quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rui Chafes (IV)


Alexandra CARITA, (entrevista) Rui CHAFES, A Religião do Ferro, Expresso. Atual, 08. 02. 2014, 6-11.


Gostava que as suas obras pudessem falar?
Mas elas falam. Dizem segredos a algumas pessoas, não a todas. Acho que a arte não é para todos, não é para as massas, nem é para a multidão. A arte é um segredo para algumas pessoas.

Taxativamente?
Sim. A arte é para minorias, para aquelas pessoas que têm ouvidos e olhos e que conseguem ouvir esse sussurro. As outras podem passar ao lado e nem que a obra de arte seja gigantesca a veem. Nunca a verão.

Posso depreender daí que o que é para as massas já não é arte?
Um artista popular, no sentido de popularidade, é um mal-entendido. Não é um artista. Um artista popular é o que cumpre o seu papel na máquina, e, no caso concreto desta sociedade de massificação e de sensacionalismo, um papel perverso, que é fazer crer às massas que finalmente têm acesso àquilo que lhes parecia estar negado e que era uma coisa muito estranha chamada arte moderna, só para pessoas elitistas e complicadas. E essa oferta cínica de uma coisa que parece arte não passa disso mesmo, de um acto de cinismo e de um grande mal­entendido. É mais ignorância da mesma ignorância. Não é arte, é outra coisa qualquer. É um parente do futebol.

“O Peso do Paraíso”, o título desta exposição, é uma alusão à leveza das suas peças apesar do peso real que têm?
Sim, o título tem muito a ver com a leveza, a gravidade e o peso do material. A minha ideia é fazer ferro fá­tuo. É como fazer uma coluna de fumo em ferro. Não acredito em objetos. Acho que as minhas esculturas são acontecimentos no espaço, são sombras. Portanto, trabalho com sombras, com fogo, com palavras, com ferro, mas produzo acontecimentos no espaço. São acontecimentos feitos com ferro, é a única coisa que sei fazer, mas tendem a flutuar. Aliás, há muitas peças que estão suspensas.

O que acontece desde sempre no seu trabalho.
Sim. Tenho muitas dificuldades com o chão. Aquela peça que é uma esfera e tem umas cordas penduradas [“Durante o Sono”] é uma fábula, está apoiada e toca no chão mas visualmente é um balão que se sopra e vai ali no ar. Não sou um escultor do peso, sou um escultor da leveza. Ao contrário do Richard Serra, por exemplo, cuja obra tem a ver com o peso, com a massa, com o local e com a ocupação do território terreno, eu tento que as peças, mesmo que tenham três toneladas, voem. Interessa-me a leveza.

Isso tem a ver com o bem-estar?
Não, tem a ver com uma dificuldade em pisar o chão e arranjar um território.

O que significa esta exposição antológica para si?
É uma responsabilidade, porque estou a olhar para coisas que foram o caminho que me trouxe até aqui. O caminho foi este, não foi outro. E é um misto de felicidade, mas também de espanto


 (conclusão)


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