sábado, 22 de fevereiro de 2014

Habitus (V)


O regresso a uma sociedade “do Rei das três religiões”[1], isto é, uma sociedade com elementos de multiculturalidade – laços estabelecidos com culturas e etnias diferentes das de partida – e uma tripla filiação ao nível da cidadania[2] – ligação ao Estado-nação de origem; ao espaço europeu em que, portugueses, nos situamos; às comuns questões da humanidade em que nos inserimos. Assentes em uma ‘teologia do mercado’[3] a suscitar grandes migrações para as sociedades afluentes – nova emigração em massa dos portugueses, também, encontrando novos espaços de liberdade e configuração – e contratos laborais precários, em permanência, sendo que situações de desemprego e sub-emprego deixam de ser raras, tal como, portanto, a mobilidade profissional e residencial; presentes numa globalização, que nos cabe auxiliar, com o nosso específico contributo, a moldar; em que os novos espaços públicos se encontram na rede[4], assim se prospectivará, como atrás se adiantou, uma reconsideração, aturada, das novas condições de actuação/activação do habitus[5].



Em conclusão deste trabalho, dir-se-á que as virtualidades do conceito sociológico de «matriz de disposições» são manifestas: este permite explicar o empirismo e a lógica prática global dos comportamentos humanos, bem como a relativa pregnância de práticas sociais, apesar da volubilidade dos contextos e conjunturas e a reprodução social em geral[1]. Todavia, não podemos ignorar, do mesmo modo, e, bem assim, incluir nesta reflexão, a problematização de uma explicação das práticas sociais, em geral, e da prática científica, em especial, radicada em habitus específicos, arbítrios culturais, como podendo conter a validação da arbitrariedade, do indiscutível. Numa palavra, podemos aqui estar confrontados com o risco de relativismo[2](e dentro de uma mundividência cristã, sempre a convicção/crença de que a humana razão se iria alcandorar ao ‘objectivamente bom’, à verdade, se impôs como essencial).



[1] J.L.CASANOVA, o.c., p.63.
[2] Ibidem, p.64.


[1] Cf. A.MOREIRA, A circunstância do estado exíguo, Diário de Bordo, Lisboa, 2011.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] Cf. D.INNERARITY, O novo espaço público, Texto Editores, Lisboa, 2010.
[5] J.L.CASANOVA, o.c., p.61. “se não se trata, geralmente, de uma recomposição radical de disposições, há pelo menos razões para sugerir possíveis modificações efectivas nos habitus dos actores envolvidos, modificações essas que se deverão traduzir em inflexões nas práticas observáveis ao longo do tempo, que decorrem da existência de disposições regressivas e de disposições progressivas no que respeita à sua expressividade temporal. Uma perspectiva processual que sobreleve os efeitos de percurso (em termos de trajectórias sociais e, portanto, de alterações ao nível das condições objectivas, dos quadros de interacção ou mesmo dos grupos de referência dos actores) no processo de formação da matriz de disposições, pode, pois, contribuir para uma exploração das virtualidades teóricas deste conceito, através de uma teorização da reconfiguração do habitus e de uma diferenciação analítica entre disposições regressivas e progressivas”.

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