quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Do efeito democratizador da ciência


MARIA LEONOR NUNES, (entrevista) Arsélio PATO de CARVALHO. A Ciência da boa Escola, JL / Educação, in JoXXXIII a qesta   uestrnal de Letras, n. 1129, ano XXXIII (08 a 21 de Janeiro) 2014, 1-2.

'Era um sonho antigo do professor universitário jubilado e cientista de prestigio internacional, sonho que há cinco anos se tornou uma realidade com futuro: o Instituto de Educação e Cidadania, em Oliveira do Bairro. Procura ser um "interface" entre as universidades, as escolas e a comunidade da região da Bairrada, propõe estudos avançados, incentivos aos alunos e actividades para as populações - e foi agora distinguido com o Prémio Educação Ciência Viva. Aqui se ouve o criador do que pode ser um modelo para outras geografias do país e para um ensino de excelência
Entrevista de Maria Leonor Nunes
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A grande aposta é na Ciência. Porquê?
"Os programas do IEC assentam no pressuposto que as escolas e a sociedade em geral são capazes de melhorar as suas competências se colocadas em contacto com meios mais evoluídos. Desse modo, usa os conhecimentos científicos e a prática científica como principais instrumentos para elevar os conhecimentos e a experiência das colectividades escolares e dos cidadãos.

A necessidade de uma formação contínua e de maior qualificação dos portugueses são bandeiras dos tempos que correm. E são desígnios do Instituto?
O objectivo fundamental é dar poder às pessoas através do conhecimento, como arma de sucesso na vida. O IEC lançou uma dinâmica cultural e de aquisição de conhecimento para levar os cidadãos e as escolas da Região da Bairrada, uma comunidade predominantemente rural, a uma prática de reflexão e de intervenção nos problemas das escolas e da comunidade.

As zonas rurais do país têm especiais carências nesse domínio?
Ao longo das últimas décadas, muitos dos cidadãos das comunidades rurais foram, na prática, excluídos do exercício de cidadania activa devido a incapacidade de se adaptarem as novas exigências da sociedade e a uma longa tradição de baixa escolaridade. Abunda nesta comunidade a falta de ambição e a resignação a uma vida que não beneficia da riqueza cultural e material à  disposição da sociedade moderna. Este estado de espírito espelha-se também nas escolas.

De que forma o IEC se propõe intervir nesse sentido?
Assume-se como um interface entre as instituições de ensino superior e as escolas. E um protótipo de instituto essencial para quebrar com tradição de isolamento das populações e das escolas fora das cidades.

O insucesso e o abandono escolar continuam a ser um calcanhar de Aquiles do ensino português, apesar de melhorias acentuadas na última década. E são realidades particularmente graves no interior do país e nas zonas rurais. Pode o IEC contribuir para decrescer o abandono escolar?
Os programas que estamos introduzir nas escolas motivam muito os alunos e professores e criam novas dinâmicas. O contacto com os jovens cientistas que o IEC leva às escolas, o ensino dos cursos avançados em que são leccionadas matérias de interesse contemporâneo são transversais na motivação de todos, mesmo dos mais desmotivados. Estes são factores que decerto contribuem para motivar os alunos a permanecer na escola.

PLANO DE EMERGÊNCIA PARA JOVENS Cientistas.  Com que escolas trabalha o lEC?
Quase todas dos vários concelhos da Bairrada. E a capacidade de intervenção do IEC nas escolas, entre outras actividades, depende muito da rede de protocolos com os centros Ciência Viva e museus e da colaboração com as instituições de ensino superior.

As escolas precisam de mais autonomia. (...) É preciso dar uma volta à educação nesse sentido: poder aos professores e às escolas. Em que se traduz?
Participam nas actividades do IEC mais de 80 jovens cientistas doutorados. Todo o ensino experimental dos programas avançados é ministrado por esses doutorados, tomando partido deste capital humano, resultado do sucesso da Ciência em Portugal.

Mas ao que assistimos é à "fuga" desse capital para o estrangeiro.
Deve ser implementado um plano de emergência para evitar a emigração dos jovens cientistas. Neste momento de crise, não podemos perder os mais qualificados. Se Economia e a Educação tivessem tido o mesmo sucesso que a Ciência teve em Portugal nos últimos 20 anos, não teríamos chegado ao colapso financeiro. Não percebo a insensibilidade do governo a esta questão
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Ambição à excelência. Em que consistem essencialmente os programas do IEC para a as escolas?
Estão enquadrados num programa geral designado "Estudos Avançados", que inclui cursos experimentais ministrados no IEC e nas escolas, para alunos do 9. ao 12. anos, cursos de ciências experimentais do 1.  e 2.  ciclos, conferências nas escolas e nas bibliotecas e a criação de clubes de ciência nas escolas. São trimestrais, com a duração de dez semanas, três horas por semana, ao longo do ano lectivo. E foram concebidos para se adaptarem a grupos diversificados de alunos, professores, associações de pais e cidadãos externos às escolas.

Quais os seus objetivos?
Potenciar as capacidades dos alunos com ambição académica, criando-lhes desafios que vão para além dos currículos escolares, e promover a motivação e o gosto pelo saber, pela prática das ciências. Implantar mesmo nas escolas a prática das ciência experimentais como método de aprendizagem, mas também como acção educativa para promover a motivação e a igualdade entre os alunos.

De que maneira se pode conseguir essa igualdade?
O seu envolvimento na aprendizagem experimental leva-os a descobrirem competências e aptidões que eles próprios ignoravam possuir. A prática da Ciência é das actividades humanas mais democráticas e disciplinadoras. Assim, o envolvimento directo dos alunos em trabalhos laboratoriais motiva-os, cria-lhes o gosto pelo saber e prende-os à escola. Este programa começa com o 1º ciclo. Outro objectivo XXXIII a qesta   uesté dinamizar as escolas da Região da Bairrada rumo à excelência, introduzindo novas actividades e fomentando nos directores e professores a vontade de as escolas serem mais autónomas e responsáveis.
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Formou várias gerações. O que é fundamental para si enquanto professor?
Não sei ensinar apenas teoricamente, mas mostrando como se faz. Trabalhei no laboratório até muito tarde e penso que a melhor maneira de ensinar é realmente fazendo. O que é muito importante quando se ensina é transmitir estímulo, motivação e fazer com que os alunos sejam mais iguais no processo de aprendizagem. E acredito firmemente que a Ciência tem um efeito democratizador.







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