quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Das idas ao cinema


Uma coisa é o nosso conhecimento histórico daquilo que foi a recepção (judaica) ao(s) escrito(s) de Hannah Arendt, sobre o julgamento de Eichmann – protestos, cartas, discussões públicas. Um conhecimento, este, acerca das reacções havidas, mediado por décadas, pelos livros ou jornais que no-lo contaram, em descrição objectiva (fria). Outra coisa é sentir a argamassa, a força moral de quem, mesmo muito acossada, ameaçada pessoalmente e não apenas disputada no campo das ideias, resiste e insiste na (sua) procura da verdade, não tergiversando e mostrando uma firmeza inquebrantável. Ora, é esse retrato, verdadeiramente epidérmico, que Barbara Sukowa nos dá, talvez em um misto de obstinação, ingenuidade, arrogância, honestidade intelectual, auto-confiança, procura, incessante, da verdade que coloca em - na representação de - Arendt.

Se se considerar que a relação de Arendt com Heidegger é perpassada, no filme, com excessiva subtileza, mais ainda se dirá, então, do poder encantatório da voz do autor de Sein und Zeit, magnetismo que prendia os alunos/discípulos, em aulas sempre concorridíssimas, e irreproduzíveis – quer dizer, sem o exacto efeito obtido na audição imediata do seu verbo – em texto escrito (como no-lo conta Steiner, na obra dedicada ao filósofo alemão). Em todo o caso, o bordão deixado – no filme - no diálogo, ao bilhar, com Mary McCarthy, por parte de Arendt – “há coisas maiores do que a vida” -, deixa, porventura, insinuada a resolução do enigma para a problemática de saber do quanto Heidegger, no fim do nazismo, convencera a antiga aluna/amante da sua ignorância e escasso papel durante a vigência do nacional-socialismo. Talvez outro modo de dizer, de novo, que o amor vence o ódio (e coloca a questão dos limites da busca da verdade).


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