quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O que é o mito?


Mito: por mito entenda-se aqui a descrição que dele é feita hoje em dia pela história das religiões: não uma falsa explicação através de imagens e fábulas, mas uma narrativa tradicional sobre acontecimentos que tiveram lugar na origem dos tempos, destinada a fundar a acção ritual dos homens dos dias de hoje e, de maneira geral, a instituir todas as formas de acção e de pensamento através das quais o homem se compreende a si mesmo no seu mundo. Para nós, modernos, o mito é apenas mito porque nós já não podemos religar esse tempo ao tempo da história, tal como a escrevemos segundo o método crítico, nem sequer ligar os lugares do mito ao espaço da nossa geografia; é por isso que o mito já não pode ser uma explicação; excluir a sua intenção etiológica, eis o motivo de qualquer desmitologização necessária.
No entanto, ao perder as suas pretensões de explicação, o mito revela a sua capacidade de exploração e de compreensão, aquilo a que chamaremos a sua função simbólica, ou seja, o seu poder de descobrir; de desvelar o elo entre o homem e o seu sagrado. Por mais paradoxal que isto possa parecer, o mito, desmitologizado desta maneira pelo contacto com a história científica e elevado à dignidade de símbolo, é uma dimensão do pensamento moderno.


Paul Ricoeur, A simbólica do mal, edições 70, Lisboa, 2013, p.21-22.


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