pau ou duma árvore?
Tudo isto só é absurdo a quem não penetre no sentido do jogo e procure sempre a justificação dum gesto no fim útil e positivo, no fim que se possa apontar e denominar.
Já vistes de perto (ou talvez conhecestes por experiência) a seriedade e a violenta tensão do laço que prende o artista ao "serviço" da sua arte? E os seus sofrimentos no trabalho do verbo, do vocábulo procurado, laboriosamente conquistado? E as exigências desta difícil amante, que é a forma?
Tudo isto sem fins úteis.
Não, a Arte nada tem que ver com esses fins.
Poder-se-á crer, um instante, seriamente, que o artista tomaria sobre si todo o labor, todas as emoções, toda a dolorosa vibração, todo o ardente parto da criação, se nada mais estivesse em jogo senão oferecer por meio da sua obra ao leitor ou ao espectador alguma lição moral, que lhes poderia ser dada igualmente por algumas boas projecções luminosas, por algumas frases lançadas ao papel, por alguns exemplos extraídos da Historia?
Ah, não! o Artista é o ser que sofre e luta a fim de conquistar a expressão da vida oculta, sem outro fim que ver essa vida oculta, ali sob os seus olhos, ex-pressa  graças aos seus esforços.
Fim a um tempo restrito e imenso! Imagem da criação divina que faz as coisas para que elas sejam, ut sint.
A liturgia oferece-nos idêntico espectáculo. Também ela, com infinito cuidado, com toda a seriedade da Criança e toda a consciência do Artista, se esforçou por ex-primir, projectando-a em mil formas diversas, a vida da alma, vida santa nascida de Deus, sem outra finalidade que não seja oferecer-lhe o quadro, o mundo de imagens onde ela possa existir e viver. Por um complexo de leis severas e determinadas, a liturgia regulou o jogo sagrado que a alma executa diante de Deus. E se quisermos descobrir a raiz última do mistério que se oferece aqui a nós, é o Espírito-Santo que devemos nomear, o Espírito de chama e de santa disciplina "que tem poder sobre a palavra". Foi ele quem ordenou o jogo que a Eterna Sabedoria executa na Igreja, seu reino sobre a terra, em face do Pai celeste, que encontra "a sua alegria e delicias em estar assim no meio dos filhos dos homens".
Só compreendem a liturgia aqueles a quem isto não causa espanto nem melindre. Todos os racionalismos se revoltaram sempre contra ela.
Viver liturgicamente, é - levado pela Graça e conduzido pela Igreja - tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus, sem outro fim que estar e viver na presença de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e "fazer-se criança". E, seja dito duma vez para sempre, renunciar à falsa prudência da idade adulta que para tudo quer encontrar um fim. É decidir-se a jogar, como David quando dançava diante da arca da aliança. Sem dúvida, com o risco de que os sábios e prudentes do mundo que, à força de gravidade, perderam a liberdade e a juventude do espírito, ignorem este jogo sagrado e dele zombem com ironia. David também teve que suportar a ironia de Micol.
Eis pois uma das tarefas da educação litúrgica: a alma tem de aprender a não buscar em toda a parte o fim útil, a não pretender a todo o custo encontrar um fim para todas as coisas, a esquecer ser demasiado prudente e "adulta"; terá de aprender a...viver, sem mais; a renunciar, pelo menos na oração, àquela febre de actividade acesa e fustigada pela preocupação de alcançar o fim; a prodigar o tempo ao serviço de Deus; a não contar, nem pesar, no jogo sagrado, cada palavra, cada pensamento, cada gesto, sempre com a pergunta em suspenso: para quê e com que fim? Precisa de se resignar a não querer sempre fazer alguma coisa, alcançar alguma coisa, cumprir alguma coisa de útil. Precisa de se resignar a executar, sob os olhos de Deus, em beleza, liberdade e santa alegria, o jogo da liturgia que o próprio Deus regulamentou.
Afinal, que será a eternidade senão a realização perfeita desse jogo? E quem isto não abarca, pode acaso compreender que o cumprimento celeste do nosso destino é "um eterno cântico de louvor"? A estas naturezas apressadas e práticas, uma eternidade assim passada não correrá o risco de se afigurar vazia e aborrecida?
 
(conclusão)

 
Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.

 
 

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