quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quanto maior formação e nível de rendimento, menos solidariedade


no Público:


Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. Esta é a apenas uma das conclusões do estudo da Universidade Católica Portuguesa e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano, que vai ser apresentado na quinta-feira em Mafra.
 As conclusões do estudo Literacia social: os valores como fundamento de competência, que vai ser debatido na Conferência Internacional sobre Literacia Social e que contou com o apoio da União Europeia, preocupam o investigador Lourenço Xavier de Carvalho, uma vez que serão as pessoas com mais instrução as mais propensas a ocupar lugares de liderança.
Quanto mais avançamos nos níveis de instrução, do 1º ciclo até ao ensino superior, a importância da justiça ou da solidariedade vai baixando progressivamente. São os mais instruídos e os mais ricos que desvalorizam a justiça e a solidariedade”, diz Lourenço Xavier de Carvalho, coordenador deste estudo que é também a tese de doutoramento em Ciências da Educação que apresentou na Universidade Católica em 2013.
Quando questionados sobre a importância de ajudar os outros, 86,5% das pessoas com o 1.º ciclo respondem afirmativamente, uma percentagem que baixa para 83,4% quando as pessoas têm o 2.º ciclo, para 73,5% quando têm o 3.º ciclo, que sobe ligeiramente para 76,2% quando possuem o secundário, desce para 59,2% quando têm bacharelato, ficando o valor mais baixo na fatia dos licenciados, mestres ou doutorados, com 53,1%.
A mesma pergunta cruzada com os níveis de rendimento revela que 86,4% das pessoas que ganham até 500 euros considera muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que os rendimentos aumentam e que atinge o valor mais pequeno – 46,7% - quando chega ao grupo dos que ganham mais de 4 mil euros por mês.
No que toca, por exemplo, à importância dada a “lutar por uma causa justa” – o indicador usado para aferir a posição da justiça como valor social – conclui-se que os portugueses com mais instrução desvalorizam este aspecto. São as pessoas com o 2.º ciclo que mais valorizam a luta por uma causa justa (86,2%), ficando a fatia mais pequena (56,9%) para quem tem estudos superiores.
O estudo também indica que “as pessoas que têm muito baixos rendimentos, abaixo dos 500 euros, têm níveis de felicidade mais baixos” que “só são iguais aos dos níveis de rendimento mais elevados”: “Quem tem mais de 4 mil euros por mês é tão infeliz como quem tem menos de 500”, nota o investigador.
A explicação para estes dados poderá passar, segundo Lourenço Xavier de Carvalho, pela própria educação e formação que está a ser dada às pessoas: “Está associado a este fenómeno dos elevados rendimentos e dos elevados níveis de instrução serem um pouco contrários àquilo que é a harmonia social e o desenvolvimento pessoal”, explica Lourenço Xavier de Carvalho, insistindo que é preciso mudar o sentido da educação. “Continuamos a educar para o domínio material, para o domínio técnico, queremos formar profissionais competentes, que dominem bem as técnicas de cada área, e os currículos são cada vez mais técnicos. Mas na realidade não é isso que faz as pessoas mais ou menos felizes. É a dimensão humana, relacional, que está cada vez mais afastada dos currículos”, frisa, defendendo que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”.

Individualismo crescente

Para este investigador, quanto mais se avança na escala de instrução, mais os currículos são “técnicos” e “desprovidos da dimensão humana”: “As pessoas tornam-se cada vez mais competitivas, cada vez mais insensíveis ao sofrimento dos outros, cada vez se sentem menos responsáveis pelo bem comum. Acabam por ter as ferramentas de decisão, mas não têm as competências pessoais e sociais para serem bons líderes”, sublinha.
A leitura dos dados permite ainda verificar que, nos últimos dez anos, as pessoas tornaram-se mais tolerantes em relação a grupos discriminados na sociedade portuguesa, mas ao mesmo tempo mais individualistas. De acordo com o estudo, na última década, os indicadores relativos ao individualismo mostram que cresceu em média 10%. “As pessoas são mais desconfiadas do que eram, acreditam mais naquelas expressões ‘cada um por si’ e ‘olho por olho, dente por dente’.
Rendimentos e estudos à parte, o investigador verificou, porém, que, quando questionada sobre os objectivos de vida, a generalidade das pessoas revela uma aproximação a valores como “a honra, o amar e ser amado e a família”. Para Lourenço Xavier de Carvalho, é o sistema educativo e a competição que estão a afastar as pessoas do que “realmente as faz felizes”.
Neste aspecto, para a generalidade das pessoas - e não especificamente no segmento das mais letradas e ricas - a família surge no topo: “Ter uma família sólida passou a ser o mais importante de todos os objectivos de vida”, diz o investigador, precisando que a família surge como a “instituição de mais confiança para as pessoas” e em relação à qual estão dispostas a fazer mais sacrifícios. Em média, mais de 90% dos inquiridos valoriza a família - percentagem que baixa para cerca de 80% quando os níveis de escolaridade são mais elevados.
Apesar do individualismo crescente, nos últimos dez anos a maioria das pessoas - e mais uma vez, o investigador não está centrado nas variáveis do estudo/rendimento - também se voltaram mais para a espiritualidade num sentido lato, fenómeno ao qual não será alheia a crise: “1999 era o auge da materialidade, do investimento, lembramo-nos da Expo 98 e dos grandes investimentos públicos, atirava-se dinheiro para cima das coisas, dos problemas, para os resolver”, recorda o investigador.

Dez anos depois, as transformações ocorridas levaram muitas pessoas a procurar outras referências: “Em 2009 batemos no fundo, estamos no pico da crise, é muito provável que a movimentação das pessoas para a maior valorização do imaterial tenha a ver com essa experiência de crise, de perceber que, afinal, houve aqui uma ilusão de que o dinheiro, o prestígio, o estatuto, o poder, poderia resolver os problemas todos. E afinal o que resolve os problemas é a proximidade à família, são as relações harmoniosas, amar e ser amado”, nota.


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