segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sobre o inquérito aos católicos


1-Leio no I (pág.23) o questionário enviado pela Santa Sé para que, nas dioceses de todo o mundo, se procurem respostas para algumas das mais candentes questões que se colocam à família, nos nossos dias (tendo em vista o Sínodo dos Bispos, marcado para Outubro de 2014, sobre a família).

2-Talvez ao nível da Igreja particular, o primeiro dos méritos do inquérito passe pela constatação da ignorância por parte de muitos católicos…face à doutrina católica (o que ela diz; quais os seus documentos; para que disposições remete), relativa às problemáticas em causa. Assim, quando se questiona, neste inquérito, o que conhece o crente católico da Gaudium et Spes, da Familiaris Consortio, ou da Humanae Vitae a resposta mais directa que se nos oferece, tanto quanto nos apercebemos da realidade envolvente, é: nada, ou muito pouco.

3-Assim, provavelmente mais ainda do que as formulações finais do último Sínodo para a nova evangelização – conclusões que, uma vez mais, ninguém, ou muito pouca gente (católica) leu – este questionário consiga confrontar cada um com as suas lacunas elementares sobre uma doutrina que (alegadamente) segue, e o exorte, deste modo, a uma outra densidade no conhecimento – e, bem assim, na discussão e, eventualmente, procura de correcção, com os meios, mesmo diminutos, à disposição -, isto é, que os circuitos formativos – seja na moral familiar, sexual, seja, por exemplo, na Doutrina Social da Igreja – se intensifique e que os percursos de tipo catequético ganhem uma nova pertinência.

4-Numa outra camada, menos à superfície, o que tal ignorância – que creio indesmentível – igualmente manifesta é o alheamento, o divórcio, a separação – tantas vezes identificada, mas raramente, porventura, tão vivamente ilustrada – entre vida e fé. Não se conhece, em muitos casos, muito daquilo que se propõe no interior de uma cosmovisão que se diz (con)formadora de uma personalidade, de uma gramática e de uma pragmática.

5-Indo ao detalhe das perguntas, e dado que elas remetem muito para a realidade local daquele que a elas responderá, julgo que a reavaliação – pela positiva – das situações, muito comuns, de coabitação antes do matrimónio; a celebração de matrimónios por baptizados não praticantes, ou por não crentes – outra situação por cá muito habitual – e a promoção de uma mentalidade mais aberta à natalidade (isto, no que para lá vai da questão económica que é, de si, muito premente e constrangedora) julgo que são questões a ter em grande atenção.

6-Como, em parte, a grande recessão de 2008 mostrou uma sociedade a colapsar (e não apenas, nem tal podia suceder, em um âmbito estritamente financeiro-económico) sucede, agora, que há na chamada ‘primeira geração incrédula’ – como chama Armando Matteo à actual geração acima dos 30 anos – quem procure uma recomposição, no que a sua existência tem de dimensão, simultaneamente, pessoal e social que inclua, de novo, a linguagem e toda a dimensão religiosa (como importante elemento estruturante e identitário).
Ao pretender, por exemplo, uma renovada formação cristã/católica para os seus descendentes – melhor, com mais qualidade, com outra força do que aquela que recebeu e que o tornou distante da Igreja – tal geração deve contar com um grande acolhimento/hospitalidade de uma Igreja que, muitas vezes descapitalizada culturalmente, com, crescentemente, menos gente e tendencialmente propensa a fechar-se sobre si, ainda revela, por vezes, hábitos de um tempo de uma Igreja-Cristandade, hoje manifestamente inexistente.
Uma grande responsabilidade e sensibilidade, uma grande capacidade de escuta e preparação cultural se depara, pois, como absoluta urgência, a uma Igreja a quem uma nova geração pode ser confiada.

Que este inquérito pudesse fazer assomar à consciência tais realidades era um óptimo contributo à reconfiguração de um colectivo que, independentemente da filiação mundividencial de cada um, tem uma tradição que a sustentou, firmemente, ao longo de séculos e que, por certo, não negligenciará de modo fútil.


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