quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A versão de Vítor Gaspar


Ao contrário do que foi ideia dominante, em Portugal, o Governo de que Vítor Gaspar fez parte não se limitou a dialogar com os funcionários da troika, no nosso país: sempre que existiu um “exame regular”, os principais responsáveis, as cúpulas, garante o ex-ministro das Finanças, foram contactados, directa e indirectamente (p.272); a ideia da TSU teve-a, em uma viagem de avião, Gaspar (p.281), que ficou surpreendido com a reacção popular, aliás tão espontânea e sem que até hoje alguém a conseguisse enquadrar a seu favor, e com a recepção a este documento, aproximação que qualifica de padrão de leitura ao modo de “um documento socialista do séc.XIX” (p.283); Portugal beneficiou de “um enorme capital de boa vontade” dos parceiros europeus (estes “queriam mesmo ajudar-nos”, p.173); entre esses grandes amigos do nosso país conta-se o ministro das Finanças alemão, Schäuble; os interesses de credores e devedores (no caso, Portugal) eram os mesmos: que o ajustamento resultasse; é “peculiar”, diz Gaspar, que se ande a arremeter contra quem ajuda, contra quem nos empresta; “houve solidariedade europeia” sim, assume o entrevistado, “embora se possa discutir se podia ter sido maior”; Vítor Gaspar não é um “federalista” (p.359) quando quis ter um retrato, há já uns bons anos, de Paulo Portas, e sem que a fotografia tenha sido “sistemática”, a ideia com que ficou é que se tratava de alguém muito bom na comunicação e com enorme ambição; o PEC IV não trazia nenhuma garantia de que Portugal teria o financiamento necessário para saldar a sua dívida: apenas declarações de apoio; e “declarações de apoio não pagam dívidas” (“o PEC IV não oferecia qualquer compromisso firme e concreto de financiamento. Nenhum comunicado público o atesta”, p.315); Vítor Gaspar não se lembra de nenhuma reunião com responsáveis do PS, nomeadamente com António José Seguro (p.307); o PS oscila entre uma “oposição populista”, pretendendo evitar a discussão sobre modos de financiamento das políticas concretas e uma posição e outra “responsável”: nesta última dimensão, assinala aquela que continua a ser e promete assim permanecer uma matéria muito controvertida no interior do partido socialista: assinatura do Tratado Orçamental (“a obrigação de assegurar esse resultado [equilíbrio orçamental] constitui um constrangimento que condicionará, de forma permanente, a política orçamental entre nós”, p.306); adere ao ponto de vista dos que sustentam que são as instituições o factor que explica a maior ou menor prosperidade de um país e, nessa medida, considera importante o Tribunal Constitucional; simultaneamente, porém, entende que o importante é termos uma Constituição que permita adaptar-se a cada tempo; de modo espantoso, e apesar de admitir a dívida e o défice acima do inicialmente acordo no memorando, recusa que aqui se possa falar de engano, ou erro seu (das políticas, das medidas que preconizou e implementou): “Não usaria a expressão «engano», nem a expressão «erro». Quando um atleta, por exemplo, um corredor de 10 mil metros que se propôs bater, diz-se que ele não conseguiu. Não há aqui engano ou erro” (p.299). Quer dizer, propôs-se a um acto heróico, não o alcançou. E porquê? “O padrão de ajustamento da economia portuguesa foi substancialmente diferente do previsto”: p.ex., o desemprego foi bem superior às previsões. Ou seja, Vítor Gaspar não se enganou; foi a realidade a errar.
O mesmo se diga do ‘desenho do memorando’: o problema não foi o desenho (“não foi um erro do desenho”, p.296), mas da decisão do TC (“um imprevisto”, p.296). Para quem tanto relevara a dimensão institucional, o TC decidir em sentido contrário ao pensado pelo Governo ser visto como um “imprevisto” não é muito simpático.
A quando das negociações com a troika, pré-eleitorais, é Gaspar que decide contactar Eduardo Catroga, dado faltar, no PSD, quem tivesse o seu (de Vítor Gaspar) conhecimento e experiência nestas matérias; mais tarde, participa com Catroga e Carlos Moedas na redacção de textos que virão a fazer parte do programa do PSD para eleições; “A concertação social em Portugal é muito conservadora” (p.283) é outra das suas opiniões; não tem o talento de ser claro – reconhece – nem a modéstia é uma das suas principais características, assume; José Sócrates não soube antever a mudança e adaptar-se a ela (embora seja um bom comunicador); há uma boa gestão bancária em Portugal (p.324).
Durante o mandato de Gaspar, o modo como éramos vistos no exterior não tinha correspondência cá dentro.
Vítor Gaspar trabalhava 14 a 16h por dia no Ministério das Finanças. Deitava-se cedo. O seu humor desconcertante “é involuntário”. Queixa-se da entrevistadora: “A Maria João não tem interesse em argumentos ou ideias abstractas” (p.290).

E, numa frase que podia servir para voltar a olhar a sua interpretação da carta de demissão que deixou, aduz: “é muito difícil distinguir aquilo que se passou numa linha de tempo daquilo que recordamos depois, com a racionalização dos factos” (p.287)


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