terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rui Chafes


Alexandra CARITA, (entrevista) Rui CHAFES, A Religião do Ferro, Expresso. Atual, 08. 02. 2014, 6-11.


O barulho da hora de almoço da cafetaria do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian não o desconcentra. Em cima da mesa vazia de pratos, copos ou chávenas de café, há um porta-folhas aberto. Rui Chafes olha-o atentamente. Lê e escreve ao mesmo tempo, esquecido de tudo o que o rodeia. Pede mais cinco minutos para iniciar a entrevista e volta a recolher-se nos seus apontamentos. Talvez escreva qualquer coisa como: “Tenho necessidade de um outro tempo, de outra coisa mais lenta, mais próxima do silêncio, da sombra, da beleza e da impossibilidade da beleza, da suspensão do tempo, da solidão, da incomunicabilidade” (in “Involução”, 2008).

Se pudesse escolher, em que época e em que sítio gostaria de ter nascido?
Em 1266, na Francónia, na Baviera.

A pergunta pedia essa resposta, a que se lê na sua biografia ficcionada. É então por isso que encontramos traços tão medievalistas na sua obra e ao mesmo tempo uma disciplina marcadamente germânica? Concilia estes dois aspectos?
Não são inconciliáveis. O primeiro ponto é o meu olhar para o trabalho como um ofício, e um ofício que tem de ter uma disciplina  rigorosa. Acredito que o artista deve sempre encarar o seu trabalho como um ofício, com uma disciplina que tem de ter e de desenvolver para poder chegar a algum ponto. Sou absolutamente contra o diletantismo na arte. Acho que é um acumular de anedotas e de experiências que nunca passam da superfície. Eu gosto de ir ao fundo, ao osso, à origem do problema.

É por isso que há formas que percorrem o seu trabalho desde sempre, como a esfera ou o círculo? É uma procura da perfeição, a busca do Santo Graal?
Não. A repetição da esfera não tem a ver com a busca da perfeição. A procura da perfeição passa pela consciência precisa e rigorosa do que se está a fazer. É isso que é extraordinário na escultura medieval e gótica, e que se perdeu, é precisamente a consciência de que nesses tempos, onde nasci, havia uma sabedoria. Uma sabedoria que tinha a ver com tempo e com densidade. A densificação da arte e do espirito. Aliás, em alemão, a palavra Dichtung quer dizer poesia, que é a mesma coisa que tornar denso. É curioso que o verbo fazer poesia coincida com densificar. Essa ideia de a poesia ser a densificação das palavras e do pensamento interessa-me muito, e isso só se consegue com uma oficina e com o espírito oficinal do desenvolvimento e não com o diletantismo. Os artistas que são ou querem ser diletantes são como borboletas e vão cheirando várias flores. É um caminho. Eu seria incapaz de fazer isso, porque ainda hoje acredito que tenho um futuro para aprender, tenho um caminho pela frente que não está de forma nenhuma dominado, é um caminho de aprendizagem, e enquanto assim for vou atravessar esse caminho.

As suas obras também exigem esse caminho de aprendizagem ao espectador.
O que é essencial para mim. As obras mais importantes são aquelas que oferecem resistência a mim próprio, não só ao público. São obras que passados anos continuo sem compreender. Essa resistência que uma obra oferece ao espectador faz parte da sua própria existência. Se uma obra é fácil e não é preciso lutar por ela, também tem uma vida muito curta. É a diferença entre arte fácil e banal e superficial e sensacionalista e arte difícil, chamemos-lhe assim. Acredito que uma obra de arte não é feita só para o artista, é feita sobretudo para o espectador. A minha escultura não é feita só por mim e pelas pessoas que trabalham para mim, é completada pelo olhar do espectador. Por isso é que acredito que uma obra de arte só existe quando é vista pelos outros. Uma obra de arte que não é vista, que está na gaveta, não existe. E digo, ao contrário de muitos artistas, que trabalho para os outros.

Há uma necessidade de estabelecer uma relação com os outros e com o mundo?
Nós vivemos porque os outros existem. Não conheço ninguém que viva sozinho. Morremos...morremos sozinhos. Morremos na mais completa solidão, mas a nossa razão de existir é o facto de os outros também existirem. E isso tem a ver com os outros enquanto pessoas, enquanto almas, mas também enquanto corpos, enquanto olhares, enquanto vozes. Nós existimos porque existem outras vozes, existem olhos que nos olham.

A morte é uma coisa que o preocupa?
A morte é a continuação da vida, tal como a vida é a continuação da morte. Não é uma preocupação. Há coisas que condicionam a vida, como a incerteza do futuro, as condições materiais para a sobrevivência, o amanhã e, omnipresente, a morte. Aliás, Primo Levi tem um texto exatamente sobre essa omnipresença da morte, que no fundo é o que dá sentido à nossa vida. A morte é o que nos mantém despertos. Não é uma preocupação.

Teve um gravíssimo acidente de viação, esteve mais perto da morte do que a maioria das pessoas. O que é que isso mudou na sua vida?
Mudou a minha vida toda. Não saberia dizer ou verbalizar exatamente o quê. Mas de certeza que mudou a minha vida toda, porque quando uma pessoa é levada à lâmina do abismo, entre o sim e o não, o estar ou não estar, a consciência do que é importante e do que significa o sol nascer todos os dias e a pessoa ter o privilégio de estar vivo — para mim é um privilégio estar vivo — ganha um significado que sem dúvida está em cada fibra do meu ser.

É um homem crente?
Sou mais do que um homem crente, sou a própria crença. Acredito que a vida é um milagre, que é preciso defendê-la, que é preciso considerá-la um privilégio. Aliás, acho que toda a gente devia ler várias vezes o livro do Primo Levi [“Se Isto É Um Homem”], para relativizar o seu próprio sofrimento. As pessoas muitas vezes procuram motivos para serem infelizes e esquecem-se de que há infelicidades bem maiores. A vida é um privilégio que é preciso respeitar, amar, defender. A crença no milagre passa por aí. Acredito que nascer não é só nascer. Há algo maior no nascimento. Não é um acontecimento biológico, não é do mundo ou da energia, é do nível do milagre.

Do nível do sagrado?

Do nível do sagrado, sim. É como durante séculos as pessoas terem acreditado que os deuses estavam por todo o lado e que as plantas falavam e que por detrás de cada planta existia um deus. Mas todo esse mundo arcaico e do sagrado foi-se perdendo. Chegámos a um mundo materialista que passa pela banalização do pensamento científico como pela banalização da vida enquanto acontecimento não milagroso. É por isso que, por exemplo, muitos dos funerais hoje são feitos a olhar para o relógio. Já vi publicidade de agências funerárias que falavam exatamente disso: como sabemos que não tem tempo a perder, somos muito rápidos a tratar do assunto. Isso é a total dessacralização da vida e da morte. E eu, volto a repetir, sou crente no milagre da vida.

(cont.)


Sem comentários:

Enviar um comentário