sábado, 15 de fevereiro de 2014

Primários


O convívio com Plutarco, ou Ovídio, na escola primária, verificava-se, naturalmente, através de Chaucer, quer na escola isabelina, quer na vitoriana. Esse feliz convívio durou até 1914. A literatura expressava o génio da nação e era elemento determinante para a identidade nacional. Acreditava-se que formava o bom gosto, a sensibilidade estética, mas, também, a sensibilidade moral. As guerras mundiais derrubaram o optimismo e a crença na literatura. Estes tópicos, queridos a Steiner e por ele desenvolvidos vezes sem conta, levam-no a questionar, já em 1965, se se devia continuar a pegar num passado sem presente, ou até futuro (um passado não operativo); se não se devia, logo ali, na década de 60, aprender línguas de outras áreas civilizacionais que não a ocidental para não se ficar com uma visão paroquial; se não era urgente estudar o mandarim, pois que a China determinaria muito, note-se a profecia, o nosso futuro.
Há poucos anos, num livro provocador advindo do mundo chinês, onde se exaltavam algumas diferenças no modo de olharmos a educação a ocidente e a oriente, A mãe tigre explicava que uma sua filha de três ou quatro anos lia, já, Sartre (se não estou em erro; cito de memória). Pareceu-me exagerada a referência e um excessivo forçar do ponto: nós aqui puxamos pelos miúdos.
Já um convívio normal com os clássicos, com mediações nacionais, como o acima exemplificado, me surge natural. Por cá, a tendência para ver, em tudo, uma exigência desmesurada, da escola, sobre as criancinhas parece-me tão pouco equilibrada como ler e entender Sartre aos três anos.


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