quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sobre a literatura 'engajada'


Os poetas – também e sobretudo os maiores, como Homero e os trágicos, que ele tanto amava – são excluídos por Platão, num famoso capítulo da República, do seu Estado ideal e da formação ideal desse utópico Estado. Só a poesia «dórica» é admitida, a severa arte que apela à virtude e, se necessário, à batalha, que forja a moralidade e os valores patrióticos, sociais e cívicos; como terminologia actual, poderíamos dizer que apenas a literatura empenhada era permitida. Essa sentença platónica é inaceitável e Platão, autor entre outros textos também de tragédias, ainda que por ele mesmo destruídas, sabia-o melhor do que ninguém, tanto que exaltou em Íon a poesia como divina mania, inspiração que tem apenas em si mesma, nos abismos e nos voos da fantasia e do sentimento, a sua fonte e o seu sentido.
Essa expulsão platónica dos poetas da República é obviamente inaceitável, porque significaria totalitarismo, poder absoluto de um Estado que não tolera expressões diferentes do seu modelo de valores e violenta o indivíduo e o seu direito à diversidade. (…)
A literatura, escreveu Orhan Pamuk no Corriere, polemizando sobre a politização da arte – não é um juízo moral mas sim identificação com uma personagem, com o seu modo de ser (generoso ou malvado), com a sua fé, a sua paixão, a sua violência ou o seu delírio. A literatura não julga nem dá notas de comportamento à vida, que decorre além ou aquém do bem e do mal; se representa uma rosa, sabe – como dizia um jesuíta e grande poeta místico alemão do século XVII, Angelus Silesius – que a rosa não tem porquê e floresce porque floresce. Mas identificar-se com a vida implica identificar-se com todos os seus aspectos e, portanto, não só com a primavera em flor mas também com os terramotos e, no que se refere aos homens, não somente com os seus amores e os seus sonhos, mas também com o mal que infligem aos outros, as injustiças que cometem, as guerras que desencadeiam. Narrar a existência de um traficante de órgãos, que os faz arrancar às crianças das favelas, comporta – para um escritor autêntico, que não é um moralista – uma certa identificação, que por sua vez é desconcertante. Se a arte é beleza, esta nem sempre é, como segundo Platão deveria ser, a aparição do Bem e do Verdadeiro.
Platão teme que a arte, exactamente porque deve prescindir de juízos morais, possa tornar-se cúmplice da injustiça e das violências que reinam no mundo; intui que o indivíduo, dando voz aos próprios sentimentos, acaba muitas vezes por namorar o próprio egoísmo, por imitar satisfeito as misérias, as contradições a até a banalidade do seu estado de espírito e por idolatrar a perfeição da sua obra em prejuízo do humano: se representa, emocionado, um incêndio, um poeta arrisca a emocionar-se mais com as admiráveis rimas que descrevem as vítimas no meio das chamas do que com os sofrimentos reais dessas vítimas.
Os poetas exibem muitas vezes grandes sentimentos, mas eles – diz um verso de Milosz, grande poeta – têm muitas vezes um coração frio, mesmo se dão a entender o contrário, em primeiro lugar a eles mesmos.
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A dita literatura empenhada considera, pelo contrário, que a sua tarefa consiste também – ou sobretudo para alguns – em prestar ajuda às vítimas daquele incêndio, contribuir para mudar o mundo e não só representá-lo. Um empenho moral e portanto inevitavelmente político, já que a política é (ou deveria ser) a necessária capacidade de ver – e aliviar – não só a necessidade daquele indivíduo que conhecemos e que prezamos, mas também a de tantos outros indivíduos, que pessoalmente não conhecemos, que se encontram em condições análogas e que outros prezam, nem mais nem menos importantes do que nós. Uma obra literária, mesmo se nasce duma irrepetível situação individual, dirige-se a todos e portanto, se tem uma mensagem moral, esta torna-se também política, porque entra na vida, nos pensamentos, nos sentimentos da polis, da comunidade.
A democracia, tão ultrajada como abstracção ideológica pelo pensamento reaccionário é, pelo contrário, a capacidade fantástica de compreender e sentir que também os milhões de pessoas que não conhecemos – e pelas quais, obviamente, não podemos sentir afecto ou paixão pessoais – são, por outro lado, reais e concretas, feitas de carne e sangue, como nós e os nossos amigos. Nesse sentido, todo o romance, prescindindo da ideologia professada pelo autor, é democrático porque nos faz entrar no lugar e na pele dos outros.
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O escritor não é um responsável pai de família, é antes um filho rebelde que obedece ao seu demónio interior; a literatura ama o jogo, a liberdade de inventar a vida como o barão de Munchhausen, de tornar a realidade leve como um balão colorido que se solta da mão e se vai embora. Sujeitar tudo isto a uma ideologia, a uma causa, a um dever, mata a literatura. «Pôr-se ao serviço de uma causa», disse Pamuk, «destrói a beleza da literatura».
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Os grandes fundadores de religiões, de Jesus a Buda, anunciaram verdades, mas para fazê-las concretamente compreender e sentir pelos homens careciam da literatura: contaram parábolas, nas quais a verdade se encarna na vida e se torna vida, e a doutrina torna-se narrativa. É essa a autêntica dimensão moral – e em consequência o empenhamento político – da literatura, que não predica, mas mostra. Joseph Conrad não prega sermões, mas lendo as suas histórias compreende-se, sente-se o que quer dizer viver na lealdade ou na mentira, na coragem ou no medo, no bom combate ou na deserção. Nesse sentido – mas só nesse sentido – a literatura é uma educação para o humano, eficaz apenas se não se propõe educar, mas o faz por instinto, com a representação das coisas.
(…)
A literatura é uma viagem contínua entre a escrita diurna, em que o autor se bate pelos seus valores e os seus deuses, e a nocturna, em que um escritor escuta e repete o que dizem os seus demónios, os sósias que habitam no fundo do seu coração, mesmo quando dizem coisas que desmentem os seus valores. A literatura é também uma descida aos Infernos – àquilo a que Flaubert chamava «a latrina do coração».

Claudio Magris, Literatura e empenhamento: o coração frio dos escritores, in Alfabetos, 2013, p.438-442.



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