sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rui Chafes (III)


Alexandra CARITA, (entrevista) Rui CHAFES, A Religião do Ferro, Expresso. Atual, 08. 02. 2014, 6-11.



São redomas?
Pois claro que são redomas.

E porquê? Por uma questão de defesa em relação ao mundo?
Acho que é mesmo por incapacidade de aguentar ou de ver tantas coisas. Não tenho anticorpos para ver certas coisas, para ouvir tantas outras, para presenciar outras tantas.

Mas tem um dia a dia normal?
Tenho, graças a Deus.

É um homem de valores, um homem de família, um pai...
Sempre fiz o maior esforço para separar as coisas. Arte é arte, e tudo o resto é tudo o resto. Separo muito o artista do homem e da vida pessoal. A minha vida pessoal é comum, tenho três filhos, uma mulher, pais, irmãos, quer dizer, tenho uma família. Isso é uma pessoa. Outra pessoa é o artista. Não há um único momento do meu trabalho que se relacione com qualquer detalhe biográfico. Não acredito que a minha biografia nem a de nenhum artista interesse a alguém a não ser a ele próprio. Agora, como é evidente, tenho de fazer cada uma das coisas o melhor possível. Tenho de ser um pai de família tão bom quanto consiga, o que não é fácil, e um artista tão bom quanto consiga, o que também não é fácil.


Porquê o ferro?
A partir de 1988 comecei a trabalhar a pedra. Isto corresponde a um período em que estava nas Belas-Artes, era estudante, e como tal podia experimentar várias coisas até descobrir e encontrar o meu caminho. Comecei com os materiais, madeiras, plásticos, canas, e aterrei na pedra, no mármore e no calcário. Depois percebi que o ritmo era monumental, lento e que tinha a ver com a polis, e eu não queria ter a ver com a polis, queria ter a ver com o nomadismo. E o ferro é como uma faca que se leva no bolso. Além disso, descobri que a relação com o ferro e com o fogo estava dentro de mim e era o meu futuro, o meu destino.

Mas é um homem de poesia também.
De palavras, sim. Gosto mais de palavras do que de imagens. Ao contrário do que se diz, acredito que uma palavra vale mais do que mil imagens. Acredito mais no poder redentor e salvador de uma palavra do que de uma imagem. Uma palavra pode matar, fazer viver ou curar.

Pensou em escrever?
É muito difícil.

E trabalhar o ferro não é?
Fui treinado para isso. Comecei nas Belas-Artes e a aprender com o apoio do António Trindade, que era um professor de metais extraordinário e que me ensinou tudo o que sabia. A partir daí continuei a trabalhar sozinho, mas ainda hoje aprendo todos os dias.

Aquela frase de Samuel Beckett — “Try again, fail, fail again, fail better" — diz-lhe alguma coisa?
Diz-me tudo. Isto parece quase uma coisa pedante, mas não é, olho sempre para o meu trabalho como uma tentativa, uma tentativa quase sempre falhada. Existem poucas peças, tirando o primeiro entusiasmo — digo sempre que é a melhor peça que já fiz —, que não considere um fracasso. Tenho sempre a ideia de que tudo o que faço são apenas tentativas, são apenas possibilidades, não houve até agora objetos definitivos, não há ainda resultados.

Isso tem alguma coisa a ver com a persistência e a enorme produtividade que tem?
Eu não tenho muito a ideia de que tenho assim tanta produtividade, mas, no entanto, tenho. Não tenho a consciência de trabalhar muito, mas quando reúno o meu trabalho, vá lá, de cinco em cinco anos, eu próprio fico surpreendido com a quantidade de esculturas que já fiz. Na verdade, foram muitas, e essas muitas esculturas são produto de uma disciplina e de uma ética de trabalho que por sinal é gigantesca. Acho que essa ética de trabalho não se pode perder. E tenho sempre o receio de que haja uma nova geração de artistas que não tenha essa ética de trabalho. Só acredito no trabalho que tenha uma persistência e uma ética na sua própria natureza. Portanto, todas essas esculturas que tenho feito existem porque há uma oficina. Eu visto o fato de macaco para trabalhar.

Isso significa uma entrega?
Exacto. Tem de haver essa entrega, tem de haver esse momento de dádiva, quer para a escultura em ferro quer para a escrita de palavras.

Essa também é a sua verdade?
Claro. Neste tipo de trabalho não é uma bandeira em si, mas é a única verdade que me é possível ter.


(cont.) 


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