quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rui Chafes (II)


Alexandra CARITA, (entrevista) Rui CHAFES, A Religião do Ferro, Expresso. Atual, 08. 02. 2014, 6-11.


Não crente numa doutrina?
Acho que a existência de Deus é um detalhe. Todas as doutrinas, e são muitas, que se dedicam ao pensamento mais sistemático e à teologia das diversas possibilidades são doutrinas de raiz filosófica mas que se relacionam com a existência de Deus, que para mim é um detalhe, não a questão. Muito antes da existência de Deus, é o milagre da nossa fragilidade que é mais importante. Em qualquer caso, não tenho dúvida nenhuma de que foram os deuses que criaram os homens, mas também foram os homens que criaram os deuses.

Quando me falou nos tempos arcaicos em que por detrás de cada planta existia um deus e me disse que é a própria crença, fez-me pensar que também é um deus quando cria as suas esculturas e as coloca no meio da natureza, como se, também elas, fossem orgânicas.
Costumo dizer que só faço as esculturas, o resto é obedecer, obedecer a vozes superiores que me dizem o que fazer. Sou um mero artesão dessas vozes superiores, que me dizem para fazer formas que não entendo. Mas, vendo esse lado telúrico da criação, devo dizer que isso é o que acontece com todos os artistas, a menos que se trate de artistas que acreditem na comunicação e no design, que não é o meu caso. Acho que a arte não é comunicação, é captar as forças, ser capaz de criar catalisadores de forças que andam no ar. Essas formas que crio, muitas vezes, ao integrarem-se na natureza, na verdade, parecem ser natureza, e são. São uma natureza paralela àquela que conhecemos.

Mas acabam por ter vida?
Isso não sei, porque acho que a arte é uma coisa artificial. Não acredito em arte ecológica nem em arte do campo. A arte é uma existência artificial. Uma escultura minha integrada na natureza é uma intervenção absolutamente artificial, cuja existência na natureza ainda mais a reforça. Penso que as obras de arte e as esculturas devem existir no sítio onde fazem sentido. E esta exposição, que mostra 25 anos de trabalho e expõe esculturas no exterior e no interior, coloca bem essa questão. Ou seja, as minhas peças existem na natureza mas poderiam existir numa igreja, no espaço sagrado.

Esse é o seu lado romântico no verdadeiro sentido do termo...
Eventualmente, sim. Uma escultura que existe numa igreja, que é um espaço de recolhimento, um espaço separado e ao mesmo tempo dentro do mundo, funciona como a voz, o vento, a energia com que as pessoas se vão encontrar quando lá entram.

E num museu?
Num museu ou num white cube, estão num hospital. Um hospital onde chegam as peças órfãs, que perderam o seu sítio e o seu território. Vejo as galerias, os museus e todos os espaços neutros como asilos onde chegam as peças muito doentes, que não têm onde cair e já perderam o seu terreno. Ao passo que, quando estão no exterior, na natureza, ou no sítio para onde foram criadas, têm vida própria.

É por isso que escolhe normalmente igrejas, palácios, jardins, espaços pouco convencionais...para expor as suas esculturas?
Não são espaços convencionais para a arte moderna, eram espaços convencionais antes do modernismo, antes de Marcel Duchamp. A arte fazia parte da vivência e do culto dos seres humanos. É o advento do modernismo que cria o espaço neutro.

E como olha para a sua antologia num espaço como o CAMJAP?
É muito estranho. Lá está, é um enorme hospital.

É um esforço acrescido para si montar uma exposição aqui?
Não é um esforço, mas é um exercício de estranheza. Mas para o fazer fora daqui seriam precisas várias igrejas, várias arquitecturas não profanas. Por outro lado, é como digo, a arte moderna e a igreja cortaram relações.

Você não cortou relações com a igreja?
Não cortei relações com a igreja, mas também nunca fui à igreja. Ou seja, não sou um artista católico, nem protestante, nem budista. Sou um artista tecnicamente agnóstico. Não tenho nenhuma doutrina. Aliás, já fiz uma peça permanente para uma igreja católica na Áustria e outra para uma igreja protestante na Alemanha.

E de onde vem a espiritualidade que atravessa o seu trabalho?
É uma espiritualidade que acredita que se podem e devem abrir portas.

Em contraponto a essa espiritualidade existe uma grande austeridade nas suas esculturas.
Acho que não é em contraponto, porque o caminho da transcendência passa exatamente pelo caminho da austeridade e pelo caminho do ascetismo. Isso é visível nos filmes do Bresson. Ele é o exemplo de um artista que acredita que o caminho da transcendência deve ser percorrido na maior austeridade, no maior ascetismo. Eu também acredito.


(cont.)


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